domingo, 10 de maio de 2015

UM ANJO QUE TOCAVA CRAVO.

    O meu time ganhou do time de um amigo que apostou que o seu não perde quando joga com time pequeno, como ele queria que eu acreditasse que fosse o meu. No primeiro tempo as coisas, de fato, pareciam melhores para o dele, mas no início do segundo a gente fez um gol, depois mais um e o terceiro não tardou. Foi um chocolate que o meu time, tido como pequeno na concepção do amigo, deu no time dele. Na intenção de esquecer o sucedido ou melhor, que eu não o sacaneasse mais do que o meu time já havia conseguido, sugeriu que jantássemos no shopping daquela avenida. Aceito o convite partimos rumo à praça de alimentação.  As lojas tinham se preparado para as vendas do dia das mães, mas ninguém queria antecipar a compra dos presentes, por isso os vendedores abordavam os que arriscavam olhar para as vitrines.  O balcão de uma loja de discos quase escondeu de mim a vendedora que trazia no rosto as feições da Gisele. Olhando melhor eu concluí que Gisele é que tinha as suas feições tamanha era sua beleza.  Era linda, esguia e gentil. Comprei um CD para mim e um para minha mãe. Depois que o meu amigo, torcedor do imbatível time, se despediu eu voltei à loja em busca de um título do qual não me lembrava o nome. Fingindo procurá-lo entre tantos tive da Gisele o socorro que eu tanto precisava. Infelizmente foi por pouco tempo que ela me enfeitiçou com seu perfume, pois num golpe certeiro, como a cobra dando um bote, ela sacou o disco de uma estante no alto de nossas cabeças, e o entregou a mim. O toque de leve na sua mão quando peguei o disco e a presença do seu corpo assim, tão pertinho de mim, foi tudo o que eu precisava para me sentir vivo como todo mundo. Pena que foi tudo muito rápido. Aí eu fui ao caixa fazer o pagamento. Guardei o troco, sorri para Gisele em agradecimento e contra a minha vontade fui embora, mas esqueci de levar o disco que comprei. No outro dia antes da loja abrir eu já estava de pé na porta para pegar o que havia esquecido, só que era folga de Gisele. Comprei discos durante todos os dias daquele mês e para ser sincero, jamais ouvi uma só de suas faixas. Eu, tímido que sou, não queria ouvir os arranjos dos grandes maestros, a belíssima voz dos seus contraltos ou viajar nas emoções de suas melodias, mas receber de Gisele aquele olhar triste que se escondia por trás de um sorriso tão puro que parecia me fazer flutuar.  Era isso o que eu queria e fiz assim até que certo dia ela pediu as contas e foi embora. Ninguém jamais soube do seu paradeiro e eu morri com aquela possibilidade.  Morri porque nasci no dia em que o meu time ganhou de um tão grande que ninguém acreditava que vencê-lo o meu fosse capaz. Foi no mesmo dia que um balcão, pretensioso, quis esconder Gisele dos meus olhos e coincidentemente eu nasci no mesmo instante em que percebi que me olhava e sorria para mim. Só para mim. Nesse momento eu sentia que bailava sobre as nuvens, sem pisá-las.