sexta-feira, 8 de maio de 2015

LOUCURA, LOUCURA,
LOUCURA...

    
     A cada esbarrão um sofrimento, uma vontade de voar com unhas e dentes no pescoço dela. Não seria prova de coragem tal atrevimento, mas algo muito próximo da loucura, do desejo ou do tesão. Ontem, mais uma vez ela ultrapassou os limites que me mantém longe do desatino. Tem vez  que nem eu mesmo acredito que tenha me controlado diante a tanta provocação e o pior é que eu não sei se é de propósito ou por inocência. Certa vez ela calçava um par de sandálias de couro com tiras finas  que realçava  um par de pés que mais parecia os da santa que MiguelÂngelo foi pago para pintar no teto da Capela Sistina. O longo vestido branco solto sobre a pele arrastava o resto da seda como a calda de um cometa. Os passos pareciam que eram dados no ar, tal sua beleza e a plasticidade com que eram dados talvez nem um flamingo diante da fêmea fosse capaz para impressioná-la. Enquanto isso o calor que tomava meu corpo de tão intenso me sufocava, mas era prazeroso. Era uma febre delirante como o sofrimento que antecede a morte, e mesmo estando neste estado consegui me controlar. Pelo menos eu achava que mantinha os meus alucinantes desejos sob controle. Assim fiquei até que ela, dois dedos diante da pessoa controlada que eu fingia ser, desandei a massa ao perceber que o giro nos calcanhares demonstrava que ela ia embora pressionando o gatilho da incoerência que matou o medo, o respeito e a razão de um pobre diabo testado muito além dos seus limites. Como acima eu disse, voei na goela dela, mas não mordi, beijei. Cravei nas suas carnes as minhas unhas, mas por tê-las cortado rente não a feri além de lamber naquele corpo o fogo que eu pensava só querer queimar a mim. Ali eu perdi o que não tinha enquanto ela desmistificava a inocência para descobrir o gozo incontrolável que pode ter uma pessoa ao se descobrir mulher.