segunda-feira, 13 de abril de 2015

BRASILEIRA, RUSSA OU UCRANIANA?

   
   Era um amor sem sexo, sem toques e sem sonhos, mas se amavam como se amam um casal de namorados. Ao concluírem o fundamental Andrezza e Ana Clara se empenharam nos estudos com vista ao vestibular de medicina. Os pais de Ana Clara não tinham os recursos dos de Andrezza que era filha de um embaixador russo no Brasil. Naquele famigerado dois de outubro Andrezza era só felicidade. Tinha a mocinha o viço das flores na primavera, a beleza do primeiro voo depois do ninho e na apele o frescor da água das flores. Ana Clara sentia que algo de errado estava para acontecer, talvez por saber que Andrezza poderia receber o primeiro pedaço de bolo do aniversariante, filho dos amigos do embaixador, que além de bonitão era muito disputado entre as  garotas. Só que Andrezza não contava que o prazo da sua felicidade vencia naquela noite. No meio da festa o motorista de sua família apareceu para buscá-la. - Seus pais tentaram falar com a senhora, mas o celular estava dando fora de área - disse-lhe o chofer. Questionado o por quê de não tê-la esperado chegar à casa para dar esta  notícia, ouviu do seu pai que, por ordem do governo russo, deveria voltar ao seu país naquela noite - concluiu exibindo os bilhetes de embarque. O voo sairia à meia-noite. Tinham, portanto, menos de três horas para arrumar suas coisas e se despedir de seus amigos.  
    28 anos mais tarde, Frederico, filho mais velho de Ana Clara, com um oficial de marinha, dava entrada no  hospital de Járkov, uma cidade no nordeste da Ucrânia, com várias fraturas pelo corpo. Fred acidentou-se com a moto em uma curva indo de encontro a uma árvore - disse o tio, irmão do marinheiro, que o tinha em casa naquelas férias. Para sua felicidade e a de sua família no Brasil, a Dra. Andrezza, prêmio nobel de medicina daquele ano, se encontrava no hospital para uma palestra e por uma obra de Deus, quis conhecer o jovem de cuja terra ótimas lembranças ela tinha. Sob a manga do jaleco, no pulso esquerdo da doutora via-se uma flâmula brasileira tatuada. Quando você ficar bom e voltar à sua terra - disse com os olhos marejados - diga a sua mãe que a Dra. Andrezza sente muitas saudades da gente, e que você se parece tanto com ela que tenho vontade de beijá-lo - disse com um beijo na testa do rapaz.