quinta-feira, 9 de abril de 2015

BRINCADEIRA DE CRIANÇA.

           
Ela deu uma lambida com tamanha sensualidade no sorvete, bem ali, num banco em frente ao meu,  que até o mais preguiçoso músculo do meu corpo enrijeceu. Talvez eu fosse um dos que babavam na camisa, enquanto ela, sorrindo com a inocência das crianças, nos enfeitiçava com uma língua que, tal qual uma serpente, se contorcia dentro da casquinha em busca de sua presa. As mulheres cochichavam umas com as outras enquanto os homens mantinham presos dentro dos bolsos os seus próprios devaneios.
         Quando a jovem se pôs de pé, talvez não tivesse se dado conta, que um pingo branco, sabor coco ou nozes com passas ao rum, escorresse por uma de suas coxas a um palmo acima do joelho ou a quatro dedos do jardim do Éden. Ele se arrastava preguiçosamente por entre os fios dourados pelo sol enquanto os bobalhões, como eu, lambiam os beiços pensando ser o doce que escorria na coxa dela.
        Foi uma sessão picante de cinema. Um conto censurado de fadas. Um momento 
de pura fantasia. Mulheres olhavam para a perna da moça e para os morteiros olhos dos maridos. 
                Talvez aquele pingo naquela coxa não quisesse ser lambido pelos olhos, como o lambíamos e a dona das pernas assim nos deixava imaginar, por isso tentasse o pingo se esconder na confluência do joelho como se escondeu. 
Depois a moça foi embora enquanto, aos poucos, os lugares nos bancos iam sendo ocupados por outras pessoas numa praça aonde as crianças, que até então não eram percebidas, corriam, umas atrás das outras gritando; tá contigo! Agora é você quem deve me pegar!