sexta-feira, 27 de março de 2015

MALDITA ESCURIDÃO.

       Não era sempre que eu vinha ao rio, mas quando me decidia era por insistência de um amigo que morava entre Ipanema e o Grajaú, com os pais. Esse cara, como seu Jair, meu sogro, não parava quieto em sua casa e só era feliz ficando fora dela. Como a firma para a qual ele trabalhava dispensou os seus serviços eu pensei que encontrá-lo na praia não fosse tão difícil. Quando desembarquei nessa cidade fiz questão de avisá-lo da minha chegada, mas ele maluco como era resolveu ir para a Malásia ver o grande prêmio da formula um e nem para me dar um toque.  Louco por corrida não perderia essa oportunidade nem que a vaca precisasse de xarope para ver passar a tosse, já que tinha as despesas pagas pela empresa antes de ser mandado embora.  No final da ligação me garantiu que avisaria a mãe para arrumar seu quarto, onde, mesmo sem a presença dele eu me arranjaria.  Em lá chegando, lá fiquei,  a poucas quadras da praia aonde pouquíssimas vezes saí  para um mergulho. Preferia ficar olhando  a irmã dele cuidando dos seus afazeres. Ela, por sua vez,  sabendo que eu a espionava, fazia tudo para me provocar como se eu não soubesse disso.  Quando ia ao banho esquecia a porta aberta e algumas peças de roupa que ia usar. Nua como veio ao mundo olhava para um lado e para o outro antes de sair na ponta dos pés para pegar as roupas que supostamente tinha esquecido. A moça parecia um cavalo de raça, digo, uma égua premiada. Tudo nela era certinho. As pernas longas e lisas, o par de seios pontiagudos e aquela bunda.  Meu Deus, que bunda tem essa mulher!
     Ontem eu acordei com o barulho da água do chuveiro e fiquei imaginando essa garota nua do outro lado da parede, a cinco ou seis passos dos meus desejos. Levantei como se fora um gato e me esgueirando até a porta que estava entreaberta lambuzei meus olhos no mel daquela silhueta no embaçado do blindex. Ela fechou a água e abriu a porta enquanto eu, para não ser visto, voltei correndo à cama dando asas à minha imaginação.  As luzes se apagaram e só os meus desejos continuavam acesos. Mal e com muito sacrifício eu percebi um vulto invadir meu quarto. Essa sensação me colocou em alerta e foi assim que larguei o que duro eu segurava para ver ou tentar entender o que podia acontecer.  E ela veio, veio como eu sonhava,  a passos lentos, parecia nua em minha direção. Às pressas tirei a roupa e o lençol que me cobria para recebê-la despido de qualquer força que superasse a de agarrá-la, a de beijá-la e a de possuí-la como um escravo possuiria a sinhazinha.  Nossos corpos se tocaram, nossas bocas se beijaram e minhas mãos, sempre tão seguras, fugiram ao meu controle. Só os nossos olhos não se viam se luz acesa alguma existia ali. Até esmorecer o corpo a gente transou como se a noite e a madrugada não fossem acabar. 
    Eu não me dei conta de quando ela deixou meu quarto. Deixou, mas, como lembrança também deixou, mesmo que por esquecimento, um dos brincos que usava.  Pela manhã foi sua mãe quem me acordou para o café, talvez a mando da filha, pois isso nunca aconteceu desde que ali eu pus meus pés.  O café foi tranquilo, já que todos estávamos de bom humor, principalmente ela, que para meu contentamento, não dava pista do que tinha acontecido. Sua mãe, no entanto, era só alegria e para meu desespero vi que a senhora usava um brinco. Só um, e por acaso, muito parecido com o que eu guardava no meu bolso.