sexta-feira, 13 de março de 2015

É PROIBIDO FUMAR.


Foi num pé sujo próximo ao meu trabalho, que dividi a mesa com um desconhecido para 
não beber sozinho. Todas sextas-feira quando eu saio do trabalho vou a esse bar aonde bebo as minhas mágoas e as minhas alegrias, mas nunca em companhia de estranhos como fiz naquele dia. Só que dessa vez alguma coisa diferente aconteceu em nossas vidas, na do forasteiro e na minha.  A noite ainda não tinha  caído quando uma garota que passava na calçada em frente ao bar, parou para olhar pra gente. No momento eu pensei que fosse para o cara, um assíduo frequentador  daquela espelunca  com quem eu dividia a mesa até que um colega do trabalho chegasse para beber comigo. Levou alguns segundos vasculhando a própria bolsa, depois seguiu até o caixa onde, parece, comprou  cigarros.  Quando saiu segurava entre os dedos, preso aos lábios,  uma cigarrilha que, curvando-se sobre a mesa, me pediu para acender. Eu não fumo, disse-lhe constrangido olhando dentro do seu decote. O cara ao meu lado, de um salto, se aproximou da jovem e, cheio de mesuras, acendeu o vicio que eu não tenho, pois se tivesse, seria eu a olhá-la assim, tão de perto para sentir ao seu lado o que sinto sozinho agora. Aspirou profundamente a fumaça para assoprá-la para o alto enquanto eu, sentado na direção do seu umbigo, viajava com todos os meus sentidos sob um par de belos seios que ela, maravilhosa como parecia, mantinha apontado para as estrelas. Agradecida permitiu ser beijada na face e das mãos dele recebeu um cartão que guardou na bolsa e como se saltitasse pequenas ondas, se foi na ponta dos pés sem olhar para trás. Talvez agonizando como eu acho que ficam os jurados de morte, eu tenha notado um sorriso leve e bonito que ela ao sair levava, não sei por quem, desenhado nos lábios. Tim tim, bateu o cara com o seu copo no meu. Vamos beber, moço. Pois agora quem paga a rodada sou eu. Bebi o meu copo e dividi com ele a garrafa que havia pedido.  Paguei a conta e fui embora levando desenhado nos meus lábios a tristeza por ter há mais de 20 anos deixado de fumar.