domingo, 22 de março de 2015

BEBO SE TENHO SEDE.

     O que importa mais, falar ou ouvir quem não cala a boca? A segunda opção deve ganhar de goleada, já que falando você corre o risco de se atrapalhar com as palavras e possivelmente se enrolar com o assunto, ou será que ninguém pelo menos uma vez na vida, discordou de uma decisão acertada ou tenha concordado com um erro que poderia ter sido crucial?  Ontem, conversando com o meu sogro eu contei um caso que tinha tudo a ver  com a pergunta que estou fazendo. Zé Klein, que na ocasião tinha 48 anos, era esguio, alto e forte, como a maioria dos emigrantes alemães que conhecemos. Certa vez ele, e o vício que carregava, protagonizaram a maior e talvez e mais engraçada história que eu já tive conhecimento. Zé Klein vivia perambulando sem rumo e direção com meia garrafa de cachaça debaixo do braço, enquanto a outra metade agia em suas veias. Naquele dia ele chegou mamado na casa do seu melhor amigo que por azar velava o corpo do pai vitimado por uma síncope.  Zé Klein não percebeu que entre as velas jazia o corpo de quem tão cedo batera as botas. Por isso, alto e bom som, cantou parabéns pra você diante da indignação dos presentes. Parou com a cantoria quando soube se tratar de um velório e não de uma festa de aniversário, mas isso, lá fora depois de ser arrastado do recinto por uma velha e dois negão.  Envergonhado meu tio se justificou para quem o quis ouvir; - Quando cheguei eu vi as velas acesas e um bando de gente desanimada em volta da mesa. Pensando em dar  um up nessa festa, cantei o que achava que todos deveriam estar cantando, mesmo estranhando, como estranhei, o tamanho do bolo que tinha ali, concluiu meu tio escondendo o rosto entre as mãos. A maioria segurou o riso, só os normais não conseguiram. Eu, consternado com a morte do velho, como estava, mesmo assim não tive como evitar o riso provocado pelo erro do bebum, gente boa. Se ele tivesse entrado e ficado calado, não teria cometido o imperdoável erro, mas em compensação o funeral do pai do amigo já teria caído em esquecimento.  
      Portanto, ouvir é imprescindível, mas falar, nem sempre. Principalmente se a pessoa leva álcool à transitar em suas veias.