domingo, 1 de fevereiro de 2015

VIDA QUE SEGUE...

No passado ele até entendia que a vida se leva com alegria e um pouco de sofrimento.
 Muito se tem feito pela manutenção da cordialidade, mas as baterias continuam viradas na direção das possíveis tristezas no intuito de abatê-las assim que despontem no radar.  Mesmo com esses cuidados a coisa vem mudando de tal maneira que em dado momento se viu acuado como as raposas ficam em época de caça. Era de seu conhecimento que ela nutria por ele um sentimento, não digo de gratidão, mas de cordialidade. Todos se deitavam, acordavam na mesma hora e praticamente nada precisavam fazer para manter a relação que tem outras famílias. Ela, com as vantagens que a mulher tem e ele, por entender que o homem é o lado forte da relação, assumia as dificuldades que iam surgindo.  Mas voltando ao assunto; ela acordou naquela manhã bem diferente das outras de sua idade. Seus olhos estavam fundos como se chorasse a noite inteira ou fizesse aquilo que mantém o macho subordinado aos caprichos de sua fêmea. Eles dormiram a noite inteira, mesmo assim ela estava um caco. Um, digamos, bagaço, não importando se de laranja ou da cana depois do caldo. Ele, no entanto, estava bem, pelo menos demonstrava estar.  Depois de um banho e ter feito a barba ficou ainda melhor, mas ela não. Continuava macambúzia, oh, palavra desgraçada! Tomaram café, depois ele arrumou a cama e decidiu convidá-la para um passeio.  Talvez  comprasse uma carne e algumas verduras para o almoço, caso encontrasse pelo caminho quem as vendesse. Mas ela, coitada, continuava indiferente. Coitada porque já vinha se comportando dessa maneira fazia tempo enquanto ele, idiota como se dizia ser, nem se dava conta do quão importante era saber o porquê daquele ar de sofrimento num sábado tão bonito.  Talvez eles devessem consultar um especialista para tentar mudar o quadro, pois do jeito que ia, não ia a lugar nenhum. Enfim, saíram.  Talvez pensando que ele a levasse a pé, como quando vai sozinho ao mercado, ela fizesse aquela cara, mas quando desligou o alarme e abriu a porta do carro uma duvidosa alegria banhou o seu semblante. Durante o passeio ele se arriscou falar de sua decisão em levá-la a um profissional para pedir ajuda, mas ela, nem para a cara dele olhou. Parecia que a imagem que via todos os dias através da janela do carro era mais importante que o cuidado que ele demonstrava ter com ela. Em pouco tempo, depois de falar com quem manja do assunto e gastar um bom dinheiro, o cara entendeu que a vida tem dessas coisas e viver sorrindo o dia todo não é possível a quem tem tanta coisa para resolver nesse mundo cão, em que vivemos.