terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

ÚLTIMOS SUSPIROS...

Cantando o samba enredo da Portela os últimos foliões seguiam a bateria pela 
Sapucaí que pouco tempo mais tarde se debruçava no silêncio da grande festa. Ela, no entanto, sabia que naquele momento o carnaval também acabava para quem não tinha outras pretensões senão a de ver o brilho das escolas  e a desenvoltura dos passistas. Só que não. Os tamborins ainda repicavam em seus ouvidos quando alguém, não se sabe se fruto do bem ou do mal, apareceu, do nada, sambando para ela.  Depois de vários giros e belo sapateado, movimentos quais nunca tinha visto, ele se curvou ajoelhando em sua frente. Beijou a rosa que trazia no chapéu e em movimento contínuo, sorrindo à  ela ofereceu. A moça surpresa não sabia como se comportar diante de tão belo gesto, mas num movimento que não acreditou que seria capaz, a recém chegada ao Rio na intenção de amenizar a dor que uma traição lhe causara, também beijou a flor antes de prendê-la no cabelo.  Mal tinha a flor entre o grampo e os curtos fios negros e o jovem, que não tinha a vivência, mas tinha o jeito de Carlinhos de Jesus, abraçou-a curvando o corpo junto ao corpo dela para beijá-la nos lábios de forma que jamais fora beijada.  Ela poderia estar pensando, caso não fosse carnaval, que tinha sido dopada, drogada, mas nada disso no momento acontecia. O surdo batia cadenciando os últimos passos da escola enquanto o coração da bela moça, enfeitiçada com o beijo que recebeu,  sambava no compasso dos orgasmos que num banheiro químico, ali, bem perto, ele nela provocou. 
Enfim, como diz o velho Palhaço Poeta, eram os últimos suspiros do carnaval.