terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

TEM ALGUÉM AI?


      É uma chuva passageira, garantiu-nos o guia com quem há meses combinamos um passeio que consistia numa caminhada através da mata por entre pedras, árvores e pirambeira camuflada na vegetação.  O destino era o cume de onde, me garantiram os que lá foram, não existia no mundo visão mais gratificante. Essa chuva, que chamavam passageira, há horas nos prendia na base como se tentasse nos remover da ideia de ter sob os pés a razão desse desafio. Como eu disse, a chuva é passageira e logo o sol vem dar as caras, portanto não há o que temer, garantiu o guia vasculhando o céu. Em pouco tempo as nuvens ameaçadoras tinham sumido confirmando as palavras do guia. E foi com esta esperança que abrimos mão de uma pousada aconchegante aonde degustamos vinhos de boa safra ao pé de um fumegante fogão de lenha. Ali cantamos diversas cações antigas ao som do violão bem tocado de Wallace, um dos integrantes do grupo.  Partimos e depois de duas horas, já dentro da mata, estancamos com um trovão que mais parecia uma onda gigante explodindo no rochedo.  Fujam todos!, gritou o guia correndo morro abaixo enquanto dizia que uma tromba d'água devia ter desabado na cabeceira do rio e se tal fato se confirmasse uma avalanche de pedra e de lama desceria por ali. Foi exatamente como o guia previu, parecia coisa de cinema. Meia hora mais tarde o silêncio era a resposta às perguntas que não fiz. O que teria acontecido ao grupo?  Creusa, a única pessoa que eu não tinha conversado, por estar enrabichada com o músico, ficou estática com os gritos que ouviu. Eu, no entanto, corri para o primeiro buraco que encontrei na rocha, mas antes puxei a garota que mais branca do que paina, não movia um músculo além dos que a deixavam tremer e chorar. Algumas bananeiras caíram sobre a entrada do buraco nos protegendo da chuva de vento que nos obrigava a adentrar cada vez mais fundo naquela escuridão.  O mundo parecia desabar ali, a dois passos diante da gente.  A quantidade de lama e pedra que passava no entorno do nosso abrigo era coisa de louco. Parecia que a montanha derretia e logo nos levaria com ela.   Passado o pesadelo andei para fora uns dois metros que o precipício me permitia. Acima de nossas cabeças havia outra fenda na rocha  semelhante a nossa. Resolvi gritar. Felizmente havia alguém por lá, aliás, mais de uma pessoa. Uma das pedras tinha atingido Wallace que desmaiou, mas graças ao bom Deus foi resgatado por Amanda e pelo primo dela que infelizmente foi arrastado para baixo no lamaçal dentro do rio. Eu queria subir até lá, mas como descer era mais fácil fizemos uma corda com as nossas roupas e com a nossa ajuda eles vieram ter com a gente. Amanda não descuidou dos ferimentos do rapaz nem por um instante, deixando Creusa tão enciumada que pra fazer pirraça não me largou mais. O silêncio da noite poderia ter sido muito pior não fosse Amanda estar cuidando do companheiro. Esse fato permitiu a minha companheira aquecer seu corpo no calor do meu enquanto os outros, certamente fazia o mesmo.  Ali ficamos por dez horas.  A nossa respiração mudava de frequência enquanto os nossos ferimentos nos levavam a gemer, tinha momento.  Quando finalmente o cansaço nos queria fechar os olhos, eis que o sol resolveu abrir os dele e graças aos gritos de; tem alguém aí?, a gente correu à entrada da gruta para que o pessoal do resgate soubesse que tudo ia bem.  Quanto a  nossa história, mais tarde contaríamos uma parte dela.