segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

RETROSPECTIVA.

Quando se fala em retrospectivas logo nos vem à mente os melhores e até os 
não tão importantes acontecimentos que nos marcaram no ano cuja passagem deu vez ao que ora nos abraça. Lembro-me dos momentos que marcaram como ferro em brasa a minha alma para que deles não me esquecesse. Os ruins também me causaram dor, a mesma dor que sente o gado quando tem no couro gravado o nome do dono. 
Voltando no tempo eu me lembro dos meus primeiros 13 anos. Época em que a gente se reunia no final da tarde para fazer estrepolias. Dos meninos eu me lembro de todos, mas das meninas somente aquelas que marcaram a minha vida. Lembro de Delair, uma pretinha magrela que batia nos meninos, talvez pretendendo imitar a mãe que não tinha medo de homem. Eu, muitas vezes, me espantei com marmanjos varando porta afora da casa de D. Hilda com ela em seu encalço gritando palavras que nem eu que iniciava na puberdade era capaz de proferir. Aqui, sem que ninguém nos ouça eu  faço uma confissão; eu também já corri dos tapas certeiros que Delaí dava nos moleques que não faziam o que ela pedia. 
No morro onde eu cresci vivia uma família, também negra, que morava duas casas acima da nossa. Meu Deus como aquela gente se gostava! Entre eles havia um certo respeito e muito entendimento. Tanto os donos da casa quanto seus filhos davam exemplo de boa vizinhança.
Sinceramente é constrangedor dizer que deles não me lembro de ninguém, e dos seus nomes a minha já enfraquecida memória não se recorda. Entretanto, daquela gordinha que das filhas era a mais nova e beleza nenhuma ela tinha em relação aos irmãos, eu não consegui me esquecer. Seu nome também não me recordo, mas do seu apelido, ah, dele jamais esqueceria. Buluda. A garota era o retrato da alegria. Buluda era boa aluna, boa filha e uma tremenda amiga. Quantas não foram as vezes que eu, choroso pelos tabefes que a minha mãe me dava não era consolado por ela, quantas? Buluda em tempo nenhum falou disso com os outros e zombar do amigo para se fazer melhor ou engraçada ela jamais pensou fazer. 
Feliz ano novo gente e a você, Buluda, que Deus conserve em teu rosto essa alegria que não me deixou esquecer teu nome.