sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ARQUITETANDO SONHOS.


Jair deixou o carro um quarteirão antes da casa onde mora com a mulher e um
vira-latas que a noite fica solto no quintal. Saltou o muro que os separa da rua, fez festa no  cachorro que a seu comando não latiu e com jeito, sem respirar, esgueirou-se através da janela invadindo o próprio quarto.  O silêncio era total, só os ponteiros rangendo na subida e descarrilando numeração  abaixo num relógio preso na parede se ouvia. Era quase  madrugada. Sua mulher, que naqueles dias tinha a cama só para ela, dormia um sono de festa ou de pesadelo. Sabendo que não seria visto, Jair colocou éter num lenço e o forçou junto ao nariz da mulher. Com isso criava-se uma incógnita para o futuro do seu casamento. Na escuridão a bela mulher se debateu, lutou, mas na espiral em que estava envolvida sentiu que perdera  uma boa parte da sua consciência, por isso cedeu aos arroubos do seu malfeitor. Não perdeu, no entanto, a certeza de que recebia em seu corpo as carícias que mais mexiam com sua libido; um hálito de uma boca bem cuidada em sua nuca, um par de lábios carnudos escorrendo pelo pescoço até o colo junto aos seios e mil mãos acariciando seus cabelos, suas pernas, as nádegas e seus seios, e por fim segurou como se fosse frágil o seu rosto para, como um colibri, beijar as pétalas orvalhadas dos seus lábios. Alguma coisa mais tenra, quente e que pulsava como um coração se afastou de junto ao corpo dela, talvez contra a vontade dele ou dos dois caso não perdesse  parte da consciência que ele achava que ela tinha perdido.
Sobre o criado mudo restou um lenço branco com resquício de éter e um bom perfume,
 e ao seu lado uma rosa vermelha orvalhada. 
A janela que o permitiu entrar não deteve a saída do algoz que retornou à escuridão da rua, 
ao carro, ao hotel aonde pernoitou para voltar à empresa que o deixou visitar a 
esposa por quem,  há 15 dias, morria de saudades.
(A foto é uma homenagem,  não tem a ver com o fato).