domingo, 27 de dezembro de 2015

SE CHOREI OU SE SORRI...

 
Eu já esperava por sua chegada, por sua alegria e pela maneira incondicional que você
tem de se fazer amar. Chegou arrastando consigo as pessoas de quem mais gostava e como quem não quer nada arriou ao lado dos pés as tralhas para me beijar a face. Com as mãos vazia do que trazia deu-me, de todos, o melhor dos seus abraços. O grau de amizade e de respeito era de real grandeza que o ar me faltou  no momento do gemido. Pegou de volta o necessário a sua estada e entrou na casa que, até a sua chegada, era minha. 
Poucos foram os acordes que um dos que o acompanhavam me deixou ouvir da guitarra que tocou, como poucas foram as chances que a sua alegria me deixou para sofrer as amarguras que o ano inteiro me impingiu, e para piorar, até o meu trabalho não passou de um singelo passeio no parque quando feito por 
um dos que se atrevem acompanhá-lo, tal o esmero com que é feito.  
Você, meu velho e querido amigo, me deu com sua trupe inseparável, o esperado presente de todos os anos, de passar seu natal comigo, sob o mesmo teto, sob os meus olhos e a minha admiração. O agradecimento e o amor que dou e sinto por você é tamanho que 
nem ciúme dos que o terão no espocar dos fogos festejando o ano que 
principia, me fará sofrer mais do que já faz.  
Feliz Ano Novo, meu amigo. Obrigado pelos brindes, pelos sorrisos excessivos que muitas vezes me fizeram doer a face e até pelas lágrimas que às escondida você me permitiu chorar. Obrigado pelos encontros e pelos desencontros, pela credibilidade nas promessas que fiz, pela confiança de deixar sua família conviver com a minha e por me amar da maneira que, eu tenho certeza, você me ama.
Um beijo e um ótimo ano, quando procurarei merecer, ao seu lado, 
viver tudo de novo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SINOS DE NATAL.

Disseste que os meus beijos nada representavam às tuas 
necessidades e eu  fingi que não liguei.
Também não vinhas à maioria dos encontros enquanto eu, sentado na 
cama de todas as vezes, neguei que mal nenhum aquilo tinha a me seduzir.
Tu quiseste me esquecer e eu, teimoso como uma mula, dei de ombros, não liguei. 
Hoje, às vésperas do natal, volto a me sentar na mesma cama aonde tantas vezes blasfemaste contra os homens que passaram em tua vida e não te fizeram louca como eu fui capaz, só para lembrar os momentos  de festas, passeios, entrega e prazer até 
que a exaustão nos prostrasse no suor um do outro. 
Agora, enquanto os sinos alardeiam  o nascimento do cristo eu, sozinho neste ambiente que teima guardar nas paredes o cheiro da tua presença, recordo, não o nascimento de um grande amor ou, muito menos, a morte das minhas esperanças, mas do momento existente entre o nascimento e a morte, quando os meus beijos, os meus abraços e as palavras das quais, tenho certeza, tu  jamais te esquecerás, eram o que tínhamos para nos ofertar. E a gente se entendia, se dava, se entregava, um para o outro como quem se encontrava, como quem se perdia...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

COMO NÃO MATAR UM SONHO...


   Ela era uma criança que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que ultimamente se sentava junto ao seu portão. Do quintal onde morava ela, que não tinha mais de 12 anos, via o garoto se acomodar em um dos degraus que acessavam a entrada de sua casa, como fazia a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que ela atravessava. Será que esse moleque me conhece ou pelo menos já me viu em algum momento? Será que eu devo arrumar uma desculpa para ir lá fora deixar que ele me veja? - Pensava a jovem sem tirar os olhos do menino. Aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia, quem sabe, vir a ser o homem de sua vida? Mais cedo do que pensava os dois se encontraram na gincana entre as escolas. Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da sua figura. Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, sentiu o calor esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo de tão perto que poderia tê-lo tocado se quisesse.  Mas não o fez. Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava. Na esperança de reforçar a equipe o instrutor achou conveniente trocar o menino por outro mais experiente. Não aquentando a pressão a equipe da menina acabou derrotada. Mesmo não tendo o que comemorar, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez. Seria o garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.
Outros encontros, casuais, foram surgindo com o passar dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha. D. Arvelina cuidara do menino desde o nascimento, mas ao primeiro assédio da morte, não resistiu. Entregou-se a ela. Cruzou sobre o peito suas mãos bondosas, fechou o azul dos seus olhos riscando nos lábios o último sorriso. Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte. O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na face aonde escorria uma lágrima. Não foi naquela oportunidade que a menina seria notada por ele. Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de grande tristeza para ele.  Tempos mais tarde o time do rapaz conquistava sobre o seu  principal oponente o título de campeão brasileiro e entre risos de felicidade acabou entre os braços daquela menina que nem gostava de futebol.  Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou o tempo suficiente para alinhavar os seus sonhos. Outros encontros garantiam a ela que estavam namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele se acomodou primeiro. Não dava pinta de querer nada da vida e de campeão que fora na gincana escolar o moleque já não tinha mais nada. Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido. Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. Mas sabia que estava errada. Quantas vezes a menina sonhava encontrá-lo galopando  num lindo cavalo branco para além dos contos de fadas, os príncipes e as princesas vivem as suas histórias. O desinteresse pelas coisas e por ela, de certa maneira, deixou balançando o que ela achava que sentia por ele e até se questionava se o homem que morava com ela era o mesmo moleque que sentado nos degraus do seu portão olhava as pipas no céu da sua rua. Há muito ela achava que não era, mas só agora tinha certeza. Meu Deus, por que permitiu que eu mesma matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou para outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, mas feliz em me lembrar quando corria pelas ruas atrás da bola que jogava com a molecada enquanto eu fazia tranças na boneca que minha madrinha me deu num dos poucos natais quando alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não tivesse tido a sorte de conseguir alguém melhor do que eu? Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que me levam a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu falo talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior. Ah menino da minha infância, que saudade você pinta em minhas lembranças. Resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.






sábado, 12 de dezembro de 2015

O MAR ATRAVÉS DA JANELA.

     
      Os trovões eram ensurdecedores, parecia um terremoto, enquanto os clarões iluminavam o mar na sua imensidão. Marcinha, que escolheu passar o resto das férias na casa da tia, tremia de medo no quarto onde dormia. A casa era uma construção moderna a beira de um rochedo de onde se ouvia o mar chorando as ondas se estatelarem nas pedras. Marcinha embrulhada no cobertor soluçava de pé na porta do quarto da tia que vendo o sofrimento da garota a levou a dormir consigo. A tia buscava de todas as formas tranquilizar a sobrinha que aos poucos, talvez por ter os braços da tia a protegê-la, ia se acalmando.  Só a mulher balbuciava algumas palavras enquanto o corpo da adolescente incendiava o seu.  A chuva e suas intempéries haviam passado, mas da cama nenhuma demonstrou interesse em descer. Meu Deus, ela é uma menina.  Tudo nela tem as proporções de uma mulher, porém seu jeito, a carinha doce e bonita não pertencem ao corpo que eu sinto colado, quase de baixo do meu, pensava a tia acariciando os seios da garota como que sem maldade, ao passo que os dela ardiam de febre e desejo.  
Eu vou parar com isso. Preciso parar antes que o inevitável aconteça.  Vou me levantar, tomar um banho e depois vou à janela para ver com que cara o mar ficou depois da tempestade, resmungava a mulher que tinha entre seus seios o rosto da sobrinha.  Resmungou mas não arredou um dedo  do corpo da jovem que parecia entender do que estava acontecendo e aonde aquilo poderia levá-las, principalmente depois que sentiu o dedo da tia partir de sua nuca em direção ao final da espinha, driblar os compridos fios de cabelo que protegem a gruta, agora bastante molhada, e ali brincar com o pequeno botãozinho que encontrou.  Dessa vez sim, a senhora que pretendia parar com o erro que sabia estar cometendo deu um basta nos carinhos que dava a ela,  só não esperava que um par de belas e macias coxas prendessem a sua mão no meio delas, como fez a menina.  
      Aquele foi o melhor e mais reparador temporal que, ao invés de devastar a vida dela e a de sua sobrinha, lhes semeou a lavoura de onde, agora, tira, os carinhos com os quais sempre sonhou, porém não se sentia mulher o bastante para se arriscar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

BELOS TEMPOS...

      

No interior do estado festejavam o dia de ação de graças e não havia
 em nenhum calendário, da era medieval aos tempos atuais, dia mais propício para o encontro daqueles dois.  Talvez por ansiar pelo que pudesse acontecer ela tivesse chegado um pouco mais cedo ao encontro e em meio aos que vagavam no labirinto das barraquinhas alguém buscara por quem só conhecia através das fotos, nas redes sociais.  Não tardou para que se encontrassem e ela, perdendo a compostura, correu para se atirar na cintura de quem, girando com ela presa em seu corpo lhe tascou um beijo que aos visitantes causou uma certa excitação.   Ela parecia ter perdido o prumo, saído do eixo, enquanto o sujeito curtia a festa como se fosse a do próprio aniversário.  Era ele um sujeito de sorte e estava feliz com os últimos acontecimentos, principalmente com o momento em que viu como real a moça dos seus sonhos.   Um beijo ligeiro, talvez desnecessário o sujeito roubou dos seus lábios dando a ela a certeza da pegada. Depois se deram as mãos e saíram em busca de um lugar onde pudessem conversar.   Durante a caminhada ela o examinava nos mínimos detalhes.  Principalmente nos maiores, se é que eu me faço entender.

O cara pensou em discutira a diferença de idade existente entre eles, mas achou melhor ficar calado. Os tempos já não eram os mesmos e a sociedade tinha mais com que se preocupara. O que importa, de verdade, é o bom relacionamento entre as pessoas, pensava cada vez que se lembrava do assunto. Dali seguiram à casa dela onde os seus parentes os aguardavam. Ninguém reparou na idade dele, mas para que não cometessem nenhum desatino a garota fez questão de dizer que o encontro era amigável e que não esperassem nada de sério entre eles.  Tanto sabia do que estava falando que em tempo nenhum foi interrompida ou contrariada no que dizia. Depois daquele surgiram outros encontros  e por entenderem que um era a metade da laranja do outro resolveram juntar as suas tralhas.  A cama era o ponto de encontro entre os dois.  Sempre que estavam em casa, os dois se jogavam nos braços um do outro em busca do prazer que a química provocava. 
Uma cirurgia, no decorrer do período, se fez necessária e durante a convalescença, fazer amor estava fora de cogitação, como a ele disse o médico, mas quem estava aí para o que ele disse?  Durante as noites a temperatura subia e no calor da irresponsabilidade, mesmo depauperado, o camarada se entregava num sexo louco, quase bonito. 
      Hoje, gozando da melhor saúde e de todas as facilidades, a frequência já não é a mesma. Amadureceram,  melhoraram em praticamente tudo o que fazem.  Afinaram suas ideias, investiram no que pensam ser necessário e viajam aos lugares mais distantes e mais bonitos. Vivem, os dois, como num conto de fadas trocando abraços e beijos sempre que possível num respeito de causar inveja, mas, nada mais, além disso.  Eu acredito que já não fazem amor com a mesma pegada que faziam antes, embora o sentimento da parte dele continue num crescente quase avassalador, enquanto ela, por sua vez, já não sente tanta graça naquilo que faz. Em vários momentos o cara pensou  que o amor que ela demonstrava sentir por ele tivesse acabado, ou que ela se arrependeu de tê-lo conquistado.  Choroso pelos cantos acredita que não viveria sem o atrevimento dos carinhos que por sinal escasseiam a cada dia, assim como há muito não se vê provocado por um olhar malicioso, um cruzar de pernas pretensioso que os levava à cama quase sempre. 
          Enfim, vamos deixar que o tempo os ilumine, porque só ele tem o poder da modificação.   Se tiver de mudar para melhorar, que mude, caso contrário, que mudem os dois por conta própria ou se acovardem sem reclamar...
       

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

NEM VI PASSAR O TEMPO...

Depois de chamar os amigos para dividir com eles as minhas cervejas, meus vinhos, 
meu bacalhau e, por que não, o meu chester e o meu peru, foi que me dei conta de que, nos anos anteriores não era preciso convidar ninguém para compartilhar minha alegria e o amor que eu tenho por cada um.  Deve ser bobagem me preocupar com essas coisas, diriam os mais chegados, uma vez que, no final, tudo termina como começou, ou seja; eu reunindo os meus cacos e indo para um canto da casa que, por menor que nos pareça aos olhos, é grande o suficiente para turvar a vista.  Talvez por essa magnitude eu me sinta tão só depois dos comes e bebes, das doces palavras e das lágrimas que um enxuga do outro se alguém chorar.  
Na minha mesa, este ano, não saberia dizer se todos os lugares da mesa estarão tomados.  Nos anteriores os amigos chegavam sem que eu precisasse convidá-los, mas agora, se não for com ameça de morte, me deixam invejoso na janela olhando o povo se acotovelar por uma rabanada, ao passo que na minha mesa, por mais comida e bebida que eu tenha conseguido, o espaço vazio parece não ter fim.  A casa cresce a cada momento que alguém do outro lado se abraça, se beija, ri ou chora com palavras que eu, daqui, não escuto. 
Esse ano eu não ganhei, mas também não perdi alguma coisa que no futuro pudesse me fazer falta, por mais que pensem que sobre isso eu vá discorrer o meu discurso.  Não, meus caros, eu não vou me queixar de perda nenhuma, mesmo se eu a tivesse.  Eu, pelo que sei,  nasci pelado e sem amigos, já que as pessoas que se encontravam bebendo e fumando charutos na festa do meu nascimento eram amigas dos meus pais e não minhas. Portanto, como reclamar se agora eu também tenho, não os que eu escolhi, mas os que me conquistaram?
O natural seria o sujeito nascer, crescer e ao se tornar sábio, comprar uma casa, arranjar uma garota e se casar com ela, formar uma família e ser feliz. Comigo não foi desse jeito porque nasci, cresci, desenvolvi o intelecto de certa maneira que me casei com quem já tinha casa montada e dispensa cheia das coisas que eu gosto. O que eu espero mais da vida? Reclamar do quê, vocês acham que eu deveria?  De nada, não é mesmo?
Feliz natal gente. Ria, cante, abrace seus amigos e seja feliz porque você nasceu nua como eu, e hoje pode ir e vir, dentro do possível, vestida para onde e com quem quiser.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

FLORES DE VERÃO...

Eu tenho mostrado  um belo campo de flores silvestres, u'a mata de tons diferentes
de verde,  casas de traços rústicos, barrocos e modernos, com os olhos da minha sacada e as vezes da janela envidraçada com que a transparência nos permite.  Dessa maneira eu posso, como você pode, vir a dama da noite desabrochar suas flores, todas de uma vez, no próprio nascedouro, ali, a passos do meu nariz. A magia se faz ao anoitecer concluindo a metamorfose no meio da madrugada. Alguns anos têm passando, mas desde a minha chegada à casa onde moro, em verão nenhum o cacto deixou de mandar convites para que eu assistisse o parto de suas filhas. Como que por encanto  o perfume da planta, depois de se arrastar por entre obstáculos de espinhos e esquivar-se das flechas das estrelas, ainda  permeia a redondeza, invade meu quarto e me leva para olhar a festa.  Em todos os verões a coisa se repete,  mas dessa vez tinha de ser diferente.  A planta que enfeitava a noite, os dias e as madrugadas, abortou uma de suas filhas. Talvez, quem sabe, se a sorte lhe aplaudisse a vida, viesse a ser ela a mais bela das que floriram.  Quem sabe não foi a mãe que, para contrariar a natureza, deu a luz da lua à suas filhas numa estação que não era a delas, época em que nascem as rosas e as tulipas, as orquídeas e as bromélias.  Agora, por mais claros que se tornem os dias e faça da minha vista a mais bela de todas as sacadas e janelas, os meus dias não terão a mesma cor, o mesmo perfume e a mesma alegria porque ela não vai ornamentar a vida de quem esperava naquela flor a humildade que falta ao mundo e mesmo habitando um castelo de sonhos, como se sabia, vivia debruçada no beiral de um vaso envidraçado, pelo menos em nossa imaginação.
Por muitos e muitos anos o jardineiro não precisará regar suas plantas, como nasceu para fazê-lo, já que todas vingarão com o orvalho que as viçarão, não criados pela madrugada como vem sendo feito desde o surgimento das espécies, mas do pranto que o jardim, por um todo,
 chorará com sua falta, ou com a incógnita que me atormenta desvendar.

sábado, 21 de novembro de 2015

MISTURANDO AS COISAS...

           
      Pare, limpe as lentes e olhe a natureza como as águias olham e os falcões. Sorria se a beleza do verde, o cascatear das águas batendo entre as pedras causar em você o que causa em mim.  Ofereça um abraço, um aperto de mão, demonstre estar em paz com a vida e com o que há nela.  Puxe assunto, faça pergunta e responda se questionado, mas se não tiver com quem interagir, fale com o primeiro animal que passar na sua frente e se ele não responder não estranhe porque é sinal de que ninguém o entenderia. Diga bom dia ao sol, mande beijos às flores e se nada entender de perfume, não diga nada, aspire demoradamente que ela se abrirá em sorrisos. Fale com as plantas ou fale sozinho a respeito daquilo que veem os teus olhos.  Dê bom-dia ao dia antes que escureça para depois te empertigar na passagem das estrelas.  Tente lembrar o nome de alguém que um dia  te pediu ajuda, mas por falta de tempo ou por infantilidade, tu não o atendeste. Tenta te lembrar do dia em que, muitas vezes  tu choraste e das poucas vezes que sorriste. Faças um exame de consciência e vês se te lembras de um momento, no passado distante, quando alguém, mesmo sem se dar conta do que fazia te tirou do marasmo, do ócio, quem sabe, do vício.  E sem esperar por qualquer tipo de agradecimento, te ofereceu um trabalho, um abrigo, e depois de ter te dado a mão,  ofereceu para ti um abraço, um sorriso e o nome do qual tu tanto te orgulhas.  Portanto, meu caro, ria das piadas que te contarem, ria mais da vida se tiveres motivo ou gargalhe, mesmo que não os tenhas. Não te escondas nunca, nem mesmo quando tiveres medo. Enfrenta os teus fantasmas e chores se não der para segurar, já que o choro tem nas lágrimas o poder da cura.  Eu sei que o pranto que te incha os olhos, umedece a tua face, é o mesmo que cria em quem te pegar chorando a dúvida; se choras de tristeza ou de alegria. Viva a vida intensamente da maneira que tu quiseres, souberes ou puderes.  Dance a língua em torno da taça. Lambas os próprios lábios adormecidos pelo sabor gelado do creme de fruta madura, e antes que a língua perca a sensibilidade junto a essa guloseima, lamba as escorridas gotas para  não perdê-las ao vento.  E, na dúvida, se quiseres saber do que eu trato, lambas de vagar a vida, pelo meio, pelas bordas, por cima e por baixo, mas se, nem com isso te deres conta do que eu trato, vires a cabeça de lado e te delicies com as larvas escorridas no raso cone acasquinhado do melhor sabor com o qual te delicias, pois dele terás o melhor bocado.  Sintas, pois, o frescor das manhãs com os cabelos expostos à língua do vento, vivas  sem pressa, lambas as sobras adocicadas das madrugadas, já que o tempo com sua voracidade provoca tontura com o giro que dá ao mundo. Tires folga por um dia ou por duas, três vezes por semana. Pegue os velhos e as crianças e vai passear, vá à praia, corras na areia ou subas à serra para orvalhar tua alma por cima.  Só não te deixes ficar aonde o individualismo for lei, a indiferença for a ordem do dia e o preconceito fizer em ti sua morada.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

DEU RUIN!!!

Eu queria falar da tragédia ocorrida na frança, 
mas achei melhor não. Antes, talvez pudesse tecer comentário a respeito Mariana, em Minas, mas também não seria justo com os que fogem de seus países por conta da guerra que os jornalistas teimam em chamar de santa.  Pensei muito antes de concluir que pendurar bandeira brasileira entre as da França e a de Minas não estaria agindo com o coração e muito menos com a razão.  Talvez alguém, para me contrariar,  perguntasse o por que das bandeiras se o Oriente médio e a África também choravam o êxodo de seu povo? Então, quem sabe, não seria melhor, ao invés de pendurar tais bandeiras eu pusesse a foto de uma pomba branca  para encabeçar um dos textos onde eu falo de paz?  Fico triste só de pensar que alguém pudesse questionar a cor branca do animal. Talvez quisesse se referir a escolha da cor não como símbolo da paz, mas como de confusão.  E para evitar possíveis aborrecimentos foi que eu optei pela imagem de um  urubu, que até onde sei, beneficia a raça humana podendo ser encontrado em qualquer parte do mundo.  Assim, penso eu, ninguém me acusaria de racismo, a não ser os vascaínos que podem até me taxarem de bairrista. E, por fim, achei melhor não falar nada durante o conturbado esses dias até porque graças a Deus o pessoal que vem à minha página é laico e caso eu pudesse usar esse termo para outras referências eu diria que nem só de religião como também de clubes de futebol e de sexo vive a humanidade, caso contrário eu nem explicação estaria dando aos amigos que de vez em quando esbarram comigo entre uma 
frase e outra no meu blog ou no deles.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DESCUIDO OU SACANAGEM?

Chegou arrastando pela mão o filho que chorava a morte de sua mãe enquanto ele 
chorava  a perda da companheira.  Fora ela uma boa filha, mas depois que se casou ficou melhor e ia melhorando a cada dia, não por mera vaidade, mas para se achar digna quando fosse  chamada de mãe. A moça era de uma doçura tão intensa que até nas santas causava inveja. 
Antes do homem chegar com seu filho, um forte tremor no solo jogara por terra a maior parte do que o ser humano havia construído. O fato teria acontecido num passado não muito distante e hoje, infelizmente, o pesadelo voltou a ser sonhado. Algumas cidades do Rio sofreram e ainda sofrem com a interferência da natureza e outras, em outro Estado, perderam parte de suas riquezas e dos seus moradores com o volume de chuva na cabeceira dos rios que fazia tempo vinham secando.  Primeiro foi Santa Catarina com um mar de lama descendo morro abaixo até destruir o que viu pela frente. Depois foi Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, e agora, com a ajuda da falta de sorte e do mal gerenciamento, Bento Rodrigues, um sub distrito de Mariana no sul de Minas, vê seu povo chorar a perda de parentes, amigos e vizinhos,  vitimados pelo rompimento das barragens do Fundão e de Santarém que deixaram sem teto e desprotegidos aqueles que sobreviveram. Entre os que nos deixaram estava Dorvê, como gostava de ser chamada.  Ela era uma bela mulher que nasceu para ser mãe e esposa amantíssima, porém partiu do nosso meio sem avisar ao marido a quem tanto amava e ao filho, razão da sua bondade.  Dorvê fez molhar os olhos da família e de quem tomou conhecimento de sua história. Os três não eram a santa trindade, mas também não deixavam de sofrer com a dor alheia e sorrirem quando a alegria era geral.  No momento  estamos nós  curtindo um luto que não era para ser curtido com o sofrimento e a morte prematura dessa gente, haja vista que alguns perderam a casa, outros perderam o trabalho, as referências ou  perderam tudo como se ficou sabendo.  Eu não tenho como deixar minha casa para oferecer ajuda além das preces que tem vez me pego rezando, caso contrário estaria agora em Mariana oferecendo minha mão, como a mim me ofereceram em 2011, na minha cidade.  Naquela oportunidade  eu fui um dos poucos que não precisou, até pelo contrário, eu, a minha mulher e a minha filha, deixamos a nossa cama, a nossa dispensa, a nossa luz e a nossa água a disposição dos mais necessitados e para minha alegria e a de  todos da minha família, a gente foi útil a quem precisou.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A SOGRA E O GENRO MALVADO.

      Alessandra viajou para ver a mãe galgar seu último degrau de vida.   A moça, sem poder se afastar do serviço, deu seu jeito e zarpou para São Paulo. Levava com ela perguntas com as quais viveu a vida inteira se questionando. Infelizmente a velha foi cremada para evitar contágio da doença. Fora de si e blasfemando contra o criador, Alessandra voltou à casa antes do previsto. Atordoada mal percebia que fios de cabelo, não os seus, impediam o escoamento da água no ralo do banheiro. Eram longos fios loiros longe de serem os seus.  Correu ao quarto onde encontrou outros na cabeceira da cama. Com a mesma facilidade com que trocava um vestido a mulher trocou a tristeza pelo ódio do seu marido. Ficou brava, zangada, desesperada, com a traição.  Foi ao quarto da empregada que tinha sido dispensada em função da crise e ali ficou até que ele voltasse.  Chegou com uma garrafa de champanhe e um largo sorriso como quem chega à uma festa.
     Ela desesperada com a perda da mãe e o marido festejando sabe-se lá o quê!
     Se ela não tivesse esquecido a bolsa na sala o cara não teria dado sua presença.  Ao vê-la o cara empalideceu, parecia que ia ter um troço.  Ela, por sua vez, não estava nem aí para o estado do sujeito. Meteu o dedo na cara dele e foi gritando; - qual a piranha que você trouxe pra minha casa e que usou e abusou das minhas coisas e ainda por cima deixou na minha cama seus cabelos nojentos? Quem foi que se lavou no meu banheiro e entupiu o ralo de pentelho louro, hein, seu canalha, fala! - Ninguém, meu amor, respondeu na mesma hora que soava a campainha.  Alessandra empurrou o marido para o lado e correu para ver quem era.  Era o porteiro que não conseguindo falar com o morador, subiu para saber se a loira que procurava por ele podia subir ou não.  - Mas é claro que pode!, gritou Alessandra empertigada.  Só não diga que estou aqui ou ela não sobe - concluiu Alessandra. O marido queria morrer ao ver as duas cara a cara, e quase conseguiu de tanto que chorava ao passo que Alessandra parecia pronta para receber a tal piranha que, por acaso,  não deu as caras. Na certeza de que o porteiro havia contornado a situação, o marido mudando de estratégia partiu para a ignorância. Chamou a mulher de fria, de má companheira e que  não prestava para nada além do emprego que tinha. Nem para visitar sua mãe doente você achava tempo - disse olhando dentro dos olhos daquela que fora de si respondeu com uma certeira bofetada.  O covarde  retrucou com outra e mais outra e outras tantas até que a mulher desfaleceu.
Anos mais tarde Alessandra, que deixou o apartamento e foi morar na casa que sua mãe deixou, leu numa coluna que um rapaz com a mesma idade e nome do seu ex-marido era candidatando a prefeitura da cidade em que antes moraram. O tipo não era estranho, mas o nome e a idade davam a ela a certeza de que o candidato em questão era mesmo o seu antigo marido. As dores que sofreu com os socos, os pontapés e a traição agora doíam na sua alma. Refeita do golpe que recebeu com a notícia trocou de roupa, muniu-se do exame de corpo de delito de quando foi agredida e partiu para o jornal  onde fez seu desabafo. Assim que a sua história e a imagem do seu rosto deformado foram publicadas foi que Alessandra teve a certeza que a ferida que tinha no corpo e na alma finalmente iam cicatrizar.
A propósito; o candidato recebeu os votos necessários para ficar em último lugar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O ÚLTIMO SOLUÇO.

     
      Fechado no quarto escuro da solidão eu nem me dei conta da algazarra das crianças no quintal da minha casa, dos passarinhos em revoada em torno da amoreira e do sol escancarando aquele sorrisão aos súditos de pele bronzeada.  Tem coisa que a gente faz sem pensar nas consequências, já que a gente vive a vida que a gente quer e quando não se quer nada, nada se faz ou deixa alguém fazer para mudar.  O sujeito que deseja um braço forte precisa trabalhá-lo para tê-lo próximo do ideal. Se deseja uma saúde invejável precisa se resguardar das intempéries e tratar o corpo como quem trata uma criança.  Mas se queres mantê-lo do jeito que o vens mantendo, então não faças nada, senta-te a bunda na beirada do caminho em que estás andando e esperes a banda do Chico passar porque com ela os teus sonhos certamente passarão. Foi com este pensamento que eu escancarei as janelas da minha tristeza e abri as portas à nova vida. A vida do riso e da boa companhia, da alegria e do bom papo.  E fiz tudo isso sem culpa e sem remorso, sem pena, medo ou receio.  Hoje o meu time voltou a perder como vem perdendo ao longos dos últimos cinco jogos, mas tu queres saber de uma coisa; que se dane, porque a vaidade da vitória não vai me levar a lugar nenhum, como a derrota, que além da incarnação que sofrerei dos torcedores adversários cujos times também não estão lá essas coisas, nada acontecerá contra ou a meu favor. Portanto, fod#a-se o mundo porque não me chamo Raimundo.  Agora me dão licença porque vou passar um espanador na minha cara, escovar os macacos que andam soltos por aí e se a vizinha me permitir eu vou lavar o seu cachorro. Tudo isso sem uma gota de remorso, um pingo de choro ou um toco de vela.
    Bola pra frente que a manhã tem jogo de bola na televisão e a buludinha não dorme sem a minha companhia.
Beijos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NÃO SE PERDE NADA QUANDO NADA SE TEM.

Eu não tinha feito nada para merecer aquela mão macia no meu ombro, mas entendia 
a intenção de quem tentava me consolar. Talvez aquele gesto fosse o mais importante dos votos que recebi naquele dia. Eram longos os dedos que apertavam o meu ombro e o fazia de uma forma tão suave que me lembrava um felino transportando a cria para socorrê-la. Nem uma palavra além do gesto, a não ser o olhar soturno por detrás dos óculos e o franzir dos lábios demonstrando o sentimento. Isso era tudo o que me permitia ficar sabendo. Nada eu fiz ou por mim fizeram para merecer a preocupação que tinham comigo.  O que a fatalidade estava me tomando, segundo muitos discordavam, não fez ou fará falta no futuro, até porque, eu nada tinha ou tive que não pudesse ser perdido. Portanto, quem nada tem, não tem o que perder. Vou tentar se mais explícito; eu vivi a metade da minha vida lutando pelo amor da minha família. Eu precisava que ela me amasse, me admirasse ou simplesmente me respeitasse. Era fundamental para mim, até aquela idade, que a minha presença fosse notada ou percebida se eu não estivesse com eles nos momentos cruciais. Só muitos anos depois eu percebi   que nada do que eu desejava acontecia. Aí, resolvi deixar a vida me levar. E foi assim, sendo eu mesmo, que as coisas, aos poucos, começaram a fluir.  Passei a ser olhado com olhos ardentes por quem me achava um garanhão. Fui respeitado como o Diabo e questionado como são os anjos. Fui senhor dos cacos que eu consegui juntar de mim, pastor, dos amigos desgarrados, padroeiro das mulheres crucificadas e fiel amigo daqueles que, por tantos anos, me traiam.  Eu não era desgraçado ou infeliz, mas alguém que não cheirava e não fedia. E foi assim, desse maneira, que eu vi a saudade ser trancada numa caixa, resguardada da chuva e dos olhos do mundo, menos dos que acham que não vão senti-la.
(Foto da Internet)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ÚLTIMA GARGALHADA.

No fim de cada espetáculo o teatro cerra as cortinas e depois de trocar comentários 
o povo segue seu caminho. Quando o contrato com a companhia chega ao fim, não só as cortinas como as portas se fecham por tempo indefinido até que uma nova proposta as abra à mídia impiedosa e à exigência do público de gosto duvidoso.  Com as mãos nas costa um impetuoso pseudo, mas vibrante,  diretor vasculha com seu olhar o teto e os arredores. O espaço parece bom, diz ele, franzindo o senho. De tudo, só o preço não me agrada - conclui o moço assinando a papelada.  Dias depois serão os ensaios varando a madrugada como vem acontecendo desde os templos romanos.  Mais tarde tudo volta a ser como era antes, como é agora, e como sempre haverá de ser por debaixo da lona de cada arena, por sobre a serragem dos improváveis picadeiros e dos ricos tablados mundo afora. Três espaçadas batidas serão dadas na madeira  e tão logo a terceira se ouça, as cortinas subirão.  Depois virão os abraços e os que buscam tirar uma Self, sem se importarem com os idiotas que vaiam sem saber por quê.
Hoje, do alto da minha ingenuidade me certifico de que jamais nos será dada a oportunidade de sorrir ou de chorar com novas cenas se ensurdecemos para o alvoroço dos ensaios, para os gritos de ordem dos diretores nervosos e à algazarra dos atores no final de cada dia, noite, madrugada. Os pitis dos atores que precocemente atingiram o estrelato e da banda que ao caírem as cortinas toca o seu último acorde, também a isso ensurdecemos.    Nenhum diretor, por mais genial ou maluco que tenha se tornado tentará decifrar os segredos da natureza escancarando as portas do templo para onde foi levado, no bojo do sarcófago dos imortais, alguém, cuja vida eternizou em nossas lembranças. Ela se foi levando consigo o sorriso do medo e da trágica comédia, só não levou os cartazes colados em nossas lembranças. 
M E R D A!
Mesmo que o teatro não mais nos abra as portas para o riso, por simples que seja.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUANTO TEMPO VIVE UMA FLOR?

Não é só a natureza que se prepara para certas estações, mas o 
comércio com fregueses renitentes e a indústria para dar suporte por isso a coisa flui, menos no hemisfério em que vivemos.  Aqui a gente  sua no inverno e no outono perde a plantação.  Tem queimada no norte e no nordeste e no sul inundação.  Aqui se morre sem ficar doente por ingerir o que garantem melhorar sua saúde. Nos hospitais públicos têm remédio e quanto têm não há quem saiba ministrá-lo.  Leito para enfermo são macas no corredor e médico assinam mais atestado de óbito que alta para quem entrou doente. Diagnóstico só pra nomear o mal que vai matá-lo e não para o enfermo ficar pedindo que acelerem sua morte porque aí quem torce o rabo não é a porca, mas tu que oras pela melhora. As coisas são assim nas terras onde se morre a todo instante; morre-se por falta disso ou por excesso daquilo. Morre-se por falta de água em São Paulo e por enchente em Porto Alegre. Morre-se pela doença contraída, pela desigualdade social, por tristeza ou por vergonha. Há dias eu tentei mover o mundo, mas sem a hipotética alavanca e o ponto fixo no espaço, nada pude, nada fiz. Pedir ajuda só através de reza ou oração, mas pensa comigo, quando o cara morre morre rezando, inclusive os parentes rezam também e mesmo assim a alma vaza entre os rosários e crucifixos desta para melhor.  Então não mais o que fazer. Desesperado arrisquei  um  acordo com o diabo, mas infelizmente sua agenda estava cheia com pedido dos políticos. Como nada mais tinha que eu pudesse fazer, arrebanhei meus amigos e fomos rezar na intenção de uma flor que há muitos e muitos anos teimou desabrochar no cair da noite por achar que agindo dessa maneira não perderia as suas pétalas o viço da bondade e o colorido da generosidade.  É bom que se frise que ela fez isso somente depois de de ter mostrado para quê e por quê veio, como se fosse preciso dizer ao sol que o dia sem ele é descolorido. Talvez esse detalhe tivesse criado naquela flor a essência com a qual perfumou o jardim onde viveu seu quase centenário.  Nossos amigos que ora lamentam a imagem do caule que antes vergava e não quebrava, umedecem seus olhos ao vê-la dobrar de dentro para fora num  jarro de vidro esquecido num canto de mesa, ao passo que pétalas, várias, diversas, milhares, lutam para não secar, não perder a cor o que as impossibilitaria de exalar o perfume que as manterão vivas, bem vivas em nossas lembranças. 
O dia, hoje, amanheceu sem sol. As flores caladas, sem um comentário, nem mesmo sobre a própria beleza como se de luto todas se vestissem.  No alto dos galhos, destoando da verdade, a brisa rege o balé das folhas e de vez em quando me traz o perfume de um botão desabrochando. Aroma esse que me fez lembrar de uma flor que continua linda no vaso das minhas memórias, por mais que o tempo venha a passar...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VESTIDA DE BRANCO.

Talvez eu desejasse falar das flores atapetando o campo, do mar refletindo o azul do 
céu e da intenção da cascata em amolecer as pedras que a formam, mas não.  O que eu mais queria, na  verdade, era saber dizer o que eu sinto quando ela me vê chegando em casa. As vezes o cansaço me curva as costas e o suor me desfigura a cara, mas nem isso é suficiente para me prostrar se eu sei que ela entra em convulsão só de me ver na sua frente. Aí eu paro, respiro, boto nas fuças o melhor dos meus sorrisos e entro para abraçá-la.  Só de vê-la me arrepio de cabo a rabo enquanto ela, perdigueira como são as mulheres, se mexe, remexe, torce e contorce num branco de doer os olhos, só para me enfeitiçar.   Tem momento que a sua meiguice me leva a refletir sobre a humanidade. Meus Deus, como alguém pode amar dessa maneira num mundo hostil como esse? Eu não me refiro ao amor que ela demonstra ter a mim,  mas ao que ela dispensa aos que a cercam.  Nesse momento eu vejo como o ser humano é mesquinho com relação aos seus próprios sentimentos.  Ela, no entanto, em momento algum fez jogo para ter de mim algo que não fosse sentimental e quando eu me lembro disso, juro, me dá um vontade tão grande de chorar que só de falar me molham os olhos.  
Eu, como todos os homens, já tive amores relevantes e até um de verdade eu sei que morou no meu peito, mas igual ao que ela demonstra ter por mim, não. Não tive.  Não tive e sei que jamais terei depois desse. Talvez você já tenha sentido doer a boca por conta de um sorriso largo e demorado, mas só quem sorriu a ponto de perder o fôlego sabe do que estou falando. A gente fica com cara e jeito de bobo na frente de qualquer pessoa e nem nos tocamos do mico que a gente paga. Tem vez que eu penso que o amor, esse, cujo tamanho desconheço, ainda vai acabar comigo ou com ela, porque, como diz o ditado; água demais mata a planta.
São 17h e já me preparo para sair como tenho feito por conta dos compromissos, mas antes que eu pense em procurá-la para o beijo de até logo, lá está ela de branco no alto da escada achando que vai comigo. Aí não tem coração que aquenta. Pego algumas sacolas para possíveis eventualidades e entre várias guias escolho a mais bonita para os dois, eu e ela, sairmos ao encontro da mãe que jamais se envergonhou, até pelo contrário, se honra em ter uma poodle branquinha como filha. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

PONTO DE CRUZ.

Clodovil Ernandes apresentou ao público brasileiro um jovem
cantor americano de voz  aveludada e que no futuro, a partir daquele momento, iria comover os mais apaixonados. Foi Clodovil, a primeira pessoa de quem ouvi falar de Groban, um cantor que tinha na voz o compromisso das cigarras e na interpretação a beleza dos rouxinóis.  Mal  terminara o programa que Clodovil mantinha na TV e  seus telespectadores, uma legião de admiradores e amigos, fazia fila em busca do CD que por sinal ainda não tinha chegado às lojas. Outras filas se formariam diante da bilheteria dos cinemas para ver em "Cinema Paradiso" Groban cantar a beleza de que Clodovil tanto falava. Depois do que  disse o apresentador daquele intérprete, o mundo nunca mais foi o mesmo. O amor se esparramou por entre nós e a vida se tornou melhor.    Josh Groban foi o melhor presente que Clodovil nos deixou depois da coragem que teve ao declinar sobre a sua homossexualidade, segredo guardado até quase completar sessenta anos de idade.  Ninguém tinha dúvidas quando a sua orientação sexual, mas esse gesto fez dele porta-bandeira da militância. Um homem de vida pública com passaporte à mídia a qualquer tempo poderia ter erguido essa bandeira  bem antes em defesa dos seus iguais e como homem de imprensa podia ter aberto um espaço no seu programa para dar voz aos que não tinham como têm agora. Mas ele não o fez.  Talvez por conta dos seus fantasmas que arrastavam pesadas correntes por sobre um assoalho corroído pelo tempo e também por medo de perder o público que amava, o que foi provado, jamais aconteceria.    Hoje em dia as revistas e os jornais, volta e meia, homenageiam o apresentador e artista da costura, o polêmico político que se foi faz tempo, deixando o seu lugar para que outros tentassem fazer melhor enquanto em mim ele deixa  saudade. Saudade do irreverente mágico da costura que também era o mais belo político. Um muso das passarelas.    Descanse em paz, costureiro da fama, apresentador da gama, político da controvérsia.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

DORMIR PARA QUÊ?

      Eram da suite ao lado os gemidos que me tiravam o sono, e entre sussurros e risos nervosos eu tentava dormir  sem conseguir.  Tá certo que eu cheguei um dia antes do acordado com um casal que alugava quartos para turistas.  Ele, um jovem americano da Califórnia e ela, uma linda holandesa que, depois de conhecer o cara com quem se casou veio morar no Brasil.  Já era alta madrugada quando o barulho dos beijos se sobrepuseram aos dos copos e garrafas no quarto ao lado. Eu, que fazia tempo tinha perdido o sono, tentava adivinhar o que os levava a produzir tanta bagunça. O casal ocupava a maior suíte e as outras foram alugadas, uma para mim e a outra seria ocupada por uns portugueses  na outra semana. 
   O barulho que a porta da geladeira fazia ao ser fechada me dava a certeza de ter gente no outro lado, na cozinha. Um cheiro conhecido tomou o corredor e adentrou minhas narinas. Era um cheiro conhecido que eu, particularmente gostava muito, embora nunca o tivesse apertado e acendido entre os meus dedos. Apaguei a luz e fui ao quarto deles e como a porta não estava trancada pude vê-los dançando sem uma gota de roupa no corpo, cada um no seu tempo, ao som de um batidão. Ela tinha em uma das mãos um copo de uísque praticamente vazio enquanto ele, tragando fundo a fumaça, oferecia à parceira o que acabara de acender.  Ela tentou aspirar o resto do cigarro de uma só vez e o fez com tamanha envergadura que a brasa acendeu de vermelho a sala inteira. Como se aguardasse pelas consequências do seu gesto, apoiou-se de costas no balcão da pia da cozinha e sem tirar os pés do chão se permitiu deitar sobre ele. Esse gesto criava na moça a imagem do arco retesado pronto a disparar a flecha. Ele afastou com um braço tudo o que havia na bancada ao lado dela, abriu-lhe as pernas e entre elas se enfiou. Beijou-lhe embaixo do queixo, desceu esse beijo através dos seios onde mordiscou cada bico dos seus mamilos. Lambeu-lhe os seios como se fora um louco para depois escoar a língua através do seu ventre e de suas coxas curtindo com ela tudo o que faziam.Tive ímpetos de surgir de entre aquela fumaceira como se eu fosse o gênio da garrafa. Das garrafas que vazias iam se amontoando.  Enfim nada de errado eu vi além de um casal que, por se achar sozinho bebia e transava da maneira que faziam, por isso achei melhor voltar aos meus aposentos e fechar a porta dos caras que eu tinha deixado aberta.  Só que a droga da porta fez um baita barrulhão. Peter, segurando no gargalo da garrafa para usá-la como como arama, perguntou quem estava ali. E eu, com jeito de quem chegava de viagem, me apresentei fingindo não notar que ambos estavam nus, mesmo sabendo que disso nem eles mesmos se lembravam. A mulher que me olhava de cima a baixo disse, com voz embaraçada, que o chuveiro do meu quarto tinha pifado e que eu podia usar o deles, e como seu marido não deu pinta de querer contrariá-la eu acabei por aceitar o convite. Tomei com eles um gole, depois outro e mais outro. Quando a gente achou que não dava mais decidimos ir dormir e só acordamos no dia seguinte com o sol lambendo a cara de cada um que dormia naquela cama.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

RECORDAR É VIVER OU...

       Quando fui bancário eu tive o privilégio de conhecer um cara de quem me tornei fã e depois amigo e durante muito tempo depois de sua morte eu não quis mais papo com ninguém. Só agora, depois de tanto sofrimento,  eu resolvi falar. Esse amigo era um sujeito generoso, bom caráter e bastante responsável. Não queria o que não tivesse feito por merecer, mesmo assim fazia questão de dividir com os mais necessitados.  Um dia esse cara, cujas lembranças umedecem meus olhos, atendeu o telefone. Do outro lado uma voz aveludada o deixava bastante embaraçado.  Talvez fosse aquela a voz a mais bonita das que já tinha escutado, fora a curiosidade que despertava nele.
- Alô! – Disse meu amigo.
-Quem está falando? – Perguntou a voz aveludada.
- Você quer falar com quem? – retrucou quem atendia.
- Com o gerente, ora bolas!
- Pois fale, eu sou o gerente – respondeu.
- Qual o seu nome, Senhor gerente?
- Edsonluiz. Isso mesmo, um nome com som de dois...
- Tudo no senhor é dobrado, senhor gerente ou só seu nome tem essa grandeza? –  Novamente sussurrou a voz.
- Bem, como eu não te conheço, não tenho como responder tamanha maledicências, caso contrário diria que também meu nome tem essas proporções.
- O senhor acaba de atiçar a minha curiosidade e como eu sou uma garota muito exigente quanto a peso e medida não vou acreditar que o senhor tenha a coragem de mostrar o que acaba de afirmar.
- De mostrar o quê, menina? O meu nome ou a pessoa que eu sou? – Respondeu entre sorrisos.
- Eu quero que me mostre o que disse que era proporcional ao seu nome, bobinho. – Retrucou com picardia.
O gerente desligou no meio da conversa e foi ao bar para um café. Achava que agindo dessa maneira evitaria a esparrela que se formava.
Na manhã seguinte os telefones não paravam, até que Edinho se deu ao trabalho de atendê-los.
- Alô!
- Posso falar com o gerente?
- Ah, você de novo? – Respondeu como se ela o chateasse.
- Sim, sou eu. Ontem você desligou na minha cara. Achei uma falta de respeito o que você fez, sabia? Por isso estou ligando em todos os telefones para ver se você atende, caso estivesse fugindo de mim.
- Garota, garota. O que você tá pretendendo comigo? Sim, porque, pelo que vejo você não tem assunto para tratar com ninguém a não ser comigo.  Portanto, fale agora ou vá procurar um livro para ler, um vídeo para assistir ou então, por favor, me deixa fazer o que o banco me paga para ser feito... 
- Sabe o que é, seu gerente? E que eu queria muito que você se encontrasse comigo, mas tinha medo que você me dissesse não, por isso insisti nos telefonemas aguardando o momento certo para te pedir que viesse à minha casa, já que assim eu poderia falar e ouvir o cara de quem tenho as melhores referências e a quem aprendi a ter grande admiração – E concluiu – Anote o meu endereço, mas não deixe de me dizer quando e a que horas você vem me visitar. Prometo que você não vai se arrepender...
Assim foi combinado, e assim foi feito.
No mesmo dia, depois do expediente, lá estava Edinho no portão da moça suando como um colegial na primeira vez. Uma mulher magra, alta, vestindo um longo, preto, foi recebê-lo. O sujeito não escondia o nervosismo, mesmo que ela, com um sorriso bonito, tentasse acalmá-lo.  Ele achava que ela, a mulher de preto, fosse a garota com quem se encontraria, mas estava enganado.
-Entre, por favor. Andreza o aguarda desde o momento em que combinou esse encontro.
Ao ouvir tais palavras Edinho ficou sabendo que não era com a mulher de preto que veio se encontrar.
Nervoso, porém firme, foi levado a um cômodo aonde, na penumbra dos aposentos, a dona da bonita voz ordenou que entrasse. A mulher de preto os deixou sozinhos fechando a porta às suas costas. Uma luz forte permitiu que o mais  belo de todos os sorrisos fosse notado. O mais lindo dos pares de olhos com o qual já foi visto, fez cair-lhe o queixo. Enfim, ele estava diante da mais linda de todas as mulheres que Deus colocou nessa terra. Era ela dona de tanta beleza que ele nem se deu conta da cadeira de rodas em que estava sentada. Por isso a indignação de não vê-la se levantar para abraçá-lo. Refeito do choque ou do mico, Edinho se deixou cair de joelhos à sua frente enquanto ela, com a leveza dos colibris beijou os lábios dele. Beijo com gosto de bala. Não da bala que fere ou que mata, mas dos cubinhos adocicados que aromatizam a alma.
    O tempo seguia o curso ao passo que ele seguia à casa dela no intuito de sentir na boca o gosto da bala com sabor de beijo. Com essa desculpa Edinho voltou muitas vezes até o dia em que o destino, ah, esse filho da puta enciumado, decidiu por levá-la de sua companhia. 
Ela se foi sem que o rapaz ficasse sabendo de sua partida. A moça de voz de gata manhosa já tinha firmado um compromisso com a morte sem o conhecimento do bancário. Talvez todo mundo soubesse do acordo e só ele não tinha sido avisado.  Da mesma maneira que ele cumpriu com a promessa indo conhecê-la, ela também deveria ter cumprido com a dela no momento em que se entregou à doença. Talvez por isso nela viçasse tanta beleza, e a lucidez era tão natural que se deixou  apaixonar por uma pessoa que também a amou como ninguém seria capaz em tão pouco tempo.  Andreza não só amou e lutou por aquele moço como teve da parte dele o mais puro e bonito sentimento pelo qual ela sempre sonhara. Ela se foi para nos deixar saudosos, inclusive a ele que meses depois faleceu, não se sabe se de tanto amor ou de tamanha tristeza. Edsonluiz foi um exemplo de caráter, e foi com quem aprendi o que era decência e respeito, gratidão e vergonha.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DIA DA ÁRVORE.

   
       Lembro como se fosse hoje da primeira de algumas machadadas que a vida lhe deu. O dia estaria lindo, como lindas são as manhãs primaveris não fosse um, ai!, que se ouviu vindo de longe. Não se tratava de um grito de dor ou gemido de sofrimento, mas um alerta, um pedido de socorro clamado por quem nascia naquele instante.  Nascia para sucumbir logo depois, pelo menos foi o que a parteira afirmou sustentando nos braços um ramo de mato, u'a muda de qualquer coisa parecida com um vegetal, que de fato aquilo era.  Mesmo sem chance de vingar ela foi plantada entre outras mudas na esperança de adubar a terra depois de morta.  Contrariando as previsões, eis que a planta vinga e desponta entre as que tinham em suas bases placas indicando seus nomes; árvore nobre, madeira de lei etc. O tempo passava e a muda até tirava os olhos e o nariz de entre as folhas amareladas dispersadas pelas que, só de sacanagem, faziam sombra além do necessário.  Ela crescia tanto que já não morria de frio na sombra das outras e até via o céu se pintando para o nascer do sol. Agora adulta floria como algumas e até fechou o verde quando ficou sabendo que os beija-flores anunciavam aos sete cantos da mata o nascimento dos seus primeiros frutos, como poucas conseguiam. Um, dois, quantos ela não se lembra, pois o tempo lhe roubava, a cada dia, a memória que antes era tão boa. Mais tarde viriam os frutos das novas semeaduras e depois os outros das novas sementes que empobreceriam a terra a cada flor que nela desabrochasse. Era isso que achava da vida por ter sido instigada a não almejar nada de bom para si. Outras machadadas foram acontecendo no decorrer da vida, mas esta, no entanto, dói mais que qualquer outra das quais achava ter se esquecido. Não era a certeza de morrer antes da hora como afiançou aquela que aos seus olhos permitiu que visse a luz do sol. Não seria o provável aleijão dos seus ramos por viver na sombra úmida dos fortes e dos ricos, como fora induzida a acreditar, mas a dor de ser ferida, talvez de morte, por um golpe que acreditava não ter feito para merecer. 
   Ainda estamos no meado de setembro e a primavera já perfuma as flores, o incomparável azul do céu induz a passarada a preparar seu ninho porque é festa na natureza. O inverno tem este poder, talvez o mais belo entre muitos; enfeitar o mundo na hora da despedida pois a última impressão é a que fica, ou, quem sabe, não seria essa a forma escolhida de dar boas vindas à estação que do lado de fora nos bate a porta? 
    Ela jura que ficou tonta com o golpe. Pode ser labirintite, como também pode ser a machadada que a feriu tão profundamente que qualquer vento, uma brisa que seja, pode lhe balançar o tronco a ponto de jogá-la ao chão.  
    E como diz a minha avó, é possível desfolhar a planta com uma faca, com um facão se desmatar um cerrado, com um machado se derrubar a floresta e com palavras mal ditas se jazer uma vida de muitos anos, mesmo que seja a de uma árvore velha e vagabunda que para alguns não serve nem para queimar, mas na floresta talvez prestasse para poleiro de passarinho.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

UMA DURA VERDADE...

Certa vez li um artigo onde uma psicóloga
afirmava que todos os homens já tinham brochado diante de suas mulheres e seria um mentiroso, taxado por ela, aquele que negasse a sua afirmativa.  
Pela enésima vez um pseudo doutor em psicologia me indignava com suas palavras mentirosas, mas como eu precisava fechar a coluna que escrevia para o jornal, eu nada respondi. 
Na manhã seguinte não encontrei o artigo que tanto me indignara, por isso me decidi por pichar toda a minha revolta fosse onde fosse, só que não encontrei um muro bastante grande onde ela coubesse.
Certo dia encontrei, por acaso, o blog da doutora e como eu precisava dar voz a minha raiva, a minha indignação que ainda me corroía finalmente desabafei; como alguém pode generalizar dessa maneira se não conhece todos os homens  do planeta?,  e se conhecesse e os caras brochassem diante dela, o problema não seria deles, mas dela, da parceira.
Quando a galinha é boa o pinto não falha, diria minha avó.
O meu pai, coitado, já provou da acidez daquela fruta. 
Ele, com 74 anos e uma vida sexual bastante ativa – está casado há oito 
anos com uma garota de  trinta e seis que faz cem metros em dez segundos 
quando o sexo é a meta.
 Ele tem transado quatro vezes por semana nesses anos de casado e 
nem precisava falar sobre esse assunto comigo porque eu, assim como os meus filhos ainda não tivemos queixas de nossas mulheres e isso me leva a acreditar que a doutora foi muito infeliz com essa afirmação ou quem lê o que ela escreve não discerne ou é desprovido de raciocínio.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

QUE FRIO, QUE NADA.

 

        Tem feito um frio danado aqui no alto da serra. Tem momento que eu, que venho de uma cidade onde a temperatura bate os 40 graus sem o menor sacrifício, me agasalho, fecho a casa, massageio os dedos e só depois de um café bem quente me disponho a digitar meus textos, e faço isso aqui mesmo, na minha casa, porque lá fora o vento corta como navalha. No Jornal Nacional a garota do tempo vem afirmando que a coisa vai melhorar, mas como a gente mora longe dos grandes centros e o clima por aqui tem feito tudo para contrariar os estudiosos, não vejo como arqueiro algum possa matar a mosca com essa flecha.  Se a Maju, como carinhosamente é conhecida, nos diz que vai chover e fazer frio, o tempo, só para deixar a garota com cara de chuchu, nos põe uma pizzas embaixo dos braços e o corpo nos molha de suor.  Mas se ela diz que vai dar praia eu corro em busca da capa e do guarda-chuva porque, com certeza, não será isso o que vai acontecer. Hoje, por exemplo, eu achei que o sol viesse dar as caras para secar as roupas estendidas no varal, mas que nada.  Apesar do dia claro e bonito o rei não demonstra força para secar coisa nenhuma. Enquanto isso eu me mantenho gordo, gordão, gorducho, vestido com tanta roupa como tenho ficado, e se isso não bastasse, a gente ainda precisa de um GPS agregado a cintura para encontrar aquilo com o quê se faz xixi, quando tem vontade. Eu tenho um amigo, que não tem saído dos meus textos, que sofre quando vem me ver. Na hora de esvaziar a bexiga o pobre coitado precisa chamar a mulher que não reclama de procurar o que fugiu de suas vistas enquanto ela, com toda a calma do mundo o traz à luz com suas unhas poderosas.  Eu não tenho coragem de dizer a ele para amarrar um barbantinho no dito cujo, pois só assim não precisaria se envergonhar, se é que ele se envergonha com essas coisas, de ter que chamar a patroa para uma missão desse quilate. 
     Enfim, o frio é de lascar, mesmo. Todas as noites a moça, não a do tempo, mas aquela que vê tudo pintado de verde, tem feito um chocolate quente que só vendo. Ele tem a temperatura das lareiras na distância correta; nem muito longe e muito menos tão perto, e a cremosidade das grandes padarias teresopolitanas de onde, com seu encanto pessoal, a bela mulher de olhos de esmeralda conseguiu a receita até então, guardada sob o segredo de todas as chaves.

domingo, 13 de setembro de 2015

E OLHA QUE NÃO ERA SONHO, HEIN!

Meu celular tocava incessantemente na manhã da última terça-feira, mas como o número que 
chamava era restrito eu não tive pressa em atender. Era uma voz bonita de mulher que até me lembrava uma pessoa que viveu comigo. Sem me dar chance de dizer que eu não era o Jair, por quem ela procurava, desandou pedir desculpas por não ter permitido que eu fizesse com ela o que há muito vinha tentando, e como achava que tal fato me afastaria do seu convívio, decidiu ligar, pedir desculpas e se retratar num outro  encontro. Bastante excitado afastei a vergonha de lado e como cafajeste que eu pensava ter deixado de ser, perguntei se dessa vez não ia dar para trás, como já tinha feito. --Não, claro que não. Eu até falei com umas amigas que me garantiram que o prazer não é só de quem propõe, mas também da mulher, desde que o parceiro seja carinhoso e gentil como eu sei que você é, concluiu a pessoa de cuja voz mexia tanto comigo.  E para incrementar a relação eu perguntei o que ela faria e de que maneira procederia para realizar o sonho que eu tinha e ainda por cima tirar proveito da situação. Ansioso pela resposta eu devo ter gaguejado quando fiz a pergunta, mas ela, demonstrando ter ficado feliz em saber que um novo encontro aconteceria entre a gente, respondeu que comprara um gel à conselho de uma garota especialista no assunto e até estava com ele na bolsa naquele instante. E como eu não achasse que as respostas tinham a grandeza do meu atrevimento,  disparei novos e mais certeiros dardos, desta vez com as pontas envenenadas.  Eu precisava saber mais dessa mulher, por isso voltei à carga; e como você vai fazer na hora em que tudo estiver besuntado de gel, como você fará para realizar o meu sonho?, e ela me respondeu sem pestanejar; -- Vou mandar sua mãe sentar em cima, seu cachorro depravado. Quem está falando aqui e  a sua ex-mulher, seu safado sem vergonha! 
Desliguei na cara dela e corri para trocar meu número.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

É FOGO, GENTE. É FOGO.

       Da ampla janela envidraçada da minha sala ou da varanda que debruça do meu quarto, eu vejo, com lágrimas embaçando os meus olhos, o fogo assassino lamber uma boa parte da mata atlântica que teima colorir de verde a nossa, antes, tão bela cidade. Na noite anterior eu e alguns bons amigos bebemos aquilo que às 3h me fez levantar, não para apagar o incêndio e quem me dera pudesse fazê-lo, mas para hidratar meu corpo ressecado pelos destilados que bebemos.   Gravei algumas imagens, como eu tenho certeza, muitos também fizeram, para denunciar a covardia da queimada e o descaso do nosso órgão (in)competente que até certo momento nada havia feito para apagar às chamas que aos poucos destruíam o que havia em seu caminho. A fumaça, ardendo em nossos olhos, pouco nos permitia ver da área destruída naquele dia e por lá, pelo menos que eu soubesse, ninguém deu as caras para dimensionar o tamanho da desgraça ou ver se o fogo ainda ardia. Não fosse um pouco de chuva que mais parecia lágrima chorada por quem sofre com a perda e nada mais de verde nos restaria. 
       No futebol a gente já não tem o que nos faça rir, como na política nada nos enche os olhos ou se tem notícia de que o dinheiro desviado através de falcatruas e impostos mal cobrados, serão revertidos à saúde, à educação, ao emprego e à segurança do trabalhador. 
     Enquanto isso o Mengão vai comendo o mingau pelas beiradas enquanto o Vasco, infelizmente,  amarga uma nova derrota. O Fluminense também já não diz ao que veio. Tem hora que parece que vai deslanchar no campeonato, mas tem vez que nem para empatar com pequenos o bicho presta.
       Assim tem sido o dia do carioca de todas as cidades do nosso estado; fogo na mata e água na competição. Se falta dinheiro para os políticos a questão é resolvida com novos impostos que a eles levam a paz que precisam para continuar na boa vida que o mandato lhes proporciona, enquanto a gente não consegue nem um lugar para sentar na fila do SUS aonde se busca por uma senha que nos dará o direito ou não de consultar o médico que dorme no plantão.
      A cidade está coberta pelo manto enfumaçado da queimada e o futebol carioca nos humilhando. Isso sem falar no comércio estagnado a espera de um incauto futuro inadimplente, e eu aqui sentado, cuspindo o gosto de cabo de guarda-chuva que o diabo do álcool me pôs na boca.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

AS APARÊNCIAS ENGANAM...

           Fui apresentado a um sujeito que há muito tinha na poupança o que poucos daquele lugarejo já conseguiram.  Mesmo assim levava a vida como levam os miseráveis. Peço desculpas por comparar um sujeito desse tipo aos que a vida lhes virou às costas.  Na ocasião eu cheguei a pensar que ele tivesse uns oitenta anos de idade. Só que não. Pouca coisa mais da metade ele tinha, mas aparentava um século de frustração, revolta e sofrimento. A ele fui apresentado por quem saltitava na bonita e saudável terceira idade a que pertencia, enquanto o sujeito, de quem estou falando, aparentava de todos ser o mais idoso. A ele era preciso dar satisfação do que era  feito ou se pretendia fazer no "condomínio onde morávamos", mas com o tempo, todas as peças encontraram seu lugar no tabuleiro. Aí eu apaguei a transparência da minha vida, não por ele me ignorar como fazia, mas por não merecer que nenhuma pessoa do bem lhe desse ouvidos. Foi uma bênção a gente ter tomado essa providência, pois com o passar dos dias se foi notando que algumas coisas sumiam da minha casa e só agindo com um pouco de malandragem eu fiquei sabendo que ele seria o autor dessas façanhas. Com auxílio de gente de sua estirpe ele fez um gato na minha luz e com outros iguais a ele desviava a minha água para a sua residência. Sua mulher, que também não saía da igreja, se calava diante dos maus feitos do marido nos dando a mim e a minha família a certeza do quão desonestos eram. O agravante, a meu modo de ver, é constatado na defesa que fazem da igreja evangélica a que pertencem, como se eles fossem um exemplo a ser seguido. Tais pessoas são capazes de discriminar os gays como se na sua família não tivesse, pelo menos um, que dividisse os gomos da mesma fruta.  Fora o comentário pejorativo que fazem dos erros dos outros como se eles também não os cometessem.
        De todos os males que vem fazendo à humanidade, talvez o voto que deram à Dilma seja de todos o pior.