quarta-feira, 26 de novembro de 2014

NUM SÁBADO A TARDE.

A imagem de um garoto de 55 anos caído na grama depois de errar um dos 
muitos chutes que fez ao gol jamais sairá de minha mente. Ele não errou o chute ou errou a bola e muito menos errou o gol por excesso de confiança, de zelo ou por medo da jogada não sair perfeita. Ele errou porque não era um jogador que veio para ganhar um determinado jogo, mas um garoto travesso que rolava e nos fazia rolar de rir com suas peraltices. Éramos, para ser mais preciso, seis irriquietas crianças, naquele momento.  Seis moleques correndo atrás de uma bola. Nada de homem, mulher, menina, velho ou adulto. Éramos como crianças em dia de Cosme e Damião a procurar por doce, e a responsável por tudo isso foi Rebecca, adorável criatura que nos convidou para completar seu time, depois veio o Eduardo como reforço de ultima hora. Agindo dessa maneira muita coisa poderia ter mudado, mas que nada. Até os mais recomendados pareciam principiantes e os que nunca jogaram até  nos ensinavam a lidar com  a bola.
A graça da festa era a felicidade que ela nos provocava e nada de melhor poderíamos acreditar que existisse no mundo naquele instante.  Mesmo sofrendo com os meus erros, com os erros dos outros e com a dor que me tirou de campo, aquele, para mim, foi o melhor que poderia ter acontecido, não só a mim, mas também aos que tomaram a minha contusão como um momento de graça e fingimento. Só eu sei o quanto me doeu e dói ainda essa dor bendita que só não é maior que a felicidade que ela provocou. Picasso ou Miguelângelo, diria o velho palhaço poeta, não se atreveria pintar um quadro com tamanha beleza como os que nós seis pintamos naquele sábado. Muito gelo na contusão, nos pés descalços e nas cervejas que bebemos depois do jogo. Mas como nada é eterno, a noite chegou e trancou atrás de nós o portão do campo. Aí fomos embora pra casa, mas não sem levar conosco na lembrança aquele belíssimo 22 de novembro, uma bela tarde de sábado quando aqueles caras que conosco dividiram o riso e as cervejas nos acharam iguais a eles como nós gostaríamos que todos se achassem. Hoje, certamente, estão perdidos no tempo e na distância e talvez nem mais se lembrem do quanto nos fizeram felizes naquele dia, como eu me sinto ainda.

domingo, 23 de novembro de 2014

NEM EU SEI PORQUE.

       Quando resolvi parar de publicar o que venho escrevendo, o que hoje se tornou livro, que trata de um padre que substituiu o antigo sacerdote na igreja de um povoado onde os costumes e o jeito das moças e consequentemente dos rapazes foram postos à prova, foi que percebi que meus leitores não se importavam com a direção que eu dava ao barco, até pelo contrário,  demonstravam prazer na viagem que eu os levava a fazer qualquer que fosse a direção tomada, desde que estivessem comigo como há muito tempo estamos. Essa atitude deveria enaltecer a minha vaidade, mas no entanto me entristeceu. Não fiquei triste como quem espera a morte no portão de casa, mas triste o suficiente para que a beleza das estrelas não fosse percebida, o perfume das flores não fosse sentido e a beleza das ondas quebrando no rochedo não tivesse vista. Esse tiro, acreditem, aguça os meus sentidos, não pela direção tomada pela bala, mas pelo susto que  o estampido a mim me causa. 
Tem momento e disso eu tenho certeza, que ando de braço com a contradição, mas nem por isso eu sigo os caminhos que me induz.  Sendo assim, pensam que o paradoxo me toma por refém, mas sou eu quem se faz de morto para tirar dele o poder que tem. Nem por isso deixo de sentir o cheiro da indiferença que rola em relação ao que eu disse, mas ao mesmo tempo a minha experiência me dá a entender que são felizes os que optam por caminhar comigo. Talvez por desconhecerem o que venha a ser felicidade total e absoluta ou por medo de perder a que julgam ter.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AONDE A GENTE VAI?



Quando a gente chegou de viagem eu fiz mal em permitir que as malas fossem desfeitas,
até porque, poucos dias depois voltaríamos a por os pneus na estrada. Enfim, como nada foi feito, as roupas voltaram para os seus lugares no armário.  De qualquer forma isto é muito prazeroso, mesmo sabendo que se trabalha mais do que pode, ganha o mínimo para não morrer de fome e  acha que só se descansa quando acha que vai para o céu. Por isso eu faço e desfaço as malas sem reclamar da trabalheira que dá; calçados num lugar, roupas no outro, toalhas de banho e rosto para cá, e as peças íntimas à parte enquanto a gente, boba que é, se diverte no interior do carro que aos trancos e barrancos resmunga estrada afora. Tanque cheio de um combustível que antes, quando o país não o produzia suficientemente para o consumo interno, era, podíamos dizer, barato, mas agora que temos o bastante para exportar, nos custa os olhos da  cara.  Felizmente só os da cara ou nem carro eu teria para não me vexar. Parece até que os políticos estão gastando mais do que o necessário, por isso tem estado tão caro.
E lá vai a gente cantando como a cigarra, que nem sabe o preço do canto, brincando como filhote 
de cachorro que não entende as manias do dono, porém feliz como pinto no lixo que se diverte sem saber que dele ninguém terá pena quando matar a 
fome de quem o matará.
Tudo arrumado, motor ligado, eu e os pneus calibrados e lá vamos nós antes que apertem
ainda mais os nós do país e os da gente.

sábado, 15 de novembro de 2014

TERRA MOLHADA.



          
     Amanhã bem cedinho eu pego o meu barco, minhas flechas 
e meu bodoque e vou para o grande rio. Remarei em direção ao sol quer ele se levante ou fique lá, estirado sobre o horizonte me olhando. Caso um caboclo eu fosse e com certeza faria um cigarro de palha enquanto o cheiro das águas molhando as margens do leito por onde rolam acariciasse o meu nariz, mas como não sou, continuarei remando mundo d'água adentro até os braços se cansarem e eu os cruze sobre o meu peito.  No decorrer do dia a fome, que não abre mão do convênio que tem com morte, tentará me afogar, o que certamente conseguiria não fosse eu um malandro de cidade grande que tal qual um pistoleiro do velho oeste sacarei, cruzando as mãos pela cintura, um pedaço de pão do farnel com o qual abaterei à mordazes dentadas e lentas mastigadas a fome que tentaria me matar. Pena que também morrerão os peixinhos que de olhos cumpridos sucumbirão 
com a boca cheia d'água.
        Olhando, agora, pra cima me dou conta que a noite para tais divagações está bastante inspiradora. Uma nuvem no céu, só uma, não há para que se pudesse embrulhar aquela lua e um par de estrelas para a viagem.  Nada que no firmamento interrompa o risco branco dos cometas que cruzam sobre a minha cabeça de um lado para outro.  Isso é sinal, ou melhor, é uma grande mancha de que o dia será bonito para quem não tem o que fazer, mas prazeroso para os que labutam, mesmo em causa própria, como eu que remarei rio afora em busca de uma resposta que justifique a minha vontade de bisbilhotar o encontro do  rio com o céu, tendo o mar por vigiá-los.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

ÁGUA, O QUE É ISSO?



A terra parece que deixou de sofrer, pois já não ouço os seus gemidos como ouvia 
antigamente quando a cachoeira despejava do alto das montanhas um montão de água que espumava ao se chocar nas pedras lá embaixo. Hoje as suas lágrimas já não correm serpenteando pelos rios, 
não cascateiam rochedo abaixo e empoçar, então, muito menos. Faz tempo que a chuva não lava os telhados da nossa casa e não varre as calçadas como varria antes. Isso sem falar na gurizada que fazia de um tudo para brincar na chuva. O verde que antes envolvia os montes e as montanhas esmoreceu dando lugar à folhagem seca que certamente arderá na primeira chama. O céu está mais limpo, as geleiras escoam em direção ao mar ao passo que a sede seca a boca dos paulistas, depois a dos cariocas e a do resto do país, quiçá a de todo mundo.  
Vamos torcer para que o rio São Francisco, sorria. Para que o Paraná, não pare e o Solimões não precise de gelo e açúcar o que tira de mim a certeza de que a terra deixou, sim, de sofrer, porque, enfim,  descansou na santa paz.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

FOGOS DA COLHEITA.

Finalmente para poucos o meu livro está pronto. Para os amigos, uma obra de arte. 
Para os mais ajuizados, um punhado de papel jogado ao vento. Todos que mexem com arte sabem que a crítica tem o peso de mil elefantes. Tem comentário que levanta os que já não se sustentam, como também tem os que enterram o que acham estar morto.
Enfim, a obra está no ponto de forno. Momento em que a minha amiga, Catiaho, a tomará nos braços, como se fora um filho, e o levará à lapidação para o desbaste final. Enquanto isso, nós, reles mortais, aguardaremos ansiosos que a musa da literatura, como Kelly Klein, faz questão de chamá-la, retorne trazendo numa almofada vermelha, o resumo da ópera. 
Foram dias de falsas tristezas e meras alegrias. Foram dias de clausura e incerteza, de chuva miúda na vidraça e vento por baixo da porta. Foram, portanto, dias a espera da planta frutificar. A flor já se fizera à luz da minha vida, como é sabido, só o viço não me regalava os olhos, como pensei quando plantei. 

Obrigado Catiaho, minha amiga e 
obrigado a minha mulher querida.