sexta-feira, 23 de maio de 2014

POR ELA...

Ela pegou a minha mão e pressionou espalmada   
contra o próprio  peito.  Seu coração, contrariando o que dizia, batia com a suavidade das brisas, enquanto o meu saltitava como cavalo chucro.  Para ela ter a minha mão sobre os seus seios  parecia algo corriqueiro, não sei, mas em mim causou tamanho reboliço. Talvez minha coragem não me levasse aquele extremo, mas se sonhar, como faço agora, não me custa tanto, ah, deixem-me sonhar se já o faço por deleite sem modéstia ou vaidade. Quantas vezes eu já tive essa mulher em minha cama sob o fogo ardente dos meus desejos e nada fiz? Quantas outras vazamos por entre as flores e nem cogitar a chance de roubar a pétala de um dos beijos dela eu me atrevi? Quantas vezes debruçado na janela do meu quarto me deixei a vida inteira para vê-la e por ela, de quatro, a catar migalhas de um sorriso de bom-dia que semeava eu me vi? Mal posso me lembrar do seu andar cadenciado, gingado, brejeiro e gostoso sem babar como um camelo apaixonado. Andar de quem desfila se negando caminhar. Assim tem sido a minha sina.  Meu coração já não é outra coisa senão uma grande passarela, um tapete vermelho por onde pisa com pés de anjo aquela que faz de mim um tonto, um bobo, um louco, um homem normal como todos deveriam ser e se não são é porque não a têm sob os seus olhos como eu.  

quinta-feira, 15 de maio de 2014

TRISTEZA OU ARREPENDIMENTO?


Depois que o amigo de infância se casou, Antônio, que
jamais andara sem a sua companhia, perdeu-se na escura solidão com o afastamento da pessoa de quem mais gostava.  Desde criança os dois dividiam entre si o  tempo e o espaço. Se alguém quisesse saber de um bastava encontrar o outro e tudo se arranjava. Cinema, andar de bicicleta, ir a praia, a festas. Qualquer coisa ambos faziam juntos e se algo pessoal estivesse para ser resolvido, o outro, estaria com ele para dar força,  e não seria agora que a coisa mudaria, mesmo que o casamento os obrigasse a isso.   Antônio, que na separação da dupla entrara em depressão, recebeu convite do amigo para ir a casa dele. Foi para voltar outras muitas vezes curando-se do mal que o afligia.    Com o passar do tempo conquistou na mesa de jantar daquela casa  um lugar para chamar de seu.  Chegou a dormir no sofá da sala algumas noites e em uma delas, na festa de aniversário de Luisa, mulher do amigo inseparável, encheu a cara e no final da festa foi dormir, sem banho e sem trocar de roupa, aonde estava acostumado.  Acordou de madrugada com forte dor de cabeça.  Levantou-se, ainda  tonto da bebedeira e foi tomar água na cozinha.   Passando em frente ao quarto do casal ouviu gemidos que certamente seriam de Luisa na intimidade do casal, pois Antônio estava de porre e deveria estar roncando àquela altura do campeonato. Sem escrúpulos, buscou olhar através da fechadura. Os gemidos só podiam ser dela, mas não eram.  Havia outra mulher, que seminua se deixava ver beijada e acariciada pelos dois.  Na penumbra pouca coisa dava para ser vista além dos beijos estalados, da bolinagem e de outras intimidades sem falar no que rolava de bebida, só não sabia quantas e quais. 
Os três se entregavam uns aos outros naquele quarto e ele ali, sendo preterido em nome da maldita bebedeira que o tirou da festa.  Daquela festa que o amigo fez contando com ele, certamente, mas naquele estado não só aquelas duas gatas, mas qualquer uma outra que estivesse ali  não gostaria de ter um bêbado nos 
seus braços, como ele, por amante.(Foto da Internet)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

COMO ANTIGAMENTE


        Conheci Toninho na terceira série do ensino fundamental em uma  escola pública do Rio.  Éramos nós dois o expoente de uma classe. Toninho tirava as melhores notas e eu lutava para não ser o último da sala.  Certa vez,  Toninho, na época com 11 anos, como eu, foi cercado por  estudantes de quinta série que, acredito, para compor seus álbuns,  tentaram roubar as figurinhas que portava. Naquela ocasião meu pai ainda praticava boxe nos finais de semana, daí a gente ter um Ring no quintal de casa aonde aprendi as esquivas e a socar com precisão. Por isso socorri o colega confiando no que havia aprendido. Distribuí poucos golpes, mas o suficiente para fazê-los tocar a bunda com os calcanhares  de tanto que corriam. Aquele gesto selou a amizade da gente. Toninho passou a frequentar a minha casa e eu a dele. Na minha a gente simulava algumas lutas, soltava pipa e jogava bola, não de futebol, mas de gude, aquelas bolinhas de vidro, pois com as pernas ele só aprendeu andar. Na casa dele eu comia bolo e tomava leite sem açúcar ou sal que sua mãe generosa de quem guardo o maior respeito e admiração me oferecia todas as vezes, enquanto na minha, só café com pão e olhe lá. Dessa união surgiu em mim o amor pela escola e com isso minhas notas foram melhorando. Quem poderia imaginar que um dia disputaríamos  o primeiro lugar da sala? Ganhou quem apostou no improvável. Com isso a nossa  imagem, principalmente a minha, melhorou muito diante daquelas garotas. Crescemos juntos para nos formar em áreas diferentes. Namoramos e casamos,  cada qual com cada uma, é claro. Com o tempo  nasceu Marcelo, filho de Toninho, de quem sou padrinho. Anos depois o pai separou-se da mulher e viajou para o sul aonde conheceu uma garota e se casou com ela.  Marcelo cresceu e nos tornamos amigos. Com o pai aprendeu a arte da fotografia e no ramo fez seu pé de meia. Hoje o cara tem a ousadia de ganhar melhor salário que o pai e o padrinho juntos. Optou por ganhar dinheiro em detrimento dos estudos, já que no Brasil, como em outras poucas nações o emprego é mais valorizados que o diploma.
Dona Mariazinha, mãe do Toninho, já dizia: - Digas com quem andas que eu te direi quem és.  Eu, Dona Mariazinha, ando com seu filho e por isso, como diria a senhora, eu sou um brasileiro que mesmo desempregado se for um dia, terei comigo a sabedoria dos livros incentivada por seu filho que amo, respeito e me honro de ser amigo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

ELA NÃO DISSE, MAS EU SEI...

Coragem de insinuar-se para um homem talvez nunca 
tivesse  tido, mas de sorrir como botões de rosas desabrochando nas manhãs primaveris, ninguém duvida.  Foi assim que de uma prosa  aonde eu dizia da curiosidade que tenho pelo desconhecido,  dos desejos que me assustam, mas teimo em tê-los e da guerra que travo a cada instante até fazer aquilo que não fiz,  que ela transformou as letras do meu texto  em notas musicais e executou, como maestrina renomada, a sinfonia que enlouqueceu meu coração.  Não se trata de poeta, escritora, artista plástica, compositora, mas escreve a sua maneira o hino da chegada, a marcha da vida desejada, canção da despedida não consentida. Só ela entende o que o coração de uma pessoa que vive trancada dentro de si é capaz de sentir por alguém que gosta, que a entende e a deseja. Só ela entende a vida e o porquê dos seus dias. Quando convidada a falar de si negou-se transferindo aos números que alimentam o leão do imposto de renda a responsabilidade de fazer cantar os rios e as cascatas para na copa das matas pintar com as cores dos seus olhos o arco-íris sobre as cachoeiras e em um novo nascer de sol mostrar o brilho de  uma pedra preciosa.  Nada a persuadiu fazer público o que lhe vai na alma, a descrever o que nela acende durante o beijo e em que parte a emoção toca mais forte nesses momentos.  Assim é a mulher que escolhi para falar de mim e, no entanto eu, que deveria ser a sua criação me vejo dela criador. 
Inteligente, bem formada, encantadora no tocante a beleza e gostosa para definir a palavra certa. Assim é e sempre foi a pessoa que nasceu para ser conhecida por todos e no entanto se esconde  envergonhada  atrás do tapume da introspecção com seu jeitinho dengoso e gostoso de mulher bonita. (Foto da Internet).