sábado, 26 de abril de 2014

O PORQUÊ DA CLÁUDIA.

     
      Quando chegou ao lugarejo caminhava de cabeça baixa como andam os monges tibetanos, parecia esconder o que dividir não pretendia. Pintura não usava além do que se pintam as meninas, e perfume também não já que do seu corpo exalava a  fragrância suave das flores silvestre enfeitiçando aqueles por quem passava. Cláudia era doce como beijo de namorado e delicada como o vento da primavera. Tinha nas feições a beleza  das festa infantis e o mistério  das estrelas cadentes.  A sensualidade estava em cada gesto, em cada palavra que proferisse e no gingado gostoso com que caminhava.  A chegada dessa morena causou enorme reboliço na sociedade local.  As mulheres casadas vigiavam seus maridos e as solteiras maldiziam a restrição que o mercado masculino, com a chegada dela, se submetia.  - Quem não gostaria de ser apresentado a mulher mais bonita, educada e sem ninguém que controlasse aqueles passos fossem eles por onde fossem? Que homem não gostaria de ter sobre si o manto daquele olhar morteiro?  O desejo por essa moça a cada dia se tornava uma luta desigual.  O médico, o padre, o delegado e o prefeito,  tinham dela a atenção, quanto aos outros se bastavam com um sorriso, um olhar e em poucas vezes um simples; como vai? Na festa do padroeiro ninguém quis saber da quermesse, da missa, procissão ou das barraquinhas de doces e lembranças, mas com que roupa e quais sapatos Cláudia iria aparecer na praça tirando o sossego das mulheres e ouvindo galanteios dos noivos, maridos e outros comprometidos que por lá se atrevessem.  Mas ela não apareceu.   Oivlis, o filho mais novo do juiz dessa comarca que na Europa estudou nos   últimos oito anos tinha voltado a convite do governo brasileiro e agora fora ver o pai.  Todos sabiam e aguardavam por sua presença, mas quem o juiz sugeriu que fizesse parte da comitiva que o receberia na entrada do povoado? Qualquer tipo de gente, menos Cláudia que não o conhecia e disposição para isso, acredito, não tivesse e obedecer um pedido da prefeitura para este fim, muito menos.   Cansado da viagem e desconhecendo o que lhe aguardava, o jovem Oivlis, que se hospedara numa cidade vizinha por não ter hotel na sua, não saiu do quarto naquela tarde até que resolveram ir buscá-lo a mando do prefeito. A figuras importantes ele foi apresentado, porém alguma coisa na multidão prendia o foco dos seus olhos e sem deixar de responder a qualquer das perguntas manteve-se olhando a praça como num pique esconde, buscando o que não sabia.  A saia não era longa, mas curta, muito curta, também não era. A blusa sem transparência, cujos seios rijos eram por ela emoldurados, estava  amarrada acima da cintura onde, logo abaixo,  um cinto largo afivelado simulava sustentar a saia justa. Cláudia, num gesto brusco, mais para chamar sua atenção, jogou de lado os cabelos, rodopiou no calcanhar da bota de cano curto e deixou o povo lamber o jovem e os convidados do político indo aninhar-se por entre as flores que a preço justo eram vendidas na barraca junto à igreja.  Pouca gente se atrevia deixar o gargarejo do coreto onde tudo acontecia, mas do alto, o filho da cidade desvencilhou-se do afã daquela gente e sem olhar para aquela que procurava, comprou a que acreditou ser a mais bonita entre todas as rosas e deu a ela sem tirar do verde dos seus olhos o azul dos  dele.
A cada vírgula, a cada ponto de exclamação e ponto final, encontrava uma interrogação; por que não levara consigo a namorada, a noiva ou a esposa se casado era?  Por que precisaria a cidade de mais um advogado se o juiz era o seu dono? Segurando firme junto ao peito a flor que recebeu, calou-se com o beijo  que ele, pretensioso, deixou nos lábios seus. Os olhos semicerraram quando a praça escureceu.  Outros e outros mais beijos foram sucedendo um a outro enquanto as mãos do doutor, como as de um maestro, orquestravam a marcha do acasalamento e peça por peça de roupa, dela sobrepunha-se as dele no banco da praça vazia onde a lua cheia corou de vergonha pela beleza da peça que assistia. (Foto da Internet) 

sábado, 19 de abril de 2014

DOCE COMO FEL.

Com a fome das baleias o metrô ia engolindo as estações da 
linha-1.  Passavam os vagões, um por um e numa rapidez tal que mais parecia a felicidade fugindo da vida da gente, enquanto ela, com a ligeireza  das tartarugas tirava da bolsa  e levava à boca um Drops das balas Hall
Como em um filme projetado nas janelas as imagens avançavam no correr do trem e eu, ansioso, não via a hora de chegar.  Era uma visita rotineira ao dentista, mas aquela moça a minha frente me olhando enquanto da bala sentia o doce, roubava das minhas pretensões todo o nervosismo se é que nervoso eu estivera  antes.  Enquanto isso a moça chupava, chupava e chupava com delicadeza, com jeito, sem demonstrar pressa na quilo que fazia e como fazia bem o que me mostrava.  Chupava a bala não como uma criança poupando para durar, mas com a malícia das fêmeas que prendem pelo pescoço no salto agulha de encontro o chão, o  macho, subjugando o homem. Quem não sabe que uma só dessas balas, a preta, principalmente, se torna um dos melhores, senão o melhor acessório sexual que o cafajeste  bem formado, sendo ele ou sendo ela, tem na hora do amor, quem?  A minha boca encheu-se d’água. Me fez febril e eu suei molhando a roupa enquanto  arregalavam-se os meus olhos, pulsavam cada músculos nas  lambidas que ela, com a malícia das vagabundas dava em cada bala ao invés de lamber a mim.
(Imagem da Internet).

terça-feira, 15 de abril de 2014

CUIDADO, MAS NEM TANTO.

Loquei um carro no período em que o meu estava na 
oficina e posso adiantar que a sensação de usar o que não é da gente é muito grande. Principalmente em se tratando de um veículo que em dado momento precisa, mesmo que por pouco tempo, ficar na rua enquanto a gente toma um café, compra uma bobagem ou faz uma visita a um parente.  Esse tipo de coisa cansa e tira da gente a tranquilidade que se tem.  E toda vez que eu tinha de deixar o carro fora da garagem eu sofria achando que um alucinado poderia riscá-lo ou até roubá-lo causando aos meus momentos de apreensão um maior constrangimento. Antes de terminar o prazo combinado eu já havia devolvido o infeliz à locadora para delírio da senhora cujos olhos claros não saiam de sobre mim, enquanto motorista. Há tempo eu ansiava pela apresentação que os Irmãos Kyoskys faria na região dos Lagos, mas quando ela aconteceu, cadê coragem para viajar naquele carro, e olha que se tratava de um zero quilômetro. Eu teria perdido o show se fosse apresentado na data marcada, mas, por motivos que ainda desconheço o show foi antecipado, por isso perdi, do mesmo jeito, a grande 
chance de aplaudi-lo. 
Dizem, os afortunados que estiveram lá, que assistiram o melhor show dos últimos anos e não fosse pela antecipação da data eu acho que teria perdido os amigos que tanta falta me fazem se estão distante.
Hoje teremos de volta o que era nosso, sem frescura.  Chega de sofrer pelo que não é da gente, mesmo sabendo que alguém, certa vez, gastou os olhos da cara para nos levar do Espírito Santo, onde moram, para Cabrália, Porto Seguro e outras cidades da Bahia e o fez como se estivesse andando de táxi, tal a segurança que via no equipamento de locomoção e na forma como o dirigia.
-Como dizia a minha avó; assim são as pessoas e a gente tenta, mesmo que não consiga, ser como elas são.
(Foto da família Kyoskys)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

VIDA REAL, SERÁ?

Será que Alfred Hitchcock, José Mojica e Stephen King 
teriam sido procurados pela psicanálise quando escreveram roteiros que relatavam crimes brutais como se fossem casos banais e só por isso os consideravam doentes ou teria um  delegado de polícia ido à residência de cada um intimá-lo por ter feito com a  voz dos seus atores confissões de crimes monstruosos?  Pois é.  Na ficção tudo é permitido e essa liberdade não dá direito de alguém sair por aí cobrando satisfações que pensa que lhe devem, já dizia o 
Palhaço Poeta.  Na vida de pessoas que contam suas histórias rabiscando no papel não é bem assim.  Se alguém escreve sobre morte, mandam-lhe flores, mas se os textos falam de amor é porque o escritor está apaixonado e deverá em breve largar a mulher para ficar com sua amante e dessa maneira o portão do pobre diabo abarrotará de gente querendo saber o nome daquela que o enfeitiçou, qual é a sua intenção para com ele e o que teria feito além de inspirá-lo a escrever o que nos prende nas entrelinhas demonstrando amadurecimento no que faz, fora os que bisbilhotam a sua intimidade, e não há o que os remova dessa obsessão.  Não adianta nem dizer que tudo é história inventada,
fantasia colorida e não realidade.  
Essas coisas talvez não aborrecessem os grandes escritores se disso tomassem conhecimento, mas eu, que não passo de um desenhista de textos, me encanto na medida que os confundo com aquilo que me dá certeza de ser um razoável contador de contos. 
 (Foto da Internet).

segunda-feira, 7 de abril de 2014

UMA VARANDA NO ALTO DA MONTANHA.

Depois que a atriz Lucélia Santos declinou motivos para 
andar de ônibus na reportagem da revista o globo, foi que 
 resolvi deixar o carro na garagem pelo menos duas vezes na  semana.  Acredito que esta iniciativa tenha sido a mais importante das que  tomei  nesses últimos meses, pelo menos aprendi muito com o que vi em tão pouco tempo.  
 Ontem, para que vocês tenham uma ideia,  uma senhora embarcou com uma criança de colo  no busão em que eu estava  e como não havia onde se sentar, é claro, ficou de pé, até que o motorista se levantou e disse que somente quando a mãe e a menina se  sentassem  ele daria partida no veículo.  Antes de terminar o que dizia a mulher se acomodou no lugar de uma adolescente que, com cara de débil mental,  se levantou de onde fingia estar dormindo. 
No primeiro dia da semana um idoso fez sinal e o carro só saiu do ponto em que parou para pegá-lo quando o  condutor teve plena certeza que o passageiro estava seguro no lugar que escolheu para sentar. 
Quanto a faixa de pedestre ser respeitada ou não, eu fico com a primeira opção. Não sei se é por conta do Luciano Huck se esconder com sua banda para premiar aqueles motoristas que respeitam as leis do trânsito ou se por educação que esses caras  procedem dessa maneira. Essa gente que usa o volante para o seu ganha pão ou viés do seu fazer não  ultrapassa a faixa  quando em uma de suas cabeceiras tem alguém se projetando para atravessá-la.  Por aqui e em qualquer outra cidade do interior, acredito, a educação e a cortesia ainda resistem aos arroubos dos mal educados.  Só espero que o esforço que o governo do Estado vem fazendo para sufocar a bandidagem na periferia das grandes metrópoles não os mande para cá porque aí as coisas podem mudar  e se mudar, com certeza, não será para melhor.

terça-feira, 1 de abril de 2014

DE QUALQUER JEITO.

Não importa se a pessoa tem meios para comprar
vestidos de grife, para importar o tecido dos ternos que moldam seu corpo ou é bonita e saudável.  Não importa se é bem empregada, se tem muitos amigos ou fala outras línguas além da sua. O que importa, de verdade é a cabeça erguida.  É o caráter, a honra e o companheirismo com seus pares.  O que interessa ser arrogante se na hora da dor sofre e chora como qualquer mortal? Eu não sou exemplo para ninguém, sempre digo isso, mas já tive bons momentos só não conspirei contra a sociedade, não cuspi pro alto, no chão ou no prato que esvaziei.  Não briguei com forte e para o fraco jamais levantei um braço. Entretanto, trabalhei para servir a quem mandava e comi quando a fome me comia.  Hoje as coisas estão, posso dizer, equilibradas.  Os generosos doando a sua alma, os caridosos o seu coração enquanto os filhos disso e daquilo se engalfinham pelo dinheiro, pelo poder ou simplesmente para ostentar a cara na capa das principais revistas e colunas sociais. Saibam que esses caras são capazes de vender a própria mãe e depois, subornando, é claro, tentam comprá-la a preço de final de feira ou de matar  a mãe dos outros se for preciso. Nada é capaz de frear o mau-caratismo se o cheiro do dinheiro está no ar.  A pessoa trapaça, se vende ou compra qualquer um.  Alia-se aos fortes para subjugar os fracos e no final das contas se comem como a cobra com Alzheimer come o próprio rabo. Faz-se dinheiro com o caráter, com os defeitos, com a vaidade ou com os sonhos das pessoas.  E se alguém ficar doente, sofrer ou morrer, ganha-se com isso da mesma forma que se ganha para vê-lo bem, sorridente ou pretendendo ser feliz.
(Foto da Internet).