quarta-feira, 26 de março de 2014

NADA OU TUDO A VER...

Há muito não sentia uma saudade assim, alguma coisa 
que o tocasse fundo como o prenúncio da despedida, 
uma viagem de ida sem volta.  
Seu carro, um modelo antigo, porém bem cuidado, estava na oficina, cujo responsável prometeu telefonar quando estivesse pronto e foi disso que se lembrou quando tocou o celular dando conta de uma chamada não concluída.  Graças ao DDD foi possível perceber, e perceber errado, que era a concessionária pretendendo entregar o carro, só que não.  Era a sua irmã dando notícias da família.  Em sete anos era a segunda vez que se falavam pelo telefone.  A primeira e única foi no aniversario dele, dias depois da festa do rapaz.  
"Mamãe não está bem", disse a irmã em tom de choro.  Tinha sofrido uma queda  e só os exames poderiam avaliar o tamanho do estrago, se é que houve algum. É claro que ao se desligar da conversa o cara tenha se debruçado numa dessas tristezas que assolavam aquela alma de criança, já crescida.  Felizmente, para ele, um amigo de infância, que garante ser o mais presente, ligou, sem saber do caso e com seu gesto acabou fazendo toda a diferença. A alegria que o amigo trazia em sua fala e no sorriso contagiava qualquer um, mas nesse momento a dose era única e exclusiva, o remédio que precisava. O bálsamo trouxe de volta à terra encantada do circo aquele que sentia no corpo o desejo da desistência e na alma uma vontade imensa de chorar e foi sorrindo, mesmo cansado dos entreveros, que fechou os olhos e dormiu um sono tão profundo que ao despertar sentiu-se, novamente uma criança.
(Foto com os Irmãos Kyoskys, que honrado, os tenho por amigos).

sábado, 22 de março de 2014

JOÃO E A CHUVA...



Nesses últimos tempos tem chovido muito em suas vidas.
Na dele chove granizo e na dela, talvez, somente esteja serenando. Essa semana, por exemplo, tem chovido a noite e toda a madruga.  Pela manhã, assim que o sol se mostra por entre as espessas nuvens, vem o frio e os leva ao quarto, às cobertas e ao silêncio.  Há muito a chuva vem curvando a planta cuja semeadura teve amor igual ao de João ao conseguir, através do pé de feijão, incomodar o gigante da história que se leu quando criança.   Nada mais tem sido como na primeira vez. No início a orquestra não parava e no salão de festa rodopiavam como dançam os grandes bailarinos, corpo espremido no corpo, testa colada na testa e o ar de um mantendo  o outro respirando.  Hoje a banda já não toca. Os instrumentos a cada dia desafinam mais. Quando um vai para um canto, permite que o outro em um novo canto se descubra. O som que compunham a quatro mãos, já não encanta, não tem o mesmo andamento, a mesma harmonia. Suas vidas se tornaram um conto sem sapo e sem princesa, sem cavalo branco, um arco-íris sem cor. Enfim, não se tornaram um número par quando estão juntos, mas quando separados não passam do resultado da divisão dos ímpares; são restos. Não há motivos para riso, festa ou carinho.  Não há motivo para o trabalho ou para viver. Há de se mudar esse quadro ou essa história terá um fim de sofrimento e dor,  a não ser que a morte a faça sofrer menos.

terça-feira, 18 de março de 2014

ESTRELAS NO CÉU DA MINHA BOCA.

        Ela não fazia questão de passar despercebida, pelo contrário, se mostrava do seu quarto, nua, cheia de luz a quem olhasse para 
o alto, para cima, para o céu.  A lua, portanto, era um quadro  emoldurado de menina, de garota, de mulher. Não uma simples  mulher bonita, mas a mulher dos sonhos de todos os homens, todos os rapazes e de certos meninos, e por que não de determinadas mulheres? Eu, entre tantos sonhadores, idolatrava aquela imagem. Queria tê-la bem perto dos meus olhos ao alcance dos meus toques, rodilhada nos meus braços serpeando no meu leito, escorrendo pelos músculos do meu corpo, se entregando a cada beijo.
E assim, envolvido na espiral desse delírio me peguei pensando nela, branca e bonita riscando o céu, e além disso, nada, além da brisa com cheiro de mato pisado. De flor se abrindo na madrugada, de terra revolvida, cultivada, das minhas caminhadas, da moça enxugando os olhos na janela debruçada. Uma fingindo olhar a rua, enquanto eu, afastando de mim as cortinas me penduro para olhar a lua.  
Duas mulheres distintas, brancas, lindas.  Uma fria, presa no alto dos meus olhos e a outra travada pelo destino, grilhão de rodas na minha memória. 
Embarcado nesse amor eu serro os olhos voltando a sonhar com ela. Passeio de mãos dadas com ela, namoro no "véu de noiva" com ela e pela manhã, sozinho, caminho estrada afora, sem rumo, sem destino,  para me encontrar com ela.

sábado, 15 de março de 2014

NA CURVA DO CAMINHO...



Era preciso calcular o tempo para que  numa casa  velha  
situada num lugar bonito no  alto da estrada se pudesse ver uma mulher que meiga e bonita, muitas vezes parecendo que deitar seus olhos para fora daquela janela onde, ao entardecer, o sol morria ao fundo, não era dos seus desejos o principal. 
Eu chegava do trabalho e às pressas trocava de roupa e saía para a  caminhada. As vezes, por ser muito cedo, caminhava devagar, mas se eu me atrasasse, meu Deus, como pude perder a hora?, então corria como doido estrada afora para não deixar de vê-la.  
Essa era minha rotina no final do dia. Andar a pé até ao anoitecer era pretexto para manter a forma e lavar meus olhos na sua formosura era a minha pretensão.
Enquanto aquela janela permanecer aberta, debruçada sobre o parapeito uma jovem mulher se deixará ver por quem se atrever por estas bandas, ora de lama, ora poeirenta. Um casebre arruinado pelo tempo, situado no ponto mais alto à beira do caminho de onde se poderia ver o campo e as flores, o gado pastando na margem do rio, e além, as árvores se fechando em copas como se não pretendessem esconder da moça, tanta beleza. Ninguém, no entanto, perderia seu tempo com as bobagem da natureza se atrás daquela janela uma linda donzela enxugava os olhos que marejavam cada vez que alguém passasse por ali.
O cheiro de terra molhada chegou-me através de um pé de vento. Cobriu de poeira a minha vista enquanto grossos pingos d'água em pouco tempo cobriam o caminho. Uma chuva inesperada, verdadeira tempestade fez-me correr àquela casa onde bati pedindo abrigo. O ranger da porta fez mais barulho que o vento gemendo cá fora. Do outro lado da porta, surpresa, uma linda mulher com cara de menina disfarçava o pranto.  Forçou no seu belo rosto  um sorriso, afastou da entrada sua cadeira de rodas e com toda a tristeza que sentia, fez uma reverência me deixando entrar.
Uma grande caixa aberta sobre uma mesa capenga continha revistas antigas e recortes amarelados de jornais dando a impressão de existir ali uma vida resguardada por quem quer que a tivesse vivido e parecia esconder das vistas de qualquer um. Uma caneta destampada  sobre um diário surrado deixava a ideia de que a fase ainda não tinha terminado. Alguns quadros desnivelados retratavam uma menina várias vezes premiada com medalhas e troféus no pódio a beira de piscinas em cidades diferentes. A cadeirante fechou na caixa o que havia sobre a mesa e a levou para longe da minha possível curiosidade, só não teve como evitar que eu lesse uma das muitas manchetes;
"Nadadora atropelada fica paraplégica, perde os pais no acidente, ganha cadeira de rodas e some depois da alta."
Desconfiada ela abre a janela e uma brisa fresca e suave nos diz que a chuva passou e é hora de eu ir embora. 
(Foto da Internet)

quarta-feira, 12 de março de 2014

AMOR DE CARNAVAL.

Do carnaval restou o cheiro adocicado do lança-perfume nos ares dos salões 
onde vivemos momentos alucinantes e de onde são  varridos os confetes e as serpentinas que casais, também felizes, não cansavam de jogar nos foliões. 
De todas as lembranças que eu tenho das folias, uma, entre tantas,  dói fundo nas minhas recordações.  Foi no momento em que uma lágrima solitária, que nem sempre dou conta quando me escapa aos olhos, você riscou no rosto triste do arlequim que guardo nas minhas memórias. 
Por todo tempo anseio por esta data e como faço todos os anos ao vestir aquela fantasia, corro para o portão na esperança de vê-la chegar para pintar na minha cara a tristeza que guardo em mim. 
Nada mais importa no final do carnaval senão a lembrança da felicidade dos foliões atrás dos blocos, e da gente trocando juras de amor eterno nos degraus sujos do clube como fazíamos nas madrugadas no final dos bailes. 
Juras que se quebram a cada vez,  mas eu finjo que não ligo. 
Juras que se tornam triste brincadeira, como se de brincadeira fosse o amor que eu acreditei que era eterno. Eterno, no entanto, tem sido esta tristeza. Tristeza como a do arlequim que todos os anos espera você pintar na cara dele a alegria que não teve, mas é na minha que você faz questão de pintar a dor. Quanto a lágrima, esta  você pinta na alma do pobre palhaço, mas é na do homem, que eu sou, que você faz questão de desenhar a saudade.

segunda-feira, 10 de março de 2014

MEU AMIGO, COMPANHEIRO.

Desde menino eu chorei a morte dos meus parentes 
e de alguns amigos que com o passar do tempo foram nos deixando. 
    Eu penso que devo muito aos meus avós e as minhas tias que tiveram suas vidas ceifadas pela ignorância da morte e por mais que eu orasse a Deus não pago o bem que me quiseram. Hoje, infelizmente, eu perco um dos meus melhores, senão o melhor de todos os  companheiros. Aquele com quem brinquei a vida inteira a qualquer hora do dia ou da noite sem que as minhas vontades por ele fossem  questionadas. Muitas vezes eu disse não às suas brincadeira e só ele não se negava brincar comigo. A diferença de idade entre a gente deveria ser um divisor de entendimento e compreensão, mas a isso eu dava de ombros para brincar até perder  o fôlego. Podia ser que eu tivesse tido melhores pais e melhores escolas, quanto a ele, não sei. É possível que tenha tido aquilo que fez por merecer, inclusive a minha amizade que era uma via de mão dupla; eu o completava e ele me realizava, já que éramos exatamente iguais. Até carinho meus pais faziam questão de dividir conosco. Jamais recebi um agrado sem que Walter fosse lembrado; um doce, um sorriso ou uma palavra elogiosa, sem contar com a expressão de felicidade do meu pai quando nos via juntos   ao voltar 
do seu trabalho.
     Dezessete anos de sorriso e festa. Nesse pequeno espaço de tempo vivemos mais alegrias que tristezas, porém, de todas as dores que tivemos 

essa é a que mais doeu.
- “Quando você achar que não vai suportar a ausência do amigo, vá ao seu túmulo e faça uma prece. Isso o ajudará a entender a magia da vida.  Assim se sentirá melhor, e, só não se espante se com isso você crescer, pois todos crescemos com os ganhos e as perdas”

Essas palavras que minha mãe me disse foi o que me trouxe ao pé de sua cova aonde chorando, como choro agora,  enterrei Walter, o cachorro que mais me fez entender e gostar da vida.
 (Foto da Internet

sexta-feira, 7 de março de 2014

MENTIR POR QUÊ?

       

       Quanto mais conheço os homens, mais gosto das mulheres, já dizia o palhaço poeta. Tem homem que usa bigode e morre pelo que diz, mas também tem os que morrem de boca fechada com ou sem cabelo debaixo do nariz. Existem outros que mentem para se engrandecer ou pregam o que não sabem querendo enriquecer, mas para este tipo foi reservado um lugar escaldante e inquieto na primeira fila no teatro do inferno. Eu já usei barbicha e também tive  bigode.  Usei por pouco tempo, mas só falava o que tivesse  pesquisado para minha credibilidade e compreensão dos meus amigos.  Menti algumas vezes, não nego, mas não fiz na intenção de melhorar de vida ou passar quem quer que fosse para trás. Menti para melhorar alguém se as minhas palavras fossem de conforto à quem sofria. Menti por razões que nem eu mesmo acreditei que fosse capaz.  Menti para o amor da minha vida quando disse que ia embora. Menti para minha avó quando disse que ela não sabia envelhecer. Para minha mãe quando afirmei  ser  um pai invejável. Menti para os meus filhos me passando por super herói, para mim mesmo quando disse que nada deteria meus passos se conseguir alguma coisa eu pretendesse.  Talvez com isso eu tenha pecado, mas Pedro, aquele sobre quem Jesus construiria a sua igreja, não me diz que foi errado. Menti buscando verdades, mas  não minto quando digo que sou forte e nem a morte é capaz de me calar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O JOGO DA MORTE.

Faz tempo, conheci um cara que teve a sua
infância atrelada a minha vida.  Eu sabia cada passo que dava já que as suas pegadas eram feitas sobre as minhas.  O tempo passou me deixando ver a criança que foi, o rapaz que eu aprendi a admirar e o homem que se tornou.  Certa vez, ainda criança, eu vi brilhar nos seus olhos o milagre da alegria quando, pela primeira vez, entrou comigo em um cinema.  A pipoca e o guaraná para ele não faziam diferença senão a imensidão da sala aonde a voz forte e bonita do mocinho, e a trêmula e angustiada do bandido, ecoavam nas paredes, infiltravam na plateia, na pele, dentro na gente. Eu também sentia essa mesma emoção, mas parecia que ele vibrava mais. Muito mais.
Só à pipoca e ao guaraná, na minha primeira vez, não 
fizeram parte. 
"Eu brincava como qualquer menino, tinha vez. Mas era na escola, no trabalho da casa e quando fora dela tinha sempre alguém para vigiar. Era difícil administrar meu próprio crescimento que por ter sido amparado pelos pais e familiares, fizeram de mim um cara com jeito igual ou muito parecido ao dos meus educadores".   
-O tempo passou e o rapaz que no caminho deixava pegadas como as minhas se enamorou de uma garota.  Transaram e dessa transa nasceu uma criança. Uma menina que foi amada desde a concepção.  O tempo continuou atropelando as horas e os dias e assim os anos pintavam de branco os primeiros fios dos meus cabelos.  A menina, agora moça, viu quando a desgraça lhes caiu  sobre os ombros. Foi uma tempestade  fria, barulhenta, avassaladora. Era uma doença contagiante e poucos acreditavam se salvar. A droga fez escravo do seu pai, e as consequências eram terríveis. Sofriam a família, os pais, o irmão e os amigos a dor da perda, da morte. Morte da vergonha, da honra e da esperança.  O menino, agora homem,  reuniu as poucas forças que lhe sobravam, se é que as tinha, e gemeu um sussurro de socorro.  Talvez não tão baixo que não fosse ouvido por quem escuta com o coração.  
E ele foi tomado e levado nos braços por amigos que jamais deixaram de acreditar na sua recuperação para uma clínica longe da gente. Seis meses mais tarde voltou com nova cara.  O sorriso era mais bonito e transparente.  Estava limpo.  O menino que feliz corria atrás da bola, que ajudava o irmão mais velho nos afazeres da escola e das brincadeiras jogou a maior de todas as decisões; o jogo da sua vida. O jogo contra o vício.  Jogo que requer dribles curtos ou longos, exatos e objetivos, porém se faz necessário que o alerta fique ligado pois o adversário foi abatido, agoniza, mas não morreu. A cocaína que você conserva distante das vistas às custas da fé e da bravura já foi sua mazela, seu carrasco, seu bandido. Hoje, quando o vejo abraçar alguém que sofre com o mal que o corroeu, já sei que escuta em silêncio a quem não é ouvido e quando fala, não cobra, não critica, não humilha.

sábado, 1 de março de 2014

UMA DAS FACES DE ARLEQUIM...

Sobre a cama um par de sapatilhas prateada, luvas brancas, 
uma calça perolada de cetim e a bata larga de golas sobreposta, várias delas, umas cobrindo as outras. Alguns pinceis e tinta de muitas cores pintarão a cara do mais alegre dos tristes arlequins. 
Essa, com certeza, é a primeira vez que saio num bloco pela rua. São muitos, são vários os que se atrevem num calor sufocante que nem todas as cerveja, por mais geladas que fossem, dariam conta do sufoco gostoso que é brincar o carnaval no Rio. Outras vezes me aventurei nos baile do Bola Preta, do Flamengo, do Monte Líbano, Minas Tênis Clube e outros que já não me lembro. Eu chegava de cara limpa e aos poucos ia me enturmando com os que ali se divertiam. Bebia, fumava quando me ofereciam e saía com a primeira garota que se deixasse cativar para tomar um ar e nela sapecar alguns amassos e vários beijos dos quais só eu sabia dar. Também falava ao pé do seu ouvido as mesmas coisas que dizia as outras que fingiam ouvir. Ah, você diz isso para todas, dizia uma delas, e eu retrucava; você tem razão, mas à vera eu só falo pra você. Entre alguns beijos, um apertão aqui e outra passada de mão ali enquanto no salão rolava o baile.  Moças e rapazes. Senhoras e cavalheiros dando tudo de si como se em três ou quatro dias o mundo fosse se acabar e o pior é que acabava mesmo ou a quarta-feira não seria de cinzas com um bando de gente suada, cansada, arrependida do que fez ou de não ter se permitido fazer mais, largadas pelos arredores dos clubes.
Carnaval é fantasia. É máscara, é viver em menos de uma semana o que não se permiti viver no dia a dia durante a vida inteira. É fazer coisas para negar depois.  É dizer sim na hora do não e dizer não quando tudo já aconteceu. Mas se você se cala é porque a cabeça entrou em parafuso, a alma em frenesi e o corpo foi tomado por uma cadeia eletrizante de orgasmos miúdos que jamais pensou sentir,  enquanto um cara, sem cara, sem endereço e sem nome, desenha com um beijo um par de lábios em sua face mascarada e, 
sambando porta afora vai embora.