domingo, 21 de dezembro de 2014

SIM SENHOR, SARGENTO!

Há 15 ou 16 anos conheci um jovem que, mesmo  ninguém acreditando, 
conseguiu ingressar no quadro da Polícia Militar do seu Estado. Com o poder que a PM dava aos soldados e a arma que carrega na cintura, esse rapaz fez poucas e boas e tudo em nome da lei.  Da lei dele, como costumava dizer, não sei se diz, ainda. Deu carteirada quando tinha a certeza de não ser contestado e usava a força bruta quando o interlocutor era mais fraco. Falava alto quando estava junto a uma orelha e resmungava se ninguém pudesse ouvi-lo.  Hoje, tantos anos depois, eu o encontro corado, mais forte e mais educado. Até para extorquir ele pedia desculpas e não deixava de agradecer antes de ir embora. Sua farda mantém o mesmo padrão de limpeza que tinha antes, mas a pele e o cabelo se renderam à força do tempo. Seu carro, que antes não passava de um fusquinha mil e duzentos tem hoje no motor mais cavalos que o haras do governador. Até a mulher dele que fazia tempo eu não a via ficou mais jovem e mais bonita, talvez por residir com a família numa casa diferente da que moravam quando eu os conheci. Ficava ela numa viela da periferia onde pagavam  um aluguel do qual viviam reclamando.  Hoje moram  num casarão de frente para a praia que dá vista para um horizonte reluzente nas manhãs ensolaradas e que resplandece quando a lua vem contar suas estrelas. Este pormenor é de causar inveja aos amigos e aos deputados e marechais, inclusive a mim que recebo um salário que mal dá para andar com meu carro pelas rodovias aonde atua o militar. 
Na cintura do servidor público, que já não é tanquinho ou definida como antigamente, uma rajada de balas é presa por um cinturão fortemente afivelado junto ao corpo que também prende uma reluzente 7mm., enquanto nos seus ombros vislumbro divisas que impõem respeito aos de menor patente.  Isso, mesmo. Eu disse divisas. O que de bom ou razoável teria feito esse sujeito dentro da corporação que alavancasse a sua trajetória dentro da carreira? De soldado raso ele foi a cabo, a terceiro sargento, a segundo e agora a primeiro sargento da PM do Estado. 
Parabéns, camarada soldado, ou seria soldado camarada? Sim, soldado porque a patente não tira do militar a forma de ser chamado pelos superiores e por nós, reles camaradas pagadores de impostos.