sábado, 13 de dezembro de 2014

MOTO x MOTORISTA POSSUÍDO.

Na sala de espera do meu dentista eu dei com uma paciente que, toda engessada, 
não toda do jeito que eu estou falando, mas tinha o braço esquerdo e a clavícula do mesmo lado envoltos em gesso, assim como vários curativos no tórax e a falta de alguns dentes da frente. Eu vi, mas fiz questão de não ser notado que olhava. Fiquei, como diz um amigo meu de Vila Velha, olhando o zip zap no meu smartphone. Não demorou muito e a moça, trocando de cadeira, veio sentar-se ao meu lado para saber se a Kelly havia terminado a faculdade e disse isso me chamando pelo nome. Antes de falar qualquer outra coisa perguntou pelas pessoas da minha relação e também quis saber do andamento dos meus livros. Depois contou-me que estava em sua moto quando inesperadamente um carro invadiu a pista em que trafegava para sacudi-la longe e depois de bater com o rosto no chão, perder alguns dentes e quase morrer asfixiada pela tira que prende o capacete sob o queixo, finalmente alguém apareceu para tirá-la do sufoco. Esse alguém era o motorista atropelador que não tendo como deixar o local sem que fosse interpelado pela multidão que cercou o carro, se viu obrigado a socorrê-la. Não fosse alguém correr para tirá-la daquele sufoco e ela não estaria ali, ao meu lado, para contar aquela história.  
A todo momento eu interrompia a sua fala para ganhar tempo e ver se me lembrava de quem era ela.  Quem seria essa moça que falava comigo como se me conhecesse há tempos? E eu, como poderia esquecer de uma pessoa que demonstrava ter tanta intimidade comigo? Será que esse é o sinal dado pelo Alzheimer quando  a gente chega próximo aos 50 anos, um pouquinho para mais ou um pouquinho para menos? E só de lembrar que a imagem da criatura bailando na minha memória sem que eu conseguisse me lembrasse de onde a conhecia, me dava uma raiva que não cabia em mim.
Contei isso para a moça dos olhos, cuja cor sempre deu vida ao arco íris, e ela, rolando de rir, mas afastando-se de perto de mim, talvez com medo desse que vos fala, me contou sem forçar sua memória, quem era a pessoa em questão e de onde a gente se conhecia.
-Lili, desculpa. Depois de meses e meses sob os seus cuidados numa clínica de fisioterapia esse cara que jurou não saber como agradecer pelos seus serviços não podia ser mais ridículo do que me tornei ao esquecer o seu nome e do bem que você me fez no momento em que eu mais precisava de ajuda.
-Agora, de volta a realidade dos fatos, eu peço a Deus que ajude você na convalescência e na solução dos problemas que o desatento motorista causou a você e a sua família.