sábado, 15 de novembro de 2014

TERRA MOLHADA.



          
     Amanhã bem cedinho eu pego o meu barco, minhas flechas 
e meu bodoque e vou para o grande rio. Remarei em direção ao sol quer ele se levante ou fique lá, estirado sobre o horizonte me olhando. Caso um caboclo eu fosse e com certeza faria um cigarro de palha enquanto o cheiro das águas molhando as margens do leito por onde rolam acariciasse o meu nariz, mas como não sou, continuarei remando mundo d'água adentro até os braços se cansarem e eu os cruze sobre o meu peito.  No decorrer do dia a fome, que não abre mão do convênio que tem com morte, tentará me afogar, o que certamente conseguiria não fosse eu um malandro de cidade grande que tal qual um pistoleiro do velho oeste sacarei, cruzando as mãos pela cintura, um pedaço de pão do farnel com o qual abaterei à mordazes dentadas e lentas mastigadas a fome que tentaria me matar. Pena que também morrerão os peixinhos que de olhos cumpridos sucumbirão 
com a boca cheia d'água.
        Olhando, agora, pra cima me dou conta que a noite para tais divagações está bastante inspiradora. Uma nuvem no céu, só uma, não há para que se pudesse embrulhar aquela lua e um par de estrelas para a viagem.  Nada que no firmamento interrompa o risco branco dos cometas que cruzam sobre a minha cabeça de um lado para outro.  Isso é sinal, ou melhor, é uma grande mancha de que o dia será bonito para quem não tem o que fazer, mas prazeroso para os que labutam, mesmo em causa própria, como eu que remarei rio afora em busca de uma resposta que justifique a minha vontade de bisbilhotar o encontro do  rio com o céu, tendo o mar por vigiá-los.