quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O PREÇO DO VOTO.

      Eu jamais pensei acreditar que Jurema um dia pudesse se candidatar a uma vaga na política devido a introspecção que, diante de qualquer pessoa, a punha olhando os próprios pés. Desse tormento não tomei conhecimento que conseguira se livrar. Até andar sozinha ela evitava pra fugir do assédio dos rapazes e da possível inveja das garotas. Enfim o tempo passou mudando as coisas e as pessoas, e pelo visto, mudou muito aquela que mesmo não admitindo era a gata mais cobiçada pelos amantes do impossível cujo número era bem maior que o dos homens feitos para o casamento. E a certeza de sua candidatura encheu-me de curiosidade e alegria ao mesmo tempo.  A gente precisava ter no governo uma pessoa séria e determinada, como ela demonstrara nos tempos de faculdade.  E disso só fiquei sabendo quando Olga, amiga da minha filha mais nova, veio à nossa casa onde se comportou, não como uma pessoa de bem, mas como se fora criada por quem tentava fazer dela uma futura vagabunda. Eu, um cara maduro e com a vida bem resolvida, jamais teria vistas para qualquer mulher, principalmente uma menina que tinha idade pra ser minha filha. Olga, no entanto, provocava deixando os seios, miúdos como limão, à mostra ao se curvar, sem motivos, à minha frente. Foi preciso que eu lhe perguntasse o por quê, daquilo tudo. Se ela não tinha vergonha de se insinuar para um cara que podia ser seu pai, e se também não se acanhava de mostrar as calcinhas toda vez que se jogava na poltrona e cruzava as pernas diante de mim. Foi aí que ela, para meu espanto, disse que era filha de Jurema, minha colega dos tempos de faculdade que resolveu se candidatar à câmara dos deputados nas eleições passadas, por isso o seu empenho em provocar os eleitores para deles ter os votos que sua mãe necessitava, como disse ter seu pai aconselhado. Eu juro que ela me arrepiou com o que falou. Como um pai podia se tornar tão baixo a ponto de expor, como vinha expondo, a filha de quatorze anos a um mundo tão cruel e tão perverso? E a minha filha, qual o risco que corria ao lado de uma pessoa influenciada por um pai que me causava náuseas? Será que Jurema fazia parte dessa aberração ou o maluco com quem se casou seria o único malfeitor?
    -Não votamos na pessoa que certamente mudaria a política atual e enfeitaria com sua beleza esse lugar aonde dormem alguns lobos e certos vampiros.  Também não procuramos saber dela que viajara com a filha e o marido sem dizer para onde e por quanto tempo. Muito menos buscamos saber qual dos dois teria tido essa infeliz ideia e a que ponto chegaram para obter, felizmente sem sucesso, os votos que precisavam, mesmo dando em pagamento a filha que deveria ser para eles o bem mais precioso.  Quantos não teriam se aproveitado da fraqueza do casal para na garota criar um trauma de tamanha grandeza que nem todos os profissionais de psicologia juntos seriam capaz de resolver.