terça-feira, 23 de setembro de 2014

FÉ DE MAIS.

Minha vizinha, já madura, reclamava da solidão em que vivia por isso se
permitiu ser paquerada por Jairo, colega de igreja e que arrastava asa por qualquer mulher que
não demonstrasse  interesse pelo seu dinheiro.
 Aos 64 anos ainda era solteiro, mas muito simpático e bastante parcimonioso com as moças com as quais se envolvia. Por isso nenhuma queria nada com ele que nascera, pelo que demonstrava,  para viver às custas de mulher. 
Cansada de dormir sozinha e sofrer com a ausência de um homem em sua vida, tratou de reforçar a fé que tinha na religião e pediu o admirador em casamento.
A festa aconteceu três meses depois do pedido.
Jairo, o noivo, que só entrou com o, desculpem a má palavra, pinto, para protagonizar a festa, foi morar na casa da sonhadora. O desespero da fiel era tamanho que se casou às pressas querendo matar a sede que já a consumia, mas, coitada... A fonte há muito havia secado e dela esconderam tal verdade. O sujeito gordo e bonachão com quem se casara só tinha de rijo a referência que davam dele. Talvez por não lhe faltar dinheiro tudo era resolvido do jeito que queria, só enrijecer o que precisa de sustentação num momento como aquele, que não.  
Com a grana do cara e a fé de Jesus a noite de núpcias da velhota com certeza seria uma maravilha, a mais bonita e mais farta de todas, mas o que fartou de verdade não foi da parte dela, mas da parte dele que não se importou com quem, encolhida num canto do próprio quarto chorava o pênalti que chutara para fora enquanto ele se refastelava na cerveja zero álcool, gelada, que ganharam. A mulherada precisava saber das notícias e tão logo a porta se abriu um gordinho sorridente trazendo uma bíblia  embaixo do braço  passou acenando com a intenção de ir à igreja aonde agradeceria  a bênção que Deus lhe dera. Já a mulher, pobre senhora, que há muito rezara por um momento cheio de intimidade e fantasia, fingia um sorriso às fofoqueiras que jogavam beijos com votos de felicidade na esperança de saber, com riqueza de detalhes, o  que teria rolado de prazeroso naquela  noite.