sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PEDACINHO DE PÃO...

     - Por que não olha por onde anda?
    Acredito que estas tenham sido as primeiras palavras que ela disse ou pensou dizer quando num movimento infeliz do qual só eu sou capaz, por pouco não a derrubei, como fiz com o que trazia nos braços junto ao peito. Eu estava atrasado para o voo que me levaria à cidade onde nasci, aprendi a ler e me formei,  por isso o esbarrão que jazeu ao chão seus cadernos e livros. É claro que como nos filmes eu me atirei de joelhos aos seus pés para catar o que antes nos braços ela trazia. Perdão, minha senhora. Não tive nenhum propósito nisso, disse-lhe olhando aqueles lindos olhos que não saiam de dentro dos meus. Eu estava corado, envergonhado e ela pasma me olhando sem permitir que seus olhos se perdessem de mim enquanto um sorriso suave como as águas de um lago, se abria tal qual uma flor no canto dos lábios carnudos e vermelhos; - Lépe? Perguntou me olhando mais atenta. - Você é o Serelepe ou eu enlouqueci com o tranco que acabei de receber? Sem saber onde enfiar a cara disse-lhe que de fato era assim que me chamavam. Respondi cheio de medo que descobrisse que eu não me lembrava dela.- Eu fui sua professora e até na casa onde morei e mais tarde só fazia as refeições você foi ter comigo.  Disse pegando das minhas mãos um caderno e dois livros que eu tinha derrubado. Juro que não me lembrava, mas quando falou que se chamava  Juliana eu tremi como se tivesse febre.  Como podia aquela pessoa que me ensinou a ler de carreirinha e que não tinha mais de 20 anos, falar do mesmo jeito e sustentar toda a beleza que tinha nos meus tempos de menino? Eu sou 13 anos mais novo e no entanto ela parece ter a metade da minha idade. Por que será que de nós dois somente eu envelheci? - Ah, professora Juliana, quantas saudades a senhora deixou na gente depois que foi embora. Principalmente em mim que tive na senhora o primeiro amor de minha vida.  Hoje eu sou um homem que caminha com as próprias pernas, mas de tudo o que eu sei, muito aprendi com a senhora, inclusive a diferenciar a mulher bonita, doce e generosa que a senhora é das outras mulheres. Talvez por isso, professora, a senhora me vê aos seus pés de onde jamais me levantei.  A senhora que foi tudo pra mim na infância não gostaria de ser minha convidada para um almoço, um jantar ou quem sabe, subir as pedras do Arpoador num fim de tarde para ver o pôr do sol? Quem sabe nesta cidade não tenha alguma coisa tão interessante quanto interessante é essa história que a gente tem para contar?