domingo, 10 de agosto de 2014

ENFIM, PAI.

          
           Quando fui servir o exército eu sofri com ginástica pesada durante os três primeiros meses  num espaço que chamavam, área de estágio, onde deixei meu suor, minhas lágrimas e meu sangue. Simuladores distribuídos por ali nos davam a certeza do que seriam um salto de paraquedas e suas consequências. A tudo eu tirei de letra, mesmo sofrendo, porque o salto, propriamente dito, era, sim, a minha maior preocupação.  Desde pequeno eu me via abandonando uma nave a milhares de pés de altura e caindo num espaço vazio que naquele momento era só meu.  Ser paraquedista sempre foi o meu desejo. A liberdade com a qual tanto sonhei, mas nem mesmo o primeiro salto ou o quinto, que permitiu a minha brevetação ou  o último feito há pouco tempo quando entendi porque cantam os pássaros, foi mais importante quanto a notícia que recebi da mulher que se dizia e era minha amiga.  -Eu vou ter um filho e você será o pai -disse-me ela - enchendo de uma água tão pura quanto as da nascente, os meus olhos. Aquela sim era uma conquista. Ser pai para mim era mais que um salto livre no espaço vazio, era somar o carinho e o cuidado que tive do meu pai e elevá-lo à última potência.  Por isso eu seria melhor do que ele desejava e pensava que eu pudesse ser  já que eu tinha estudado mais que ele, conversado mais que ele, com gente importante, lido bons livros e feito cursos para tal. Portanto, ninguém teria competência para criar uma criança sem medo de si, dos outros ou do futuro como eu criaria a minha.  Meu filho não seria o salvador do mundo, pois eu não queria para ele o impossível, mas seria um dos que lutariam para isso.  Enfim chegou o dia e ele veio. Chegou se contorcendo como se contorcem os lutadores de MMA para passar a guarda, trocar de posição.  Chorava sim, mas não como quem tem fome, mas como quem tem desejos. Desejo como o de  sentir-se livre para a vida, para as pessoas, para o mundo e para o que nele houver.  E eu gritei. 
-Eu sou pai! 
Tinha chegado na minha vida o que faltava;  meu filho, concluí chorando enquanto muitos riam, festejavam, e nós dois, eu e o meu primogênito, chorávamos a lágrima que eu sei ele chora agora, comigo, mesmo que distante em outra cidade, em outro estado, talvez com seu filho no colo a chorar com ele. 
Hoje é o dia dos pais, mas para mim é o dia do filho, pois foi o seu nascimento que me credenciou a comemorar, como os outros que tiveram a mesma dádiva comemoram, o dia dos pais.
Obrigado, meu filho. Obrigado, meu pai.