sexta-feira, 22 de agosto de 2014

AO PÉ DO TRONCO

Quando comecei a ganhar o meu dinheiro eu quis e fiz como meu pai. Recebia
o  pagamento e o levava às mãos da minha mãe que com gotas transparentes a brotar no azul dos olhos me fitava como se fora eu um anjo. Depois virava-me as costas e acariciando  cada cédula se deixava ir para guardá-las em lugar oculto e não sabido.  Mamãe sempre teve em mente o que fazer com o dinheiro e isso desenhava nos seus lábios um sorriso lindo, tão bonito que durava o dia inteiro, só não durava mais que o meu, que provia o dela.  Meu pai, mesmo sendo o meu maior incentivador, achava errado um jovem que mal saíra da faculdade, sem experiência da vida, sem mulher e sem filho para sustentar, que às 7h ia para o trabalho e voltava ao meio-dia para às 3 estudar inglês e mesmo assim, praticamente sem fazer o suficiente, receber um salário cinco vezes maior que o dele. Pobre do meu pai que acordava às 5h e às 8h 
"tampava no trampo".  
            Tarde da noite o velho, que não era tão velho assim, voltava a casa cansado e suado trazendo o pão do dia seguinte. Eu nunca soube como esse cara conseguia sustentar a casa e suas despesas com tão pouco dinheiro. Felizmente eu fiz o que achava que devia e isso ajudou a mudar a vida dos dois, quer dizer, de todos nós.  Fome ninguém passou, já que  o amor com que fomos criados nos sustentava e supria as necessidades. Só esse sentimento para dignificar, educar e fazer da gente o ser humano que nos tornamos.
  Desde que comecei a trabalhar eu dei a minha mãe o que recebia, e só aos 25 anos, depois de vários e vários conselhos me permitiu, sem que eu pedisse, ficar com a maior parte do meu salário. Aí eu fiz a festa. Esqueci dos conselhos e me comportei como um adolescente. Comprei roupa diferente das que ela me permitia usar. Comprei sapatos que matavam meu pai de vergonha, sandálias de todos os tipos e cores, e dois pares de chinelos para descansar meus pés e ir à praia quando me desse na telha. Só mais tarde me dei conta do que fazia, aí comprei uma casa bem aconchegante, simples, mas dava frente para o mar e em certas manhãs eu acordava com o canto das gaivotas.  Antes eu já tinha comprado um carro com o mesmo ronco barulhento que Roberto canta em sua música.  Aí, passei a me comportar como sonhavam os jovens da minha idade.  Dirigi durante um ano sem habilitação, mas cansado de tentar justificar o que não tinha jeito acabei me regularizando junto ao órgão competente. Tempos depois perdi o juízo e me casei com a primeira moça que tocou  meu coração.  Depois a gente deu um tempo e acabamos nos perdendo um do outro.
Graças aos ensinamentos da minha mãe e os exemplos do meu pai, eu me tornei o cara que a minha atual escudeira e fiel companheira diz não haver igual.  
E o pior é que todos acreditam, inclusive eu.