sábado, 19 de julho de 2014

ATÉ JÁ, MEU JOVEM.

Nada me espantava mais que a voz trovejada do João Ubaldo. Parecia que ela vinha por dentro de um cano, desses que a Petrobrás usa para vazar o gás da refinaria às cidades, aos bairros, aos fogões. Com o relampear do seu bom humor chegava o vozeirão que Deus lhe tinha dado. Algumas vezes nos encontramos na Dias Ferreira, no Leblon onde morava, e até no Arpuador já paramos para um café e dois dedos de conversa. Foi um prazer, baiano, ter meus textos lidos por ti.  Em momento algum tu tirastes de mim a esperança de ser alguém através das letras. Ouvir aquilo me encantava, mas aquelas porradinhas nas costas quando a gente se abraçava me deixavam puto, e tu sabias que eu ficava, né?, seu feladaputa, como tu mesmo dizias. Nunca a ti eu desmenti quando dizias que com os meus 18 anos eu seria o mais novo e mais famoso escritor daquelas bandas.   Eu tinha 25 anos, sabias? Hoje, talvez, eu te provasse que estavas enganado, pois sou o que a vida pode fazer de mim.  Feliz, sim, mas famoso, só para os meus filhos.
Eu não sei, João, se o tempo passou depressa ou se eu é que me arrasto para curtir cada minuto com os quais o destino me permite viver a vida que levo. Faz tanto tempo que eu não te via e agora recebo essa notícia triste. João, eu te garanto que jamais me aborrecerei com teus novos abraços e com aqueles tapinhas que hoje, com certeza, me fariam o cara mais feliz do mundo.
Descanses em paz, mas não tenhas pressa em recepcionar a minha chegada, porque como eu te falei, ainda tenho muita estrada para me arrastar por ela.