sexta-feira, 9 de maio de 2014

COMO ANTIGAMENTE


        Conheci Toninho na terceira série do ensino fundamental em uma  escola pública do Rio.  Éramos nós dois o expoente de uma classe. Toninho tirava as melhores notas e eu lutava para não ser o último da sala.  Certa vez,  Toninho, na época com 11 anos, como eu, foi cercado por  estudantes de quinta série que, acredito, para compor seus álbuns,  tentaram roubar as figurinhas que portava. Naquela ocasião meu pai ainda praticava boxe nos finais de semana, daí a gente ter um Ring no quintal de casa aonde aprendi as esquivas e a socar com precisão. Por isso socorri o colega confiando no que havia aprendido. Distribuí poucos golpes, mas o suficiente para fazê-los tocar a bunda com os calcanhares  de tanto que corriam. Aquele gesto selou a amizade da gente. Toninho passou a frequentar a minha casa e eu a dele. Na minha a gente simulava algumas lutas, soltava pipa e jogava bola, não de futebol, mas de gude, aquelas bolinhas de vidro, pois com as pernas ele só aprendeu andar. Na casa dele eu comia bolo e tomava leite sem açúcar ou sal que sua mãe generosa de quem guardo o maior respeito e admiração me oferecia todas as vezes, enquanto na minha, só café com pão e olhe lá. Dessa união surgiu em mim o amor pela escola e com isso minhas notas foram melhorando. Quem poderia imaginar que um dia disputaríamos  o primeiro lugar da sala? Ganhou quem apostou no improvável. Com isso a nossa  imagem, principalmente a minha, melhorou muito diante daquelas garotas. Crescemos juntos para nos formar em áreas diferentes. Namoramos e casamos,  cada qual com cada uma, é claro. Com o tempo  nasceu Marcelo, filho de Toninho, de quem sou padrinho. Anos depois o pai separou-se da mulher e viajou para o sul aonde conheceu uma garota e se casou com ela.  Marcelo cresceu e nos tornamos amigos. Com o pai aprendeu a arte da fotografia e no ramo fez seu pé de meia. Hoje o cara tem a ousadia de ganhar melhor salário que o pai e o padrinho juntos. Optou por ganhar dinheiro em detrimento dos estudos, já que no Brasil, como em outras poucas nações o emprego é mais valorizados que o diploma.
Dona Mariazinha, mãe do Toninho, já dizia: - Digas com quem andas que eu te direi quem és.  Eu, Dona Mariazinha, ando com seu filho e por isso, como diria a senhora, eu sou um brasileiro que mesmo desempregado se for um dia, terei comigo a sabedoria dos livros incentivada por seu filho que amo, respeito e me honro de ser amigo.