sábado, 1 de março de 2014

UMA DAS FACES DE ARLEQUIM...

Sobre a cama um par de sapatilhas prateada, luvas brancas, 
uma calça perolada de cetim e a bata larga de golas sobreposta, várias delas, umas cobrindo as outras. Alguns pinceis e tinta de muitas cores pintarão a cara do mais alegre dos tristes arlequins. 
Essa, com certeza, é a primeira vez que saio num bloco pela rua. São muitos, são vários os que se atrevem num calor sufocante que nem todas as cerveja, por mais geladas que fossem, dariam conta do sufoco gostoso que é brincar o carnaval no Rio. Outras vezes me aventurei nos baile do Bola Preta, do Flamengo, do Monte Líbano, Minas Tênis Clube e outros que já não me lembro. Eu chegava de cara limpa e aos poucos ia me enturmando com os que ali se divertiam. Bebia, fumava quando me ofereciam e saía com a primeira garota que se deixasse cativar para tomar um ar e nela sapecar alguns amassos e vários beijos dos quais só eu sabia dar. Também falava ao pé do seu ouvido as mesmas coisas que dizia as outras que fingiam ouvir. Ah, você diz isso para todas, dizia uma delas, e eu retrucava; você tem razão, mas à vera eu só falo pra você. Entre alguns beijos, um apertão aqui e outra passada de mão ali enquanto no salão rolava o baile.  Moças e rapazes. Senhoras e cavalheiros dando tudo de si como se em três ou quatro dias o mundo fosse se acabar e o pior é que acabava mesmo ou a quarta-feira não seria de cinzas com um bando de gente suada, cansada, arrependida do que fez ou de não ter se permitido fazer mais, largadas pelos arredores dos clubes.
Carnaval é fantasia. É máscara, é viver em menos de uma semana o que não se permiti viver no dia a dia durante a vida inteira. É fazer coisas para negar depois.  É dizer sim na hora do não e dizer não quando tudo já aconteceu. Mas se você se cala é porque a cabeça entrou em parafuso, a alma em frenesi e o corpo foi tomado por uma cadeia eletrizante de orgasmos miúdos que jamais pensou sentir,  enquanto um cara, sem cara, sem endereço e sem nome, desenha com um beijo um par de lábios em sua face mascarada e, 
sambando porta afora vai embora.