quarta-feira, 5 de março de 2014

O JOGO DA MORTE.

Faz tempo, conheci um cara que teve a sua
infância atrelada a minha vida.  Eu sabia cada passo que dava já que as suas pegadas eram feitas sobre as minhas.  O tempo passou me deixando ver a criança que foi, o rapaz que eu aprendi a admirar e o homem que se tornou.  Certa vez, ainda criança, eu vi brilhar nos seus olhos o milagre da alegria quando, pela primeira vez, entrou comigo em um cinema.  A pipoca e o guaraná para ele não faziam diferença senão a imensidão da sala aonde a voz forte e bonita do mocinho, e a trêmula e angustiada do bandido, ecoavam nas paredes, infiltravam na plateia, na pele, dentro na gente. Eu também sentia essa mesma emoção, mas parecia que ele vibrava mais. Muito mais.
Só à pipoca e ao guaraná, na minha primeira vez, não 
fizeram parte. 
"Eu brincava como qualquer menino, tinha vez. Mas era na escola, no trabalho da casa e quando fora dela tinha sempre alguém para vigiar. Era difícil administrar meu próprio crescimento que por ter sido amparado pelos pais e familiares, fizeram de mim um cara com jeito igual ou muito parecido ao dos meus educadores".   
-O tempo passou e o rapaz que no caminho deixava pegadas como as minhas se enamorou de uma garota.  Transaram e dessa transa nasceu uma criança. Uma menina que foi amada desde a concepção.  O tempo continuou atropelando as horas e os dias e assim os anos pintavam de branco os primeiros fios dos meus cabelos.  A menina, agora moça, viu quando a desgraça lhes caiu  sobre os ombros. Foi uma tempestade  fria, barulhenta, avassaladora. Era uma doença contagiante e poucos acreditavam se salvar. A droga fez escravo do seu pai, e as consequências eram terríveis. Sofriam a família, os pais, o irmão e os amigos a dor da perda, da morte. Morte da vergonha, da honra e da esperança.  O menino, agora homem,  reuniu as poucas forças que lhe sobravam, se é que as tinha, e gemeu um sussurro de socorro.  Talvez não tão baixo que não fosse ouvido por quem escuta com o coração.  
E ele foi tomado e levado nos braços por amigos que jamais deixaram de acreditar na sua recuperação para uma clínica longe da gente. Seis meses mais tarde voltou com nova cara.  O sorriso era mais bonito e transparente.  Estava limpo.  O menino que feliz corria atrás da bola, que ajudava o irmão mais velho nos afazeres da escola e das brincadeiras jogou a maior de todas as decisões; o jogo da sua vida. O jogo contra o vício.  Jogo que requer dribles curtos ou longos, exatos e objetivos, porém se faz necessário que o alerta fique ligado pois o adversário foi abatido, agoniza, mas não morreu. A cocaína que você conserva distante das vistas às custas da fé e da bravura já foi sua mazela, seu carrasco, seu bandido. Hoje, quando o vejo abraçar alguém que sofre com o mal que o corroeu, já sei que escuta em silêncio a quem não é ouvido e quando fala, não cobra, não critica, não humilha.

12 comentários:

  1. Bom dia

    Adorei ler o texto... acho super interessante..


    Beijos

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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    1. Que legal você ter
      gostado, Cidália.

      Um beijão, minha
      querida amiga.



      .

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  2. Sr. Palhaço Poeta,
    Na verdade cada um de nós
    busca vencer seu próprio gigante.
    Vencer não é fugir ou livrar-se definitivamente dele,
    mas sim sobreviver a ele a cada novo desafio.
    O gigante da minha vida sou eu mesma,
    vira e mexe quase recaio em erros antigos, porém
    antes da queda que resultará em fracasso, me reequilibro e
    dando a volta por cima, não recomeço do zero,
    sigo adiante. O personagem citado em seu texto é
    vencedor por excelência, não o conheço e tenho profundo
    respeito e admiração por ele, pela família e pelos amigos que
    ele tem a sorte de ter por perto. O importante não é Não cair, e sim
    cair, Saber levantar e Seguir adiante.
    Bjins
    Catiaho Alc.

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    1. Tem doença que não se
      nota com um simples
      olhar, mesmo que nos
      tome todo o tempo que
      pensamos ter.

      Obrigado pelo comentário.




      .

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  3. Bonsoir,
    Je suis très heureuse de vous retrouver après ma longue absence... Il n'est pas facile de retrouver ses marques... La végétation luxuriante, le soleil et la lumière de Île Maurice me manquent déjà !
    Gros bisous à vous

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    1. Je ne sais pas qui est Maurice,
      mais merci.
      Un baiser.


      .

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  4. Oi Silvio,
    Um belo texto, mostrando que um viciado pode sim
    ficar limpo, apesar do longo e difícil caminho que vai precisar percorrer.
    E vc lembrou sabiamente que o inimigo é abatido, agoniza, mas não morre.
    Infelizmente as drogas são sutilmente insinuantes. O jeito é ignorar a oferta...
    Acredito que só quem já sofreu desse mesmo mal vai compreender integralmente quem vive a mesma situação.
    Bjs!

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    1. Eu não vivenciei, mas chorei,
      várias vezes lágrimas de
      amigos que eu sei, chorariam
      se fossem minhas.
      Um beijo, amiga, Clau e obrigado
      por estar comigo nas horas
      que mais preciso.

      silvioafonso.


      .

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  5. Em criança li "Os filhos da Droga"... bastou para me afastar desses caminhos!

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    1. A Clau disse, acima, que
      as drogas são insinuantes.
      Ela tem razão. É difícil não
      pensar em experimentá-la
      quando se é jovem. Eu não
      experimentei, mas quem
      sabe não seja eu um covarde
      idiota?

      Beijos e obrigado por vir e
      comentar...


      .

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  6. Olá Silvio,
    Muito bom o seu texto, mostrando que um viciado pode sim se recuperar.
    Não é fácil. Terá que percorrer por um caminho dificil.
    Infelizmente as drogas são terríveis.
    Abraços

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    1. Aninha,
      As drogas dão prazer ao corpo
      e leveza à alma. Dão frio na barriga
      e calor nas veias. As drogas têm este
      poder e outros, quantos, mais?
      As drogas curam a doença, permitem a
      troca de carro uma ou mais vezes ao
      ano. Permitem viagens para dentro e
      fora do país, mas não outorgam esses
      direitos aos viciados que bancam a festa,
      mas ao seu coveiro traficante.

      silvioafonso



      .

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