quarta-feira, 26 de março de 2014

NADA OU TUDO A VER...

Há muito não sentia uma saudade assim, alguma coisa 
que o tocasse fundo como o prenúncio da despedida, 
uma viagem de ida sem volta.  
Seu carro, um modelo antigo, porém bem cuidado, estava na oficina, cujo responsável prometeu telefonar quando estivesse pronto e foi disso que se lembrou quando tocou o celular dando conta de uma chamada não concluída.  Graças ao DDD foi possível perceber, e perceber errado, que era a concessionária pretendendo entregar o carro, só que não.  Era a sua irmã dando notícias da família.  Em sete anos era a segunda vez que se falavam pelo telefone.  A primeira e única foi no aniversario dele, dias depois da festa do rapaz.  
"Mamãe não está bem", disse a irmã em tom de choro.  Tinha sofrido uma queda  e só os exames poderiam avaliar o tamanho do estrago, se é que houve algum. É claro que ao se desligar da conversa o cara tenha se debruçado numa dessas tristezas que assolavam aquela alma de criança, já crescida.  Felizmente, para ele, um amigo de infância, que garante ser o mais presente, ligou, sem saber do caso e com seu gesto acabou fazendo toda a diferença. A alegria que o amigo trazia em sua fala e no sorriso contagiava qualquer um, mas nesse momento a dose era única e exclusiva, o remédio que precisava. O bálsamo trouxe de volta à terra encantada do circo aquele que sentia no corpo o desejo da desistência e na alma uma vontade imensa de chorar e foi sorrindo, mesmo cansado dos entreveros, que fechou os olhos e dormiu um sono tão profundo que ao despertar sentiu-se, novamente uma criança.
(Foto com os Irmãos Kyoskys, que honrado, os tenho por amigos).