sábado, 15 de março de 2014

NA CURVA DO CAMINHO...



Era preciso calcular o tempo para que  numa casa  velha  
situada num lugar bonito no  alto da estrada se pudesse ver uma mulher que meiga e bonita, muitas vezes parecendo que deitar seus olhos para fora daquela janela onde, ao entardecer, o sol morria ao fundo, não era dos seus desejos o principal. 
Eu chegava do trabalho e às pressas trocava de roupa e saía para a  caminhada. As vezes, por ser muito cedo, caminhava devagar, mas se eu me atrasasse, meu Deus, como pude perder a hora?, então corria como doido estrada afora para não deixar de vê-la.  
Essa era minha rotina no final do dia. Andar a pé até ao anoitecer era pretexto para manter a forma e lavar meus olhos na sua formosura era a minha pretensão.
Enquanto aquela janela permanecer aberta, debruçada sobre o parapeito uma jovem mulher se deixará ver por quem se atrever por estas bandas, ora de lama, ora poeirenta. Um casebre arruinado pelo tempo, situado no ponto mais alto à beira do caminho de onde se poderia ver o campo e as flores, o gado pastando na margem do rio, e além, as árvores se fechando em copas como se não pretendessem esconder da moça, tanta beleza. Ninguém, no entanto, perderia seu tempo com as bobagem da natureza se atrás daquela janela uma linda donzela enxugava os olhos que marejavam cada vez que alguém passasse por ali.
O cheiro de terra molhada chegou-me através de um pé de vento. Cobriu de poeira a minha vista enquanto grossos pingos d'água em pouco tempo cobriam o caminho. Uma chuva inesperada, verdadeira tempestade fez-me correr àquela casa onde bati pedindo abrigo. O ranger da porta fez mais barulho que o vento gemendo cá fora. Do outro lado da porta, surpresa, uma linda mulher com cara de menina disfarçava o pranto.  Forçou no seu belo rosto  um sorriso, afastou da entrada sua cadeira de rodas e com toda a tristeza que sentia, fez uma reverência me deixando entrar.
Uma grande caixa aberta sobre uma mesa capenga continha revistas antigas e recortes amarelados de jornais dando a impressão de existir ali uma vida resguardada por quem quer que a tivesse vivido e parecia esconder das vistas de qualquer um. Uma caneta destampada  sobre um diário surrado deixava a ideia de que a fase ainda não tinha terminado. Alguns quadros desnivelados retratavam uma menina várias vezes premiada com medalhas e troféus no pódio a beira de piscinas em cidades diferentes. A cadeirante fechou na caixa o que havia sobre a mesa e a levou para longe da minha possível curiosidade, só não teve como evitar que eu lesse uma das muitas manchetes;
"Nadadora atropelada fica paraplégica, perde os pais no acidente, ganha cadeira de rodas e some depois da alta."
Desconfiada ela abre a janela e uma brisa fresca e suave nos diz que a chuva passou e é hora de eu ir embora. 
(Foto da Internet)