sábado, 1 de fevereiro de 2014

ESTRELA ASCENDENTE

   Tem vez que a dor ensurdece a gente e às vezes nem o grito de um amigo contunde, como o barco aderna, à fúria do vento, mas tem momento que tudo ou qualquer coisa nos instiga às ponderações e aos pulos de felicidade.  E por falar em felicidade, o que seria felicidade para uma pessoa que jamais deixou de rir de tudo, de todos e de qualquer coisa, sem jamais ter conhecido o que chamamos de tristeza? E como seria essa tristeza para uma pessoa que nasceu pobre, viveu sem se identificar com a palavra sorte e de sorrir não foi capaz? É preciso que se viva os dois lados da vida para saber o que é uma coisa e com que a outra se parece.  Eu tenho certeza que seria necessário se viver, intensamente, um grande amor para se conhecer a angústia da espera, o medo da perda, a tristeza de uma discórdia e a suprema felicidade ao ouvir um, eu te amo, da pessoa amada. Viver é fácil, mas viver sabendo a diferença entre uma coisa e outra é que é a  questão maior.  Eu nasci pobre, mas desenhei janelas na minha vida por onde pudesse ver o mar distante, as estrelas cadentes e as figuras que as nuvens faziam, brancas, no azul do céu. Vendi o que não queria mais e com o dinheiro comprei o que parecia ter a minha cara. Troquei o que me cansava por gibis, revistas e livros. Trabalhei durante o dia e só em altas madrugadas permiti que anoitecesse. Criei dias mais longos e noites menores para trabalhar e estudar sem comprometer o tempo que me dispensavam. Quando eu comia, comia pouco, sem beber e quando dormia acordava antes de me deitar e tudo isso para espichar o tempo de maneira paradoxal, pois eu queria em pouco tempo o que muitos levam anos.  Eu sonhava em ter sob o meu teto uma mesa farta, uma mulher sorrindo na outra cabeceira e crianças, muitas crianças ao redor  comendo o que quisessem, e na estante, nem um só livro de filosofia, de história ou de direito que eu não tivesse lido.    Admito não ter realizado um só que fosse dos meus sonhos, já que não dormi para sonhá-los, mas quanto aos meus desejos, um por um realizei, como podem provar aqueles que tentavam apagar meus rastros.  E, se consegui foi  com trabalho e estudo ao invés de cruzar os braços e maldizer a sorte.
Enquanto o sol nascer além das minhas cortinas haverá um moleque, muitos moleques com os pés sujos de poeira olhando as estrelas onde guardam os mais doces desejos.  Sob a cabeça de alguns um travesseiro de livros e no coração,  mesmo que ainda sangre, cicatriza  a dor da indiferença.