terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ATRÁS DA PORTA...



Foi muito difícil descolar um canto para dormir numa cidade 
que festejava o seu padroeiro.  Foi num Motel afastado do centro que eu consegui um lugar, aparentemente limpo e confortável, para o pernoite.  Eu estava muito cansado e não seria a conversa do casal que namorava no quarto ao lado que atrapalharia  o meu descanso.  Tomei uma ducha, comi um misto quente com refrigerante enquanto o “Altas Horas” rolava na tevê. Escovei os dentes e me deixei cair pesadamente na cama de lençóis mostarda. Achava que sonhava estar fazendo amor quando me dei conta do que de verdade acontecia.  Um homem falando baixo dizia coisas que eu não sabia enquanto a parceira choramingando pedia mais. Que diabo ele estaria dando a ela em tão pequenas proporções  que a levava aquele estado? Virei para o canto, como se cama redonda tivesse algum, afofei o travesseiro, cobri a cabeça e tentei dormir.  Tentei, porque o quadro continuou o mesmo.  Ela pedindo não sei o quê e o desgraçado por sua vez negando, o quê eu não fiquei sabendo.  Assim foi o resto da madrugada. Ele falando coisas que eu não sabia e ela chorando pedindo mais. Liguei a Tevê e tentei acompanhar o final do filme que passava.  No intervalo comercial eu me lembrei do casal que finalmente sossegara, pelo menos eu não ouvia nada que viesse daquelas bandas.  Fui ao banheiro, fiz xixi e voltei pra cama.  No silêncio da noite um ruído aguçou a minha curiosidade.  Era como se um pequeno cachorro bebesse água do outro lado da parede aonde o casal dormia.  O barulho foi crescendo enquanto risinhos nervosos enchiam o espaço que eu achava que era meu. Respirações aceleradas e um grito de mulher, que me causou um grande susto,  pareciam ser o ponto final do meu tormento. Tudo ia bem até que o cara resmungasse coisas que eu, naturalmente, não fiquei sabendo. Depois vieram os gemidos da garota e o ranger da cama que me torturavam. 
 O sol se debruçava na janela quanto tudo terminou. Levantei, tomei um banho e sem café viajei de volta ao Rio. Eu parecia um panda, tão grandes eram as olheiras. Na viagem eu me  lembrava, penalizado, da moça do quarto ao lado que sofreu sem que ninguém, nem mesmo eu,  saísse em seu socorro.   
Eu estava muito cansado para pensar qualquer coisa que não fosse descansar.