quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

E A FESTA CONTINUA...

Todo ano sou eu quem corre atrás do chester, do peru e das bebidas.
A família se incumbe dos adereços enquanto os amigos se encarregam da alegria, das promessas de um ano melhor e das lágrimas que choramos enquanto se promete o que jamais vamos cumprir, como os famigerados quilinhos a mais que faz tempo prometi perder e nada fiz para isso sem esquecer do  futebol das manhãs de sábado que jurei parar de jogar e não parei. Os abraços que nestas horas são fortes e verdadeiros, os beijos enfarofados que grudam nas minhas faces fazem parte do contexto, mas de tudo exalto a alegria que os amigos proporcionam em acontecimentos como esse e as despesas que a festa exige.
Esse ano eu fui com a minha família festejar o nascimento do menino Deus na casa do meu cunhado. Tenho certeza que tanto faz, para ele, ter na sua casa um sujeito nas minhas condições, até porque sou eu quem pega a irmã dele e chama a sua mãe de sogra.  E ele tem, mesmo, que ficar calado porque chiar não vai levá-lo a lugar nenhum. Quanto a passagem do ano, iremos à Copacabana tomar banho de mar e ver os fogos espocarem além da praia. Lá eu envolverei nos braços sinceros e sem pecado a minha mulher e a filha que o meu coração gerou. Talvez nada prometeremos um aos outros, mas teremos no peito, dentro do nosso coração as melhores intenções e a certeza de fazer tudo para estarmos juntos dividindo as tristezas se a nossa alegria se descuidar, e o futuro que tudo faremos para que seja próspero.
Feliz ano novo a todos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

SINAL DE VIDA...

Acabei de fazer um e-mail para um amigo onde eu confessava não acreditar no que
 os meus olhos não possam ver, mas no entanto acreditava no amor das pessoas pelos animais, pelas plantas, pelo fruto do seu trabalho e no amor entre elas. Depois disso seria paradoxal dizer que acredito em Deus, mas aí eu abri uma exceção e acabei admitindo que amava o aniversariante do dia.  No e-mail que mandei, eu, entre outras declarações, disse da certeza de Maria estar sentindo as primeiras contrações que para a mulher, além da certeza de quando isso vai acontecer, é o sinal da cria pedindo passagem. Hoje, 24 não haverá surpresa alguma porque 25 é muito melhor para as comemorações, mesmo sendo final de mês. Por isso não creio que aconteça alguma coisa ou nasça alguém antes ou depois desse dia.  E a minha certeza, quanto a isso, é tamanha que já convidei alguns amigos para juntos comemorarmos a chegada daquele que já nasce com a missão de trabalhar em troca de nada. Não terá ela o direito de ir ao cinema, a ver o Mengão jogar no maraca e muito menos ver o desfile das escolas de samba na Sapucaí. Essa criança precisa crescer e ficar forte para, o mais rápido possível, subir o morro e daqui, de perto da casa, vislumbrar o tamanho da bagunça que existe lá embaixo para ele organizar. Só um cara como esse terá chance de descascar os abacaxis que existem mundo afora, mas que não comece pelo Brasil ou desistirá antes de amolar a faca ou completar maior idade. Sejas forte, criança e conte conosco para quebrar essa pedreira ou morrerás antes dos 34 anos porque disso, nem Deus, escaparia. Também estou torcendo por ti, Maria. Feliz ano novo, parabéns e 
boa hora.

domingo, 21 de dezembro de 2014

SIM SENHOR, SARGENTO!

Há 15 ou 16 anos conheci um jovem que, mesmo  ninguém acreditando, 
conseguiu ingressar no quadro da Polícia Militar do seu Estado. Com o poder que a PM dava aos soldados e a arma que carrega na cintura, esse rapaz fez poucas e boas e tudo em nome da lei.  Da lei dele, como costumava dizer, não sei se diz, ainda. Deu carteirada quando tinha a certeza de não ser contestado e usava a força bruta quando o interlocutor era mais fraco. Falava alto quando estava junto a uma orelha e resmungava se ninguém pudesse ouvi-lo.  Hoje, tantos anos depois, eu o encontro corado, mais forte e mais educado. Até para extorquir ele pedia desculpas e não deixava de agradecer antes de ir embora. Sua farda mantém o mesmo padrão de limpeza que tinha antes, mas a pele e o cabelo se renderam à força do tempo. Seu carro, que antes não passava de um fusquinha mil e duzentos tem hoje no motor mais cavalos que o haras do governador. Até a mulher dele que fazia tempo eu não a via ficou mais jovem e mais bonita, talvez por residir com a família numa casa diferente da que moravam quando eu os conheci. Ficava ela numa viela da periferia onde pagavam  um aluguel do qual viviam reclamando.  Hoje moram  num casarão de frente para a praia que dá vista para um horizonte reluzente nas manhãs ensolaradas e que resplandece quando a lua vem contar suas estrelas. Este pormenor é de causar inveja aos amigos e aos deputados e marechais, inclusive a mim que recebo um salário que mal dá para andar com meu carro pelas rodovias aonde atua o militar. 
Na cintura do servidor público, que já não é tanquinho ou definida como antigamente, uma rajada de balas é presa por um cinturão fortemente afivelado junto ao corpo que também prende uma reluzente 7mm., enquanto nos seus ombros vislumbro divisas que impõem respeito aos de menor patente.  Isso, mesmo. Eu disse divisas. O que de bom ou razoável teria feito esse sujeito dentro da corporação que alavancasse a sua trajetória dentro da carreira? De soldado raso ele foi a cabo, a terceiro sargento, a segundo e agora a primeiro sargento da PM do Estado. 
Parabéns, camarada soldado, ou seria soldado camarada? Sim, soldado porque a patente não tira do militar a forma de ser chamado pelos superiores e por nós, reles camaradas pagadores de impostos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DEFEITO, EU? QUALÉ!

A gente fala dos outros sem a mínima preocupação do que possam pensar da gente.  
Geralmente rejeitamos a distorção alheia por sua grandeza em detrimentos das qualidades que nem sempre dá para serem vistas ou não fazemos a mínima questão de enxergá-las. A psicologia diz que atacamos os defeitos dos outros na tentativa de corrigir os nossos. Quanto as qualidades que normalmente são poucas, pelo menos achamos isso dos outros, com estas pouco lidamos. Eu noto o grau descompensador de uma amizade entre duas pessoas.  Aquele que sente forte admiração por um amigo costuma dizer que o outro é o maior amigo que já teve, quando na verdade ele próprio é que é o grande amigo do outro, pois se um tiver que morrer por essa amizade não será a mulher do outro que ficará viúva, mas a sua.
Eu acho que estou vivendo esse dilema ou algo muito parecido com isso em minha vida.  Tenho amigos que acho serem os meus melhores amigos, quando na verdade sou eu quem morre se alguém tiver de dar a alma para ressuscitar o outro. Eu sei que minha mulher faz tudo por mim, até falar mal ela fala, mas de mim e não de outros comigo.  Minha mãe me considera o melhor dos 5 filhos, mas depois dos quatro, tenho certeza. Eu, no entanto, tenho por minha mulher o desejo que todos os homens têm por qualquer uma outra ou por todas juntas e no entanto se consideram fora do normal por amar a tantas e achar que elas só o têm por amante. Minha mãe tem de mim um quinto do amor dos filhos, mas o que eu dou a ela tem o mesmo valor que os outros quatro juntos. Meus amigos juram que sou seu melhor amigo, mas escolhem outro na decisão final. É como o júri do Faustão na dança dos famosos. Elogia um concorrente como se fora ele o rei do baile e depois o penaliza com uma nota tão baixa que deixa o cara com cara de chuchu.  
Feliz Natal para os meus parentes, minha família e os meus grandes amigos, e também para mim que sou um bobo, não um bobo assim tão grande como me fazem acreditar, mas um bobo sem tamanho, mesmo tendo o tamanho que tenho.

sábado, 13 de dezembro de 2014

MOTO x MOTORISTA POSSUÍDO.

Na sala de espera do meu dentista eu dei com uma paciente que, toda engessada, 
não toda do jeito que eu estou falando, mas tinha o braço esquerdo e a clavícula do mesmo lado envoltos em gesso, assim como vários curativos no tórax e a falta de alguns dentes da frente. Eu vi, mas fiz questão de não ser notado que olhava. Fiquei, como diz um amigo meu de Vila Velha, olhando o zip zap no meu smartphone. Não demorou muito e a moça, trocando de cadeira, veio sentar-se ao meu lado para saber se a Kelly havia terminado a faculdade e disse isso me chamando pelo nome. Antes de falar qualquer outra coisa perguntou pelas pessoas da minha relação e também quis saber do andamento dos meus livros. Depois contou-me que estava em sua moto quando inesperadamente um carro invadiu a pista em que trafegava para sacudi-la longe e depois de bater com o rosto no chão, perder alguns dentes e quase morrer asfixiada pela tira que prende o capacete sob o queixo, finalmente alguém apareceu para tirá-la do sufoco. Esse alguém era o motorista atropelador que não tendo como deixar o local sem que fosse interpelado pela multidão que cercou o carro, se viu obrigado a socorrê-la. Não fosse alguém correr para tirá-la daquele sufoco e ela não estaria ali, ao meu lado, para contar aquela história.  
A todo momento eu interrompia a sua fala para ganhar tempo e ver se me lembrava de quem era ela.  Quem seria essa moça que falava comigo como se me conhecesse há tempos? E eu, como poderia esquecer de uma pessoa que demonstrava ter tanta intimidade comigo? Será que esse é o sinal dado pelo Alzheimer quando  a gente chega próximo aos 50 anos, um pouquinho para mais ou um pouquinho para menos? E só de lembrar que a imagem da criatura bailando na minha memória sem que eu conseguisse me lembrasse de onde a conhecia, me dava uma raiva que não cabia em mim.
Contei isso para a moça dos olhos, cuja cor sempre deu vida ao arco íris, e ela, rolando de rir, mas afastando-se de perto de mim, talvez com medo desse que vos fala, me contou sem forçar sua memória, quem era a pessoa em questão e de onde a gente se conhecia.
-Lili, desculpa. Depois de meses e meses sob os seus cuidados numa clínica de fisioterapia esse cara que jurou não saber como agradecer pelos seus serviços não podia ser mais ridículo do que me tornei ao esquecer o seu nome e do bem que você me fez no momento em que eu mais precisava de ajuda.
-Agora, de volta a realidade dos fatos, eu peço a Deus que ajude você na convalescência e na solução dos problemas que o desatento motorista causou a você e a sua família.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

JESUS NASCEU. CREIA NISSO!



A minha cidade se enche de orgulho ao nos devolver as praças com seus coretos e 
jardins enfeitados com pisca-piscas coloridos que pintam de luz, depois das casas ao redor e das árvores centenárias, o presépio do menino Deus. Os sinos batem a qualquer hora do dia ou da noite nos permitindo descansar, tão somente, nas frias madrugadas até que o foguetório na matriz nos ponha novamente de pé. De qualquer forma eu estou feliz, mesmo não tendo sido convidado para uma festa aonde todos estarão, menos o aniversariante e eu. O aniversariante porque, mesmo emprestando sua data à festa, para ela não será lembrado, e eu porque aguardo a secretaria de saúde de Nova Friburgo cumprir com a obrigação de me permitir levar o meu pai à cirurgia que já deveria ter sido feita em 28 de agosto próximo passado, mas não foi porque faltava a presença de um otorrino e um aparelho que intubasse o pobre diabo que anestesiado jazia sobre a maca fria de um hospital municipal no interior do Estado do Rio. E como eu disse, é natal ou quase natal. Se Jesus não nasceu ainda, certamente a senhora sua mãe já sente as dores do parto enquanto a gente, aqui na terra, reza para que ela tenha uma boa hora, e a minha família o meu pai de volta são e salvo do mal que o aflige.

sábado, 6 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL!



O verão ainda não chegou, mas o sol que decidiu tirar 
férias e por conta própria passá-la aqui no alto da serra, como este ano está fazendo, me obrigou a comprar um aparelho de ar condicionado de 12 mil btus., para enfrentá-lo. Ontem, por exemplo, o céu escureceu nos dando a impressão de que Santa Bárbara iria se vingar da gente novamente, como em 2011, quando puniu aqueles que mereciam ser punidos e os que nada fizeram para merecer tamanho sofrimento. Felizmente tudo continuou esquentando, sim, mas nada que nos desse a certeza de que os morros desceriam ou que subiria o nível dos rios. Há dias, como já falei aqui, eu e o meu pessoal fomos a Minas Gerais onde vivemos, por poucos dias, eu sei, mas o suficiente para nos fazer lembrar a nossa infância.  Em três dias vivemos tudo o que vive e faz a criançada no curto período da adolescência. E se não fizemos tudo, pelo menos deixamos essa impressão em quem viveu conosco aqueles momentos mágicos, de luz e fantasia.
Agora, nessa tarde de sexta-feira, chove lá fora. Talvez lá fora e aqui dentro do meu peito, porque alguma coisa me diz que a tristeza do natal que este ano demorou a chegar, já bate à nossa porta. Digo isso porque o natal é uma data festejada com bebidas e risos, mas no fundo, a gente só bebe e ri para maquiar a tristeza que nos toma por inteiro. Eu acho que esse ano poucos virão me abraçar, me beijar e comer o meu piru, que dessa vez estará enorme, mesmo sabendo que bebida e o dito cujo eu tenho para todo mundo.
Feliz natal para os que passarão comigo e para os que me levaram à ventura do riso farto e do choro contido, como aconteceu recentemente e que, por motivos que não me dizem respeito, estarão distantes e longe da gente, como diz a minha avó, que também não se fará presente. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SERÁ?

No começo dos tempos quando o glúten não incidia artificialmente sobre o trigo se 
comia menos pão em relação ao que se come hoje. Por que seria? Por que se bebia vinho se para um gostoso refresco bastavam 30% da uva consumida? Estas perguntas têm respostas que não convencem, mas explicam. Teriam elas o mesmo peso que os livros sagrados quando dizem que fulano ou ciclano falou isso ou aquilo apontando as escrituras como se elas fossem o gravador que registrou e arquivou tais palavras num cartão de memória que resistiu ao avassalador desgaste dos séculos?  O pão já não tem o mesmo gosto  e o vinho o doce do fruto, o suave frescor dos ventos e também não nos deixa sóbrio como eu acho que ficavam na época de Cristo aqueles que o degustavam. Uma pergunta aqui, às escondidas é necessário que se faça; se o vinho não dava barato, por que era bebido? Tantas perguntas eu teria para fazer, mas resolvi parar por aqui, não antes de saber, é claro, o que o pajé põe no cachimbo que tira a dor de dente de quem sofre,  faz sangrar a menstruação de quem se achava prenha e permite o saci de dar rasteira? Que barato é esse, gente? Será que depois dessa viagem a coisa não toma o seu próprio rumo?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

NUM SÁBADO A TARDE.

A imagem de um garoto de 55 anos caído na grama depois de errar um dos 
muitos chutes que fez ao gol jamais sairá de minha mente. Ele não errou o chute ou errou a bola e muito menos errou o gol por excesso de confiança, de zelo ou por medo da jogada não sair perfeita. Ele errou porque não era um jogador que veio para ganhar um determinado jogo, mas um garoto travesso que rolava e nos fazia rolar de rir com suas peraltices. Éramos, para ser mais preciso, seis irriquietas crianças, naquele momento.  Seis moleques correndo atrás de uma bola. Nada de homem, mulher, menina, velho ou adulto. Éramos como crianças em dia de Cosme e Damião a procurar por doce, e a responsável por tudo isso foi Rebecca, adorável criatura que nos convidou para completar seu time, depois veio o Eduardo como reforço de ultima hora. Agindo dessa maneira muita coisa poderia ter mudado, mas que nada. Até os mais recomendados pareciam principiantes e os que nunca jogaram até  nos ensinavam a lidar com  a bola.
A graça da festa era a felicidade que ela nos provocava e nada de melhor poderíamos acreditar que existisse no mundo naquele instante.  Mesmo sofrendo com os meus erros, com os erros dos outros e com a dor que me tirou de campo, aquele, para mim, foi o melhor que poderia ter acontecido, não só a mim, mas também aos que tomaram a minha contusão como um momento de graça e fingimento. Só eu sei o quanto me doeu e dói ainda essa dor bendita que só não é maior que a felicidade que ela provocou. Picasso ou Miguelângelo, diria o velho palhaço poeta, não se atreveria pintar um quadro com tamanha beleza como os que nós seis pintamos naquele sábado. Muito gelo na contusão, nos pés descalços e nas cervejas que bebemos depois do jogo. Mas como nada é eterno, a noite chegou e trancou atrás de nós o portão do campo. Aí fomos embora pra casa, mas não sem levar conosco na lembrança aquele belíssimo 22 de novembro, uma bela tarde de sábado quando aqueles caras que conosco dividiram o riso e as cervejas nos acharam iguais a eles como nós gostaríamos que todos se achassem. Hoje, certamente, estão perdidos no tempo e na distância e talvez nem mais se lembrem do quanto nos fizeram felizes naquele dia, como eu me sinto ainda.

domingo, 23 de novembro de 2014

NEM EU SEI PORQUE.

       Quando resolvi parar de publicar o que venho escrevendo, o que hoje se tornou livro, que trata de um padre que substituiu o antigo sacerdote na igreja de um povoado onde os costumes e o jeito das moças e consequentemente dos rapazes foram postos à prova, foi que percebi que meus leitores não se importavam com a direção que eu dava ao barco, até pelo contrário,  demonstravam prazer na viagem que eu os levava a fazer qualquer que fosse a direção tomada, desde que estivessem comigo como há muito tempo estamos. Essa atitude deveria enaltecer a minha vaidade, mas no entanto me entristeceu. Não fiquei triste como quem espera a morte no portão de casa, mas triste o suficiente para que a beleza das estrelas não fosse percebida, o perfume das flores não fosse sentido e a beleza das ondas quebrando no rochedo não tivesse vista. Esse tiro, acreditem, aguça os meus sentidos, não pela direção tomada pela bala, mas pelo susto que  o estampido a mim me causa. 
Tem momento e disso eu tenho certeza, que ando de braço com a contradição, mas nem por isso eu sigo os caminhos que me induz.  Sendo assim, pensam que o paradoxo me toma por refém, mas sou eu quem se faz de morto para tirar dele o poder que tem. Nem por isso deixo de sentir o cheiro da indiferença que rola em relação ao que eu disse, mas ao mesmo tempo a minha experiência me dá a entender que são felizes os que optam por caminhar comigo. Talvez por desconhecerem o que venha a ser felicidade total e absoluta ou por medo de perder a que julgam ter.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AONDE A GENTE VAI?



Quando a gente chegou de viagem eu fiz mal em permitir que as malas fossem desfeitas,
até porque, poucos dias depois voltaríamos a por os pneus na estrada. Enfim, como nada foi feito, as roupas voltaram para os seus lugares no armário.  De qualquer forma isto é muito prazeroso, mesmo sabendo que se trabalha mais do que pode, ganha o mínimo para não morrer de fome e  acha que só se descansa quando acha que vai para o céu. Por isso eu faço e desfaço as malas sem reclamar da trabalheira que dá; calçados num lugar, roupas no outro, toalhas de banho e rosto para cá, e as peças íntimas à parte enquanto a gente, boba que é, se diverte no interior do carro que aos trancos e barrancos resmunga estrada afora. Tanque cheio de um combustível que antes, quando o país não o produzia suficientemente para o consumo interno, era, podíamos dizer, barato, mas agora que temos o bastante para exportar, nos custa os olhos da  cara.  Felizmente só os da cara ou nem carro eu teria para não me vexar. Parece até que os políticos estão gastando mais do que o necessário, por isso tem estado tão caro.
E lá vai a gente cantando como a cigarra, que nem sabe o preço do canto, brincando como filhote 
de cachorro que não entende as manias do dono, porém feliz como pinto no lixo que se diverte sem saber que dele ninguém terá pena quando matar a 
fome de quem o matará.
Tudo arrumado, motor ligado, eu e os pneus calibrados e lá vamos nós antes que apertem
ainda mais os nós do país e os da gente.

sábado, 15 de novembro de 2014

TERRA MOLHADA.



          
     Amanhã bem cedinho eu pego o meu barco, minhas flechas 
e meu bodoque e vou para o grande rio. Remarei em direção ao sol quer ele se levante ou fique lá, estirado sobre o horizonte me olhando. Caso um caboclo eu fosse e com certeza faria um cigarro de palha enquanto o cheiro das águas molhando as margens do leito por onde rolam acariciasse o meu nariz, mas como não sou, continuarei remando mundo d'água adentro até os braços se cansarem e eu os cruze sobre o meu peito.  No decorrer do dia a fome, que não abre mão do convênio que tem com morte, tentará me afogar, o que certamente conseguiria não fosse eu um malandro de cidade grande que tal qual um pistoleiro do velho oeste sacarei, cruzando as mãos pela cintura, um pedaço de pão do farnel com o qual abaterei à mordazes dentadas e lentas mastigadas a fome que tentaria me matar. Pena que também morrerão os peixinhos que de olhos cumpridos sucumbirão 
com a boca cheia d'água.
        Olhando, agora, pra cima me dou conta que a noite para tais divagações está bastante inspiradora. Uma nuvem no céu, só uma, não há para que se pudesse embrulhar aquela lua e um par de estrelas para a viagem.  Nada que no firmamento interrompa o risco branco dos cometas que cruzam sobre a minha cabeça de um lado para outro.  Isso é sinal, ou melhor, é uma grande mancha de que o dia será bonito para quem não tem o que fazer, mas prazeroso para os que labutam, mesmo em causa própria, como eu que remarei rio afora em busca de uma resposta que justifique a minha vontade de bisbilhotar o encontro do  rio com o céu, tendo o mar por vigiá-los.