segunda-feira, 29 de abril de 2013

LEITO UM, ENFERMARIA SEIS.


Mesmo que fraqueje a minha voz  resmungará ao pé do teu ouvido que te quero. Caso  a minha alma ameace  desistir do meu debilitado corpo, ela continuará querendo o calor do teu e se o meu enfraquecido coração desistir de mim  ficando pelo caminho, mesmo assim eu quero, no amaranhado dos teus braços fazer meu ninho aonde escreverei o resto da minha história.  Durante um longo tempo em  minha vida, confesso vaidoso, eu vivi a felicidade que qualquer um por bênção divina gostaria de ter vivido, aliás,  eu fui feliz, talvez o mais feliz entre todos os seres, praticamente a vida inteira, mas hoje,
  sozinha, deitada neste leito me vejo fazendo conta dos momentos
 maravilhosos pelos quais passei e dos que não me foram tão auspiciosos, mas fizeram dessa mulher a pessoa forte que ainda me vejo, já que outras passaram por aqui e não 
tiveram a sorte pela
qual  luto. Luto como os desenganados  melhoraram e se curaram
 atrelados à  sua fé.   
Aqui, na  enfermaria seis, leito um da ala feminina aonde muitas pereceram agarradas a própria esperança, se encontra
alguém que acredita que é possível vencer a morte, mas se tal milagre não permitir a ela tal façanha, haverá de, num último suspiro, conseguir forças suficientes para prorrogar a vida adiando a morte e voltar à sobrevida para fazer o que a vergonha, o medo de errar ou
 a religião a ela tenha proibido, como
te amar com a força que tiver o seu coração, amar de qualquer jeito e a qualquer custo, amar a vida e aqueles que não se permitem ficar longe de sua cama por acreditarem nela e renegarem com todas as forças a existência do fim. 

sábado, 27 de abril de 2013

MAIS UM DIA DE MARIA.

"Eu soube que o meu texto emocionou você, Rachel Rocha. Por isso eu o trago dos meus arquivos para postá-lo novamente, e se o faço é por gratidão a você que tanto estimo e respeito. Obrigado, amiga".
      Estava pronto pra sair para o seu trabalho quando a mãe telefonou pedindo urgente que ele fosse ter com ela. Pelo embargo da voz o filho presumiu a gravidade do problema.
Deixou de lado a obrigação que tinha com a empresa que o contratara e seguiu em direção à oitava casa daquela rua de onde viera o pedido de socorro.  Felizmente ou infelizmente chegou a tempo de tomar no  colo o corpo ainda quente do pai que falecera.
- Ele me deu um beijo no rosto, como fazia todas as noites quando ia se deitar, virou  para o canto da cama e com o sorriso com o qual me conquistou dormiu o último e derradeiro dos seus sonos, disse-me a viúva enxugando os sofridos e chorosos olhos que de tão azuis faziam doer os meus. 
O filho abraçou o velho em sua cama e o tomou no colo como era feito com ele nos tempos de  criança para abrir o peito e gritar até perder a voz;  - pai, acorda! Acorda meu pai, fala comigo! E desabou na convulsão do pranto.
- Depois de alguns anos do acontecido o mesmo  jovem que seca no rosto uma lágrima atrevida, deita ao chão o olhar e jura que dos detalhes já não se lembra, mas a mesma memória que congelou na sua retina as melhores imagens do pai também congelou o seu coração que jamais perdoou a morte, por tê-lo matado. O seu pai era, como são todos os outros, um herói. Não um herói de capa, escudo e espada, mas um herói de caráter e vergonha, de honra e companheirismo. Ele era jovem quando conheceu a moça alta e loira, de olhos claros e muito bonita, quer nos dotes físicos e nos seus   princípios, e que vinha de um  casamento mal resolvido do qual trouxera três meninas e um garoto espevitado. O pai, agora morto,  encantara, como fora encantado pelo olhar  meigo da mulher nos quais vejo bondade em forma de pessoa e por conta disso escrevo a história que  conto agora.  Casou-se com ela  em poucos meses, para torná-la e também ser feliz anos a fio, mas precisou lutar com muitos leões em sua arena e vencê-los todos.  Como pedreiro construiu casas e prédios, pontes e calçadas para sustentar a mulher e os filhos que considerava seus. Deixou de comprar os bilhetes de cinema, do maracanã e do teatro que só os conheceu com a presença dela. Usou os domingos para trabalhar como biscateiro, mas à faculdade a todos os filhos ele levou. Formou doutor e professores. Formou homem e mulheres. Hoje, no aniversário da moça que foi um dia, ela conta a forma carinhosa como Deus levou o seu companheiro para o lado dele. Levou um exemplo que ele, Deus, nos deu como filho. O verdadeiro filho do Homem.
Parabéns Maria, pelo seu aniversário e pelo amor único que tu deste ao homem que de tão digno, de filho me chamava.
[A você, mulher dos olhos de todas as cores onde o verde predomina e que ao meu lado ouviu, entre lágrimas, o conto que eu conto, o meu beijo de companheirismo e de amor].

quarta-feira, 24 de abril de 2013

FISGADO NA REDE.


Ela com os seus 42 anos cheia de saúde, amigos, 
passeios, festas e muita alegria, via-se predisposta a conhecer naquela ocasião o amigo do face book que, galante, em tempo algum deixava de elogiar as qualidades que transparecia na escrita limpa e bem feita que a bela  mulher postava, assim como não deixava de observar e comentar sobre a sua maquiagem, suas roupas e calçados. Depois de muito marcar e desmarcar eis que o primeiro encontro aconteceu e para surpresa de qualquer um, os desejos que um homem pudesse acender em uma mulher, nela, todos, de uma só vez aconteceram, enquanto ele, por inocência ou medo, disso não se aproveitou.  Falaram sobre blogs, twitter e face, mas não falaram da razão que induziu a mulher àquele encontro.  Na ocasião conversaram sobre tudo e qualquer coisa, mas de si nada falaram, talvez por ela achar que o maior de todos os desejos, aquele  que mais a afligia, não fosse forte o bastante  para dissuadi-lo de ir embora antes que rolasse entre eles o que ela pretendia. Melancólica e sem graça se deixou beijar na face por quem parecia não saber o motivo de estar ali e por isso logo foi embora. No caminho não pensava em outra coisa que não fosse à conversa tida entre eles quando uma dúvida eriçou dentro de suas roupas o mesmo desejo que o prostrava quando se resolvia sozinho na solidão do quarto. O demônio do bem ou anjo do mal confundiu seus pensamentos e ao bar de onde os beijos respeitosos ele deu, se deixou voltar. Ali, até certa hora daquela noite ele ficou entre um salgado e uma coca-cola até que ela, regressa do banheiro onde chorou, fez hora para ir 
embora e a maquiagem retocou, se abriu num 
belo e vasto sorriso de forma que o resto daquela noite, da semana e do ano não seriam  suficientes para apagar a chama que avermelhou os momentos da bela moça e de encarnado coloriu a vida 
do rapaz, para, juntos,  escreverem e publicarem o 
belo post que o momento concordou.        (foto da Internet).

segunda-feira, 22 de abril de 2013

EU SERIA UM MENTIROSO SE

DISSESSE QUE JÁ MENTI!

     
Eu gostaria muito que a humildade não tirasse de mim o  desejo de poder dizer, mesmo não querendo, que voei por diversas vezes e por muitos anos no bandeirante, avião do  exército brasileiro, a quinze mil pés de altitude de onde saltei para uma queda livre de sessenta segundos aproximadamente, e comandar  meu laser a 3 mil pés, do solo. Gostaria de dizer, mas não digo, que fiz caça submarina na Urca, no Rio de Janeiro, cidade onde morava e deixei veteranos babando nas nadadeiras, de inveja. Que lutei boxe na infância e na juventude. Que sou
 karateca, faixa preta nas artes marciais desde antigamente. Que desisti dos tiros ao alvo por achar que era melhor que qualquer um e que me formei aos 19 anos e nem por isso fiquei melhor do que ninguém.  É claro que essas coisas eu deixo guardadas dentro de mim e não digo para ninguém. Dizer, por exemplo, que estudei inglês por cinco anos e nunca me dediquei à língua por achá-la chata.  Dizer que fiz desenho no Liceu de Artes e Ofícios no Rio, mas não gosto de desenhar.  Não insistam, por favor, porque não direi que estudei religião para conquistar uma evangélica e com ela me casar para me divorciar poucos meses depois.  Que me vesti de branco com o meu nome bordado em ouro no bolso da camisa fingindo que era médico. Isso, então eu não diria à ninguém,  e por cima obrigava um amigo que trabalhava no Hospital da cidade a me levar de ambulância até onde ela habitualmente podia ser encontrada. Não diria nunca, nem sob tortura que  me prestei a esse descaramento  por três meses afinco até que ela não resistindo aos meus encantos se deixou ficar comigo. Acreditem, ou melhor, não acreditem que eu me rebaixei a esse papel durante três meses até ganhar a garota mais bonita da praia, me postando como médico. Isso entre muitas poucas verdades e algumas falsas mentiras. 
-Tem tanta coisa que eu gostaria de dizer, mas não vou para não me acanhar, para não ficar sem graça ou pensarem que estou me engrandecendo, coisa que jamais faria.   Aí eu me calo como calado  estou agora.  Calado enquanto olho os políticos, os religiosos e suas igrejas, os pais que se acham magistrais, os professores arrogantes em suas cátedras, fora aqueles que se acercam de mim dizendo ser o que não têm condição para tanto ou vivendo a vida que nada tem a ver com a que podem sustentar.  
Talvez por isso eu fique olhando do alto de uma das torres do meu castelo, onde moro, enquanto aqueles que a mim devem obediência, quiçá as suas próprias vidas, fazem reverência a este humilde ser que há muito não sabe o que é  mentir e de se engrandecer nunca pretendeu. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

DESEJOS E LIMITES.

Ele não tirava os olhos da morena, mas 
quem o via olhando não sabia que interesse algum por ela o velho tinha, já que a sua idade passeava calmamente pelo vale florido dos 70 anos ao passo que a moça via as flores com olhar dos 23.  Em contrapartida, dona Santinha, mulher com quem se casara há 45 anos,  também olhava os rapazes que  viçavam no outro lado  do portão.  Vovô João jogava cartas, dama e conversa fora na praça com os amigos, mas o melhor momento daquelas tardes   era por volta das 17h, quando as moças deixam a confecção onde trabalham e ao passar roubavam deles o pouco ar que lhes inflava o peito.  Vovô João em tempo algum se insinuou a qualquer uma, mesmo que dele muitas se aproximassem com uma pergunta ou simplesmente pela confiança que  transmitia. Vovô tinha receio de se encantar mais do que devia e que pensassem que ele se considerava o dono do pedaço, que tivesse dinheiro e  por isso pudessem se aproveitar da situação.  Então o melhor era olhar, nada mais do que olhar o que as vistas pudessem e tinham  prazer de ver.  Vovó Santinha não pensava diferente.  Olhava os belos moços e  muitas vezes se pegou imaginando tê-los em sua cama, mas não se permitiria tais desfrutes nem hoje e 
nem nunca até porque amava o marido desde os  tempos de mocinha e motivos para traí-lo jamais recebeu dele. Antes ele era bonitão, alto e forte e muito disputado pelas moças por onde andasse, mas ela, enfim, o conquistara.  Todas as noites o casal fazia suas preces antes de se 
deitar. Tinha vez que as lembranças do dia moviam no velho todos os seus desejos, mas nem sempre o outro, no caso, a vovó, estava disposta aos carinhos atrevidos. Os dois viravam para 
o canto com o mesmo sorriso; ele por mostrar a ela que ainda era capaz e ela por se achar querida e desejada por alguém a quem confiou a sua vida. (Foto da Internet).

segunda-feira, 15 de abril de 2013

EU HEIN!

Eu sei que para cada pergunta é preciso  uma 
resposta, mas tem algumas para quais explicação nenhuma lhes é cabível. Você já pensou, por exemplo, no que leva uma pessoa a amar outra sem pretender tocá-la, sem ao menos deixá-la saber que é amada? Como alguém pode desejar uma criatura, sonhar com ela, viver pensando nela e por mais que a chama do amor a consuma fazer de tudo para que  ela não fique sabendo ou desconfiem  do que sente se na realidade o que se quer, quando se ama, é sair  por aí correndo de braços abertos, gritando aos sete ventos a felicidade que nos arrebata o peito? Seria para evitar que a fera reprimida do desejo fugisse do lado obscuro da alma e engolisse sem mastigar, para não ter que cuspir, a pessoa amada na hora em que ela mensurasse o tamanho do amor que alguém sente por ela? Estas são algumas das perguntas que eu também me faço embora não acredite que alguém  possa amar  e ter vergonha de demonstrar o sentimento que tem. Não acredito que alguém prefira se distanciar do ser amado a  se arriscar dando bandeira, deixar transparecer que  deseja tê-lo ao seu lado para sempre.  
Quando um homem e uma mulher brigam  sem motivo aparente,  imediatamente aparece quem diga que ali existe  um amor oculto,   reprimido. Como explicar uma coisa dessas, eu me questiono?
Assim que eu saí do Rio para trabalhar numa cidade fria, a  baixa temperatura ameaçou paralisar uma das minhas pernas. Foram as sessões de fisioterapia que  reergueram este paulista-carioca que vos fala, mas até que eu voltasse a andar como andava antes, sofri bastante nas mãos da fisioterapeuta sem saber o  por quê de tamanho sofrimento, já que eu tratava  todos com a mesma cordialidade, menos  ela com quem  mantinha certas reservas por ser  casada.  Atitude errada já  que isso queimaria  o meu filme, como queimou.   Tudo o que eu fazia por ali no entendimento daquela mulher que também era a responsável pela clínica estava errado. Aonde quer que eu estacionasse  o carro não podia, até se  a vaga fosse desocupada naquele instante, não devia. Quando os pacientes eram chamados o meu nome era esquecido, mesmo que eu estivesse por ali antes de qualquer um e assinado a guia na sua frente.  Quando eu chegava cedo me atendia por último e   quando eu chegava atrasado não me atendia. Quando eu soube que ela estaria afim de mim, eu pirei. Se estando afim me tratava daquele jeito como me trataria se não estivesse? Resolvi tirar isso a limpo e na primeira oportunidade demonstrei me interessar por ela. Marquei um encontro sem a intenção de ir, como não fui, e me desliguei da clínica para me cuidar noutra cercania.  Pelo visto estas perguntas morrerão sem resposta enquanto a procura do entendimento para casos semelhantes continuará confundindo a minha cuca enquanto muitos serão amados  sem se darem conta. (Foto da Internet)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

HÁ UMA LUZ ATRÁS DA SERRA.

Quando você faz uma nova amizade e para ela 
se pega reclamando da sorte, dos antigos amigos que nem sempre chegam junto e dos altos e baixos da vida, cuidado.  Converse com essa gente de forma que não o interprete como um cara revoltado ou infeliz. Não se gabe dos méritos que acha que tem, dos dotes ou se engrandeça. Não conte vantagem para que não o taxem  de frustrado, mentiroso ou um cara  enjoado e chato. Os casos acima merecem muita atenção ou correrá o risco de se tornar indesejado por estes amigos antes de  se esquivarem de você, pois ninguém vai procurá-lo se você estiver doente beirando a morte. Ninguém quer ser amiga de pessoas fracassadas, macambuzias, muito 
menos daquelas que vivem contando vantagem mais 
conhecidas como garganta
Sempre existe um meio termo e é graças a esta possibilidade que muitas amizades são eternizadas, mas se um dia, já que ninguém está livre do indesejável, um deles vier a adoecer ou carecer de um abraço, uma palavra amiga, há de se correr para ajudá-lo, assim como ele correria em seu socorro. No entanto, se a mega sena sair em nome dele, é claro que o seu será lembrado. Caso não receba do ganhador uma pequena parte do dinheiro, entenda que  a presença dele na sua vida já é um grande prêmio.  Portanto, nada de se exasperar por qualquer coisa. Nada de chorar por pequenas dores e nada de festejar o sol que nasce depois da chuva porque isso tudo faz parte da vida, da sua vida e de todo mundo.

sábado, 6 de abril de 2013

O CIRCO E SUA ARTE

Foi por amor e por achar o clima ameno e 
gostoso que eu decidi transferir os meus sonhos e a minha vida para o alto da serra.  Quem não gostaria de dormir    agarradinho num lugar aonde o inverno passa o verão?  Numa noite, porém, eu, que já  tinha perdido a intimidade com o calor, não consegui conciliar o sono. Depois de muito rolar na cama fui até a  varanda tomar um pouco do ar da madrugada. Do alto, aonde eu moro, dá para ver a cidade que se aquietara no sono dos moradores. Poucas eram as pessoas que, esquivas, passavam  
sob o meu olhar. A luz era pouca,  matreira, amarelada, tudo e quase todos dormiam nas redondezas, mas sem que eu me desse conta uma janela se abriu à minha frente a poucos metros abaixo dos meus pés por alguém que não dormia. Era Martha, mulher jovem de corpo desenhado pelo gênio do bom gosto e  orgulho do marido, um trapezista de circo itinerante  e que talvez por isso  se mostrava um cara vaidoso e convencido.  Ela surgiu entre 
as cortinas vestindo, pasmem, a   camisola branca esvoaçante preferida do marido e como que buscasse por alguém que não tardou se deixa lamber por uma brisa travessa que até a mim arrepiou. 
Esgueirando pelas paredes como um gato assustado alguém salta a janela facilitado por ela e num movimento digno de cinema  passa da rua ao quarto em um piscar de olhos. Num gesto mais atrevido e de nenhum medo rouba-lhe um beijo, daqueles que arrebatam a respiração e desmaiam o corpo para entregar-se  aos amassos, aos carinhos  como se permitido fosse sussurrando coisas que os enterneciam.  Sem descolar dos lábios dela os  seus, o gato tirou, meio que atrapalhado e com pressa a camisa preta que cobria o dorso forte e sem pelo.  Soltou o cinto da calça 
da  cor da noite e livrou-se dos sapatos com os próprios pés para, descalço, tomar a mulher seminua em seus   braços, lamber-lhe a nuca, o pescoço e  o colo para entre o amaranhado das sedas  forçar seu  ventre contra o dela que se abria serpenteando na cama como  os botões das rosas bailam ao  desabrochar nas manhãs primaveris. Um gemido no começo e outros, muitos outros no decorrer do ato. O sol, enfim,  acariciou a minha cara me acordando de um gostoso sono que não dormi. Valeu para me certificar que eu perdi aquela madrugada olhando alguém tomar de assalto a casa de uma mulher que, cúmplice,  se entregou 
ele como se fora sua.  O gato, depois dos fatos, tomou o caminho do chuveiro. Vestiu a roupa de dormir que não era sua. Beijou a mulher como se casado com ela fosse, estirou-se na cama com ela deitada em seu peito e dormiu o resto do dia como se fosse seu marido, que de verdade era.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

AINDA RESTA UM POUCO DE LUZ.

Eu me sinto um vencedor  por habitar e não me corromper num mundo onde uma boa parte das pessoas não merece um olhar, muito menos viver em liberdade já que tira  proveito da classe desfavorecida.    A maioria das pessoas da qual eu faço parte é  obrigada a  dividir  a mesma sociedade que nos cobra ética e honradez com esse grupo sem que com isso, como o óleo e a água, nos misturemos. Eu fui moleque, traquinas quando criança.  Fiz travessuras, mas nada que ferisse quem quer que fosse.  Muito cedo eu aprendi a discernir o bem do mal,  a política e suas consequências, a igreja e seus segredos.  Conheci pessoas ricas que ouviam e, acreditem,  baixavam a cabeça enquanto  pobres ditavam ordens com o nariz em riste como se fossem reis.  Vi mulher bater em homem e pai violentar sexualmente o próprio filho.  Cresci, confesso, em meio a estas realidades, mas nenhuma, por mais convincente, me levou à delinquir.  Não falei mal dos políticos, mesmo achando que alguns eram, como são, dignos de enforcamento em praça pública em nome da decência e dos bons costumes.  Também soube, pelos órgãos da imprensa, de padres  e pastores pedófilos que inclusive roubavam a congregação a que pertenciam como aqueles que foram pegos na prática da libertinagem o que muito me indignou e confundiu a fé.  Tenho me esforçado em acreditar que este é só um caso isolado, mas não posso deixar de crer que  pode ser comum  em algum canto deste país mesmo que não aceitemos tão dura realidade.  O importante, no entanto, é que estejamos limpos dessa imundice e mesmo que sejamos obrigados a sujar as botas na lama existente na casa dos porcos, não vamos comer a comida que os alimenta.