segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

DE TANTA DOR.

                  Na minha cidade assim como no resto do país a saúde vai de mal a pior. Talvez em Vitória e Vila Velha seja um pouco diferente como  afirmam os amigos que eu tenho por lá e que fazem questão de acenar para o meu carro e me hospedar quando me dou de presente um passeio por aquelas bandas e para que não pensem que estou mentindo, na terça-feira passada completou três meses que eu ia de segunda a sexta-feira  ao Hospital municipal de Nova Friburgo com o propósito de agendar uma cirurgia para um idoso  vizinho meu e não conseguia. Frequentei  fila e enfrentei desaforo como os que ali buscavam pelos direitos que achavam que tinham.  Ontem, felizmente, uma luz brilhou forte no fim do túnel e para nossa felicidade não era o trem, mas um vereador, amigo do povo, que penalizado com o estado do senhor para quem eu buscava atendimento, tomou para si a responsabilidade de encaminhá-lo a um cirurgião. A pessoa para quem a sorte sorriu nada além do seu voto tem para dar e mesmo se tivesse, o profissionalismo de quem representa o cidadão nesta cidade fala alto e nada receberia. Há muito eu tenho me queixado do poder público, mas um dos  mais dignos representantes dos munícipes,  Gustavo Barroso, me mostra com o seu belo gesto que nem tudo está perdido. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ESSE É O CARA.


            Faltavam poucos dias, talvez horas para que novos encontros entre a gente se fizessem, mas isso não voltaria a acontecer nem tão cedo, pelo menos foi a conclusão que eu tirei quando soube que o carro do meu amigo que era o meio mais rápido, prático, confortável e seguro de levá-lo e a sua esposa para onde imaginassem  acabava de ser furtado.  Talvez o seu condutor, um carioca de meia idade, boa pinta,  que não tira os olhos do mar, do sol a pino e dos jovens que por ele passam em direção da praia tivesse estacionado em lugar proibido e por isso os responsáveis pela organização do trânsito da sua cidade o tivessem rebocado. Podia ser, também, que ao se preocupar com o gingar das ancas largas da mulata que por ele passava tivesse tirado a sua concentração o que o fez  estacionar em lugar não sabido e não lembrado e para não ficar mal na fita veio com essa de; roubaram meu carro! Acudam!  Socorro!  Ora, meu querido jovem e amado amigo, como alguém se atreveria, em plena luz do dia, roubar um carro em frente ao DETRAN de Vitória, no Espírito Santo, cidade, como se sabe, tão pacata e ordeira?  Minutos antes de eu publicar este artigo alguém de lá me telefonou dizendo que o caso era à vera e que não se tratava de uma pegadinha irresponsável. Aí eu pirei, mesmo tendo sido, logo, informado que o possante havia sido encontrado.  Alguém o teria tirado, mesmo sem as chaves, da vaga onde estava, rodado pela cidade e abandonado  a  duas ou três ruas de onde fora deixado.  Essas coisas nos obrigam a fazer graça ou a pensar que o dinheiro dos nossos impostos não está sendo assim, tão bem aplicado, o que nos dá certeza de que a impunidade abre fronteiras
 à insegurança e ao crime.
Agora é só encarar a burocracia da delegacia, fazer uma checagem no estado do veículo, colocar o imprescindível no porta malas, despedir do pessoal e zarpar em direção à serra rumo a nossa casa e as comemorações que certamente haveremos de fazer. Boa viagem, turma, e que bons ventos a tragam. (Foto do Google)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

ENTRE OS LIVROS E O AMOR


Tem coisa que me tira do eixo.  Flagrantes que me  levam a repensar a vida. Tem momentos que a gente esbarra com a certeza de que não somos nada, não sabemos nada e por mais que nos esforcemos não passamos de um ponto de interrogação perdido  no universo da incerteza. Um desses exemplos aconteceu, agora a pouco, em minha casa. 
 Depois de protelar a obra que se fazia necessária resolvemos, eu e a moça dos olhos da cor da esperança, botar a mão na massa. Arredamos as coisas do lugar e modificamos o quarto, o banheiro, a área e por fim criamos um alpendre dando um toque pessoal ao nosso lar. Criamos o que eu achava necessário e dos empecilhos nos desfizemos.
No segundo dia da obra um dos pedreiros recebeu a visita do filho. Um jovem beirando os 16 anos, não mais do que isso. Chegou como quem não queria nada para assumiu o lugar, vago, de ajudante do pai. Durante três dias seguidos ele pegou e largou na mesma hora que os outros, a única diferença é que ele não reclamava ou exigia nada. Cansado, suado e sujo voltava para casa no final do dia.  Na hora do  almoço eu fazia questão que ele lanchasse e almoçasse como os que eu contratei 
para o trabalho. Uma dúvida, no entanto,  pairava entre nós; por que aquele jovem quis ajudar o pai sem que fosse convidado por ele ou por mim? Para calar a minha curiosidade a minha mulher soube através de um dos irmãos dele que o jovem tinha na verdade 15 anos, cursava o ensino médio e estava um ano 
a frente de sua turma. Ninguém o convidara para um trabalho tão pesado, mas durante os feriados de carnaval fez questão de ajudar o pai na intenção de poupá-lo de tamanho sacrifício. Foi durante o meu almoço que eu tomei conhecimento do caso e confesso que chorei. Abracei minha mulher e chorei por saber que ainda há esperança para este mundo tão desacreditado. Enxugamos os olhos e me vi feliz por tê-lo incluído na lista dos que almoçaram e lancharam conosco, assim como me dispus a pagar pelo seu trabalho, mesmo sabendo que ele nada esperava pelo que fez.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MÃO SANTA

Ele era tão pobre, que só comia quando alguém dele se lembrava. Vestia as suas vergonhas com trapos para esconder, não o que achava chocar o mundo, mas a sua condição de perdedor.  Certa vez uma mulher que mais lembrava sua mãe, que a sua benfeitora, entregou em suas mãos um bolo com o seu nome escrito em chantili, um litro e meio de refrigerante e um abraço do qual jamais se esqueceu. Em outros tempos aquela data era comemorada por ele, seus parentes e amigos mais chegados. Depois disso, nunca mais teve uma festa que pudesse chamar de sua, receber a visita de quem dele se lembrasse ou ganhar presentes, ah, isso nem pensar.  Até ele se esqueceu que aniversariava uma vez por ano...
Nos momentos em que se via devagar nos pensamentos recordava a bela imagem de quem, sem necessidade alguma, um dia  se lembrou da sua pessoa.  Do bolo não lembrava o gosto e  do que bebeu não se recorda o nome, mas do olhar e do abraço em momento algum e por mais que passasse o tempo ele se esqueceu. Era um gesto sem preconceito e intensão, já que foi dado na madrugada de um dia chuvoso e sem ninguém por perto para testemunha.  Nunca mais o jovem viu a mulher assim como há muito não sabe de sua mãe.  Talvez as duas estejam bem. Uma com a consciência da bondade e a outra com o coração entristecido pela sorte do seu filho.
Hoje é carnaval, terça-feira gorda; dia do seu aniversário.  Ele acordou mais cedo para esperar pelo que não tem certeza, mas foi assim, sem acreditar na própria sorte que viu  surgir aquele anjo para grafitar em sua alma a certeza de que nada é impossível quando se está com Deus.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

UM BEIJO E NADA MAIS.


Para evitar que a minha colega de escola  pegasse uma gripe, eu, moleque recém saído das fraldas metido a esperto resolvi dividir com ela o guarda-chuva na esperança da recompensa que  veio e mesmo não tendo sido lá essas coisas eu não pude me queixar.  Ela, molhada como um pinto atravessou correndo a rua e protegendo os livros sob a blusa veio em minha direção.    Entrou debaixo do meu chapéu como se ele fosse a marquise de um centro comercial.  Sorriu enquanto sacudia  os cabelos lambidos pela chuva molhando o que havia de seco, em mim.  Pegou os livros e se deixou conduzir por um cara que não tirava da cabeça a imagem da mocinha com a roupa encharcada que colada na pele simulava a sensualidade da mulher na garota que era ela.  Nesse devaneio eu a resguardei do tempo enquanto eu me expunha congelando ao relento.
   A imagem era encantadora de se ver.  O casaco de educação física que eu vestia me proporcionava o calor que certamente o corpo dela precisava.  Tremia de frio aquela criança que crescia no gestual e nas feições do rosto com a aproximação que a oportunidade nos proporcionava.  Passei, meio sem jeito, por sobre os seus ombros o braço e a cada passo a estreitava mais e mais junto ao meu peito.   Calados caminhamos um bom pedaço saltando por sobre as poças que uma a uma eram deixadas para trás.   O guarda-chuva nos escondia dos olhares alheios provocando uma falsa privacidade.  Ainda presa aos meus braços saltava as poças já sem frio e nenhum respeito.  Toda vez que errava o salto, por ou sem querer, o seu pé jogava água que acabava molhando os meus e isso provocava nela boas risadas e muitos gestos.  Enquanto ria seu corpo serpenteava sob as roupas molhadas me  deixando perceber o bico enrijecido do pequeno peito.  A certa altura alguma força que não era a minha me fez cingi-la na cintura ficando as nossas bocas a um beijo de distância.  Seus olhos que olhavam os meus se fecharam como a cortina de um teatro interrompe a cena do primeiro ato, e eu a beijei nos lábios levemente.  Esqueci o guarda-chuva que jazeu aos nossos pés e, naquele set, protagonizamos o melhor final de todas as peças. 
- Esse filme rodou na minha memória agora quando caiu do livro, Reinações de Narizinho, de Lobato, uma pétala seca e descorada que pertenceu aquela rosa vermelha e perfumada que ela me deu quando devolveu o livro que a ela eu emprestei.
(Foto da Internet)