sexta-feira, 1 de novembro de 2013

SÓ QUE NÃO.



O bilhete da passagem para o céu podia ter o preço 
de um bom-dia, um até breve ou um muito obrigado, mas não tem. É escorchante o preço cobrado por uma viagem que a gente nem sabe se vai fazer. O bilhete é trocado por uma infância inteira de obediência ao pai, a mãe e aos mais velhos. Estudo e trabalho abnegado são imprescindíveis, assim como sorrir para os que lhe são simpáticos  e para os que não gostam de você. Ir à igreja com a família nas manhãs de domingo, observar os mandamentos e não comer caso não possa dividir com quem ficar olhando, faz parte. Mesmo assim ninguém garante que a sua saúde, a de sua mulher e a dos seus filhos serão preservadas com esse preço absurdo que você está pagando para ter o direito a ir pro céu quando morrer da mesma maneira que não garantirá seus filhos de seguirem o caminho do bem ou que eles viverão em paz e harmonia na mesma casa que você.   
Só com chás, bolachas, refrescos e bolos você poderá comemorar uma determinada data, mesmo sabendo que esta extravagância não leva ninguém a lugar algum.  Já as cervejas e os destilados que dão barato, nem pensar. Portanto, brindar, só com refrigerante, mesmo fazendo mal a saúde como é sabido. Música, talvez baixinha, para não estimular os dançarinos a abrirem a porta de incêndio às chamas com tamanha esfregação. 
Ir para o céu, se alguém já foi, deve ser muito chato. Você se priva do assédio dos belos cafajestes e das mulheres maravilhosas além de  deixar de lado qualquer tipo de cigarro e de bebida, principalmente os  que entorpecem a alma e encantam a vida, mesmo prejudicando a saúde. E para quê, abrir mão de tudo isso? Para ficar engarrafado na estreita porta branca ao som daquela clássica música chata andando de um lado para outro sem ter o que fazer?  Eu acho que vou trocar o duvidoso pelas periguetes e pelas bebidas.  Pelas farras, pelo sexo e também o rock and roll.   Vou beber muito e fumar em demasia.  Eu sei que o cigarro vai me dar enjoo, mas acabo me acostumando. 
Quero dançar de corpo colado, falar bobagem no sopé do seu ouvido  e quando o tesão já não puder calar eu vou ao alpendre olhar a lua.  
 Quero mentir muito a meu respeito. Quero roubar cravos, orquídeas e rosas  do  jardim ao lado para ofertá-los à mulher que amo. 
Quero chegar atrasado no trabalho e por a culpa no busão. Quero  blasfemar contra o criador se um amigo meu partir desta pra melhor e também dizer que sou o que não tenho competência, e depois...  Ah, depois eu me arrependo, peço desculpas ao Senhor ou a quem eu achar que devo e vou pra cama com a mulher amada, levá-la às estrelas como diz que sempre faço e desta vez roubar dos anjos uma auréola  para enfeitar os orgasmos múltiplos que eu sempre provoco nela.