quarta-feira, 2 de outubro de 2013

MAIS UM ANO SEM VOCÊ.

Ele lutou até o último momento para que seus filhos
 não se rendessem à própria sorte e que fossem responsáveis por seus atos, justos com os menos favorecidos e se, graças ao seu trabalho, tivessem aonde dormir e o que comer, que não vestissem a máscara dos insensíveis quando lhe pedissem um canto para passar a noite ou um pedaço do seu pão.  
O sonho que ele se atreveu sonhar o embalou por décadas através de tortuosos labirintos. Trabalhou durante o dia para namorar a mesma mulher com quem viveu a vida inteira, durante a noite. Na vida dos filhos ele vivia a sua e deles tirava a força que o instigava a incentivá-los. 
  Ele não só os queria dignos, mas responsáveis e trabalhadores, mesmo que para isso fosse necessário desdobrar cada rio, rebaixar os morros e suavizar as ladeiras que surgissem a cada curva  para vê-los caminhar com os próprios pés. 
Ele era um predestinado.  
Hoje, dois de outubro, tem festa no céu. 
Nesta data, não faz muito tempo, o velho nos deixou. Partiu com o risco do riso da vitória nos lábios e se não tivesse adormecido antes da partida, seria possível ver o brilho de felicidade que a formatura de cada filhos estampava em seu olhar. 
 Ali ao seu lado para o último adeus estavam aqueles em quem  acreditou.  Sua mulher, seu primeiro e último amor.  O esteio de sua vida, seu leme, seu prumo. O filho mais velho, amigo inseparável com quem contava a qualquer hora. Uma filha, professora universitária e duas jornalistas com coluna, cada uma, em jornal de grande expressão.
 Um neto, juiz de direito e blogueiro em horas nem sempre vagas. O outro, produtor musical e mais dois formados em direito.
Eu não creio que alguém, em sã inconsciência, trocasse o lazer, as boas roupas, possíveis passeios e ótimos restaurantes pelo futuro incerto de quatro crianças que teriam, como tiveram, o direito de escolher entre o bem e o mal, o seu próprio caminho. Eu não acredito mas há as exceções e felizmente, numa regra geral, meu pai é um exemplo a ser seguido.  Não tem por que não acreditar naquilo que é possível.  Não tem por que achar que o melhor pertence aos outros e o nosso é comum ou é vulgar.
Estejas certo, meu pai. Que eu jamais esquecerei que fostes humilde o suficiente para desejar que a tua última morada fosse sob os nossos pés.  Mas nós, teus filhos e netos o transladamos para o alto, além do céu e das estrelas das nossas lembranças. 
 Para dentro de nós. 
Dos nossos corações.