quarta-feira, 22 de maio de 2013

ALMAS SIAMESAS.

         No interior do estado o povo festejava o dia do padroeiro da cidade e no calendário daqueles dois não poderia existir  data mais propícia para o primeiro encontro. Talvez, ansiando pelo que pudesse acontecer,  ela tivesse chegado mais cedo e em meio aos passantes buscava o rosto daquele que só conhecia por foto através das redes sociais.  Não tardou para que se descobrissem e correr para o primeiro e demorado abraço.   Ela tremia de nervoso enquanto ele se empolgava como se a festa fosse sua.  Parecia feliz e em cada palavra demonstrava  o grau de satisfação e o encantamento que nele era provocado.   Um beijo ligeiro, talvez desnecessário para o momento, ele roubou dos lábios dela. Depois se deram as mãos e foram em buscaram de um lugar aonde pudessem conversar e enquanto caminhavam ele era examinado nos mínimos detalhes. 
   -Era, como diriam os italianos, um belo ragazzo.      
          Ele pensou em falar sobre a pequena diferença de idade entre os dois, mas achou que talvez ela não quisesse ouvir. Os tempos eram outros e a sociedade não se importa mais com essas bobagem. O que importa, mesmo, é o sentimento, pensava ele confiante a cada vez que se lembrava do assunto. Dali seguiram à casa dela aonde todos os aguardavam. Ninguém falou sobre idade, mas ela fez questão de deixar claro que aquele era um encontro como qualquer outro e nada  além da amizade surgiria entre eles.  Tanto ela sabia o que dizia quanto ele era bem informado, humorado e firme nos seus propósitos.  
           Muitos foram os encontros  e por acharem que um era a outra metade de sua laranja resolveram morar juntos  fazendo da cama do casal o ponto de encontro de todas as noites e de quase todas as horas dos sábados, dos domingos e alguns feriados. 
              Uma cirurgia, no decorrer do tempo, se fez necessária e isso o privaria de fazer amor enquanto convalescesse, mas eles não respeitavam as ordens médicas e se atreviam durante as  noites num sexo louco e até bonito. Hoje tudo mudou. Amadureceram e melhoraram em tudo o que fazem.  Afinaram nas ideias, investiram no que pensam ser necessário e viajam aos lugares mais bonitos. Vivem, os dois, como num conto de fadas trocando abraços e beijos sempre que possível num respeito de causar inveja, mas só isso.  Amor, acredito, já não fazem mais, embora o sentimento da parte dele continue num crescente, enquanto ela já não tem o mesmo fogo. Em vários momentos ele chega a pensar  que ela  já não o ama. Pensa que  se arrepende a cada dia por tê-lo escolhido em detrimentos do trabalho e do estudo. Choroso pelos cantos acredita que não viveria sem o atrevimento dos carinhos que por sinal escasseiam a cada dia, assim como há muito não se sente provocado por seus gestos e a maneira de olhar com os quais terminavam na cama num amor sem limites.             Buscando mais informação para o caso, descobre-se  que ele continua acordando antes dela, mas já não a beija como fazia antes. Não fala o que ela gosta de ouvir para começar o dia, mas fazem juntos, como antes, a primeira refeição,  só que hoje tem o jornal ou o noticiário da TV entre eles o que não acontecia até então. O beijo no canto da boca e o leve sorriso são a forma como ele dela se despede  quando vai à rua. 
Ah, mais que falta faz uma pitada de coragem a esses dois.  Ah, o medo de acabar sozinho é o pesadelo que não passa. Tem vez que ele quer sumir, fugir da vida dela. Voltar pela mesma estrada que o trouxe, mas a covardia não lhe permite tamanho atrevimento. Talvez fosse melhor que ela desse um começo ou um fim a tudo isso, já que voltar ao que era antes não teria como. Discutir a relação não vem ao caso já que nenhuma mulher ou homem quer viver com uma pessoa que cria uma personagem só para agradar, principalmente quando o par fica sabendo que o outro sacrifica a sua felicidade para que a relação não desande. O melhor seria não ter começado, mas como a estrada do tempo não tem retorno, o importante é ele segurar cuidadosamente, porém firme a direção, pisar fundo como fazia quando ia à casa dela e não deixar de apreciar as paisagens do caminho como gostavam de fazer antes de envelhecerem, como envelheceram.