quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

SEM PENSAR.

  Quando eu saio no meu carro tenho 
por hábito manter os olhos e os sentidos arregalados no  trânsito a minha frente, e isso tem me dado a tranquilidade e a segurança para dirigir que dizem que eu tenho, mas quando estou sozinho em casa, dificilmente me pego olhando as estrelas além das minhas cortinas, já que eu sempre tenho um livro aberto sobre os meus joelhos me prendendo a atenção. Os jornais eu os devoro ao passo que a internet me dá o resto das informações. Desta maneira não me resta tempo para pensar e refletir a vida, a minha e a dos que me interessam. O único momento que eu tinha e já não os possuo para  usar os 10% da minha cabeça era quando eu ia ao banheiro, não para fazer a barba, escovar os dentes ou banhar meu corpo, mas para me entregar ao questionamento dos problemas e ponderar as dúvidas da minha vida.  Naquele lugar eu aprendi  a gostar de quem gosta de mim e a perdoar aquelas que não se esforçam para me compreender. Também foi lá que em alguns momentos eu senti a minha alma se desgarrar de mim e lá, também, já me peguei chorando as fraquezas que eu faço tudo para esconder. Hoje, no entanto, eu levo comigo um livro como companhia. Naquela paz foi fácil começar e terminar a leitura das 720 páginas de OS MAIAS, de Eça de Queirós. Foi tranquilo viajar nas letras de Dostoiévski a bordo das 328 páginas de MEMÓRIAS DA CASA MORTA, das 168 de O ETERNO MARIDO e das 184 de OS POSSESSOS, do mesmo autor. 
Hoje eu termino de ler as trezentas e tantas páginas de suspense, jornalismo, política e amor, do livro; O PLANO PERFEITO, escritas por Sidney Sheldon.   
Talvez a leitura seja a minha cachaça, mas escrever também me deixa embriagado, ou não, pois dirigir requer a mesma sobriedade dos abstêmios e essa preocupação eu tenho para com os livros, quer para lê-los ou escrevê-los, e  ponto e vírgula e coisa e tal.

domingo, 23 de dezembro de 2012

PESADELO DE NATAL.

    A meia noite em ponto o mercado abriu as portas à última liquidação do ano. O povo que ansioso aguardava do lado de fora invadiu a loja num tremendo alvoroço enquanto aqueles que  chegaram antes do tumulto foi dado a preferência da escolha, como a pobre cristã que trocou a igreja pela compra da TV digital de 40 polegadas com preço de fábrica e que seria o seu presente de natal, mas, infelizmente, ao se dirigir para o caixa recebeu um soco no olho e perdeu para o seu agressor a compra que fazia.  Aquele foi um dos gestos violentos entre outros dos quais tomei conhecimento.
     A televisão local anunciara a liquidação pouco tempo depois de terminada a novela, mas foi tempo suficiente para que uma multidão se formasse na entrada do estabelecimento.
      Mulheres, idosos e até crianças corriam em busca do sonho. Empurrões, puxão de cabelo, pisada no pé e beliscões não faltaram entre os que perderam a noite em busca de tão pouco.  A segurança estava apostos, mas não em número suficiente para evitar tamanha confusão. 
      No decorrer da semana eu, que reconheço ser um grande idiota, fui comprando a qualquer custo o necessário para a grande festa, portanto, não me permiti fazer parte daquele grupo de  pessoas que buscavam preço com o risco que correram e os hematomas  que tiveram.

FELIZ  NATAL  A  VOCÊ  E  AOS  SEUS,  DE  QUEM  EU  GOSTO  TANTO.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

QUANTO MAIS FROUXO MAIS DÓI.


           Há muito resolvi doar meus órgãos tão logo passasse dessa pra melhor,  mesmo não acreditando que lugar algum seja melhor  depois da morte, digo, depois da vida.  De qualquer forma eu colocarei à disposição dos médicos tudo aquilo que sustentou a vida forte do meu corpo. Desejaria ver  meu fígado pesquisado por não  ter dobrado  os meus joelhos quando bebi  a produção de destilados desta e de outras terras.  Quero que estudem a minha pele por não frisar de rugas a minha testa por mais que eu sacrificasse as noites da minha juventude. 
E por falar em joelhos, deixarei que descubram os reais motivos que me permitiram sair andando do Hospital para pegar o carro no  estacionamento e dirigi-lo por duas horas no complicado trânsito do meu Rio assim que eu deixei a sala de cirurgia aonde operaram uma das minhas pernas, mesmo eu sabendo da simplicidade daquela intervenção. Quer dizer, simples para alguns e muito complicada para outros, principalmente para os neuróticos, para os esquizofrênicos e  outros perturbados. Graças a Deus eu não conheço um só amigo que se enquadre nesta descrição.  Deixarei também, entre  outros, o meu coração para que dele seja extraída a imensa lista de amigos que sem medidas eu amei. A eles deixarei, inclusive, o melhor dos obrigados por terem feito de graça e riso a minha vida e de amor os melhores dos meus momentos. Mas se tudo isso não passar de um sonho, até porque eu tenho sonhado muito ultimamente, eu vou grafitar na imagem dos olhos de cada um a beleza dos meus sentimentos e o melhor agradecimento pela amizade e parceria que cada um, maluco, pirado, neurótico ou são, se é que tem alguém  de mente sã entre as pessoas que amo, como prova da minha eternidade.
(Foto da Internet)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

POR QUÉ NO TE CALLAS?


       João jurou que não falaria mais dos seus projetos,  seus financiamentos e investimentos, assim como não deixaria o mundo ficar sabendo das suas possíveis viagens de negócio ou lazer, dos males que afligissem seu corpo e do pranto que por ventura chorasse a sua alma. Entretanto Mariah, sua mulher, tem sido vista cabisbaixo, meio macambúzia sentada sob a goiabeira que dá frente para a janela de sua sala de onde se pode ver quem chega, quem sai ou quem por ali passa dando seguimento a vida. Deu pena,  confesso. João, que a todos havia prometido guardar para si as amarguras que tivesse, as tristezas que o acometessem e as dores que sentisse para tão somente dividir com os amigos e parente as alegrias, desde que contagiassem os emburrados  pessimistas. Mesmo impressionando com tais afirmativas João deu com a língua nos dentes e acabou falando mais do que achava que podia.  Falou não, berrou. Gritou as razões que o jogavam  para baixo, como falou das suas angústias e até da sua covardia fez questão que soubessem. Falou da intervenção cirúrgica por que passou e do medo horrível que tinha de morrer. Talvez falasse por receio da coisa dar errada ou por achar que as suas lamúrias fariam dele um cara mais respeitado, mais querido ou quem sabe, até, poderiam se oferecer para carregá-lo no colo como se fora uma criança desprotegida. Pobre João que não é de barro, mas de sonhos. João de fala fácil e vida complicada, que pretende mover o mundo com o seu verbo, com a graça do seu sorriso e com a força que não traz nos braços e talvez nem saiba se tem.  Em contrapartida eu também não calo a boca. Falo o que acho e o que penso, mesmo sabendo, como eu sei, que  isso não é sinal de bravura ou  coragem,  até porque, falar demais é feio. É tão feio que ninguém gosta de conversar com quem não sabe calar a boca, e o  pior, no entanto, é que João fala, mesmo calado, já que usa as letras do computador para se expressar quando o momento requer silêncio. Direito esse que eu também me dou e antes que vocês gritem para mim e para ele um; cala boca Galvão! Eu vou me envolvendo na mordaça para no final da frase colocar o que seria o ponto final do meu momento de Faustão.

domingo, 9 de dezembro de 2012

HIPOCRISIA DE MATAR.



Entre um dos muitos copos de  cerveja e um cigarro que  
fiz questão de não fumar, eu me dei conta de ter sonhado com um Ministério da Saúde que não saía dos mercados aonde conferia a limpeza e as datas de vencimento dos alimentos enquanto o Inmetro nem piscava olhando o peso e a medida dos produtos ali  vendidos. Eu que sou meio idiota e ainda por cima caio na besteira de sonhar acabo tendo um pesadelo e nele vejo que os Institutos não se preocupam com os  corantes, com o excesso de sal e de açúcar dos alimentos, com o glúten que tanto mal faz à saúde, assim como os agrotóxicos, transgênicos, irradiações, fermentação de crescimento e aditivos químicos dos industrializados que comprometem a saúde do ser humano, a do meio ambiente e com certeza a alimentação infanti.  Eu, ainda em sonho,  fico besta com tanto faz de conta neste e em outros países e tudo em troca de impostos recebido que geram divisas e enriquecem a indústria, seus diretores e presidentes. É o caso do fumo; por que manter viva a indústria que amputa ou mata os próprios herdeiros viciados? Talvez ninguém ou pouca gente saiba que os impostos da cerveja, da cachaça, do uísque e outros destilados não são suficientes para tratar e devolver à sociedade aqueles que se entregam à bebida. Neste jogo não deve ter vencedor, talvez    seja      como a guerra, ganha só quem as produz. 
    - Felizmente isso não passou de um sonho ou da ressaca de quem abusou do vício, como eu...  (Foto da Internet)  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ATO DE CONTRIÇÃO.

       Eu não estava ali para me divertir, para descansar ou assassinar meu tempo. Eu estava ali para fugir das lembranças que tenho dela, da certeza da minha incompetência de não ter sabido  prendê-la ao meu lado, talvez até por um pouco de vaidade ou muita ignorância eu a tenha perdido.  No fundo, no fundo eu passei para mim mesmo um atestado de burro e o pior disso tudo é que ela não deve estar nem aí para os meus grilos e minhas paranoias.
   Faz tempo  eu venho lutando contra essas lembranças que não chegam a ser ruins até pelo contrário, são maravilhosas, mas vêm tirando de mim o desejo de sonhar, a vontade de sair com os amigos e até de trocar ideias com as garotas da minha turma com as quais eu me regulo  para evitar possíveis pecados  ou aceitar convites que acendam os meus desejos eu tenho evitado.  Nesta praça, no entanto, eu vim tentar fugir de mim, mas a minha sorte que vive aprontando comigo escolheu-me esta praça entre outras só para me ver cair na minha própria armadilha. E olha que eu pesquisei no Google, perguntei a quem soubesse e quando preparei minha rota de fuga, pá! Caio na esparrela que eu mesmo armei. O única vantagem que eu tive nisso tudo foi o sol me lamber a face em despedida. Também lambeu, mas de forma harmoniosa, a moça que chorosa se perdia entre as rosas de cujo estado de penúria pinta de vergonha a minha cara. Foi assim, como essa moça, que eu pensei estar a minha alma. Foi assim, triste a ponto de querer morrer que eu acreditei me encontrar e no entanto alguém, talvez menos forte ou mais apaixonada se entregou a própria sorte e mesmo não sendo forte, teve forças para chegar aonde eu vim. Os últimos raios azul-alaranjado escorrem por sobre a mata, jardins e coqueiral. Escoa por sobre as águas como a sombra segue seu dono para ir com ele, o sol, seu rei, dormir para acordar mais cedo. 
         Na penumbra eu estendi nos ombros dela o frágil braço de quem sofre o mesmo mal e antes que de mim eu discorresse o sofrimento a minha dor chorou primeiro e foi nos braços dela, junto ao peito dela que eu beijei os lábios da mulher que eu pensei, mas não perdi. 


sábado, 1 de dezembro de 2012

POR NÃO TER AONDE IR.

        O meu amigo do Rio vai muito bem graças a Deus e se vocês me perguntarem pela família dele eu direi que certamente deve estar melhor do que antes e tudo graças a sua maravilhosa, mesmo que conturbada, recuperação.  Quanto a mim, ah, eu estou ótimo, nunca estive tão bem, até resolvi  trocar um pouco da minha alegria por beijos e abraços e pelo resumo da ópera  estou dando de brinde o melhor dos meus sorrisos.  Tá certo que a pessoa de quem eu dou satisfação de sua vida continua desempregada, mas Deus tem provido com sopa aqueles que não têm dentes.  Melhores dias, como já teve, hão de vir e ter o que  comer e o que vestir não haverá de lhe faltar.
    Por aqui a chuva finalmente resolveu dar um tempo, parou de encharcar os caras que levantam cedo para o batente e já deixou de fragilizar a saúde dos moleques que mesmo contra vontade vão resmungando para a escola meio que sonolentos, com caras de zumbi.  As águas que escapam ao leito do rio deixaram de encher de barro as ruas, as praças e a cidade, como também já não ameaçam as casas humildes que por falta de condições financeiras de seus moradores foram erguidas na base do sopapo às margens dos barrancos e dos rios.  Esse povo, aliás, tem vivido de teimoso se para ganhar algum dinheiro faz das tripas coração e quando tem quem o ajude a construir sua casinha, mesmo que de estuque, logo aparecem os fiscais da prefeitura para embargar-lhe o sonho, mas se for em área perigosa que o barraco é erguido ninguém dará as caras contestando o risco.  É como se a omissão fosse uma forma de desejar que aquilo tudo desabe na cabeça do pobre diabo e com isso a imprensa possa divulgar a cidade enquanto os políticos da região metem a mão na grana que os governos federal e estadual possam mandar como ajuda.
    Quanto aos familiares que chorarem a perda que tiverem, esses vão se danar à própria sorte.  Ficarão como estão os desabrigados de Nova Friburgo, morando de favor na casa dos outros enquanto a verba que resolveria os seus problemas e os do município sumirá no ralo que hoje, por sinal, encontram se entupidos e malcheirosos
     O resto vai bem e se melhorar, melhora. Como diz a capixaba.