segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A LUZ ME DÓI NOS OLHOS.

       Eu não sei se vocês se lembram de quando falei ou choraminguei sobre o problema que um amigo muito querido tinha e que vinha acabando com a sua vida, com a de sua família, com a minha e com a dos que vivem  resguardados na proteção da minha casa. Foi aqui, neste espaço que eu abri o meu coração. Neste outro também falei alguma coisa, mas foi  nesse que eu vi sarar  a dor que de leve, ainda sinto. Somente lendo as páginas grifadas vocês terão ideia da dimensão dos fatos.  Pois bem, este jovem com quem dividi cada carinho que dei aos meus filhos e cuja idade é igual a dele esteve internado durante seis longos e sofridos meses em uma clínica de recuperação de dependentes químicos no interior de São Paulo de onde voltou a casa depois da alta recebida. Lutou muito contra o desejo que sentia pela droga, mas perdendo algumas batalhas nessa guerra, sucumbiu, mesmo que contra a sua e a vontade de todos, aos caprichos dela. Nova luta, novos desafios. Muitas lágrimas e novos empregos se perderam. Por último e já fragilizado pela abstinência, sentiu-se mal a ponto de querer morrer. Todos estávamos com ele e dos que juraram amizade eterna, só alguns poucos como sua mulher, filho, mãe, pai e dois ou três amigos, acreditaram nele e não o deixaram. Uma, entre tão poucas mãos que a ele eram  oferecidas, se destacou para envolve-lo num abraço tão forte e verdadeiro que o meu amigo, antes senhor de si e de todas as situações, prostrou-se de joelhos aos pés do seu salvador. Era a mão de Deus que sem dizer uma palavra o abraçou para com ele, como estão ainda, caminhar pela estrada aonde só os puros, os "limpos" de quaisquer vícios, caminham. Atrás dos dois, nós. Nós todos em procissão torcendo e orando enquanto caminhamos. Antes, só pensávamos nas armadilhas da abstinência, mas agora, com passos mais relaxados, seguimos os que vão na frente com os quais falamos sobre tudo e qualquer coisa, até sobre drogas, mas sem tirar do horizonte os olhos secos das lágrimas, porém iluminados pela esperança.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

BURACOS NO CÉU.

    Dia chuvoso o suficiente para provocar pequenas e médias turbulência ao voo que nos levou à Bahia de Caetano, Gilberto Gil e Jorge Amado. Um voo com turbulência bastante para  os comissários me negarem a água que eu pedi. Quanto ao lanche habitual, ah, esquece.  Isso à ninguém foi servido, mas em compensação na volta eu degustei as maravilhas da aviação do meu país, mesmo o avião sacudindo a bebida em minha roupa e a minha filha flutuando no ar como ela mesma disse com seu jeito de criança. Tirado o entrevero entre o solo e o infinito, sobrava em muito, a vontade de chegar e se possível o mais depressa à terra prometida.  Prometida por mim aos que acreditavam no sol a pino, na cor morena das baianas exalando beleza e no peixe frito a beira mar, sem que nos esquecêssemos da dupla que nos brinda a cada vez que algo destilado lhes é servido.         Quanto a chuva, esta nos acompanhou através dos aeroportos,  rodovias, cidades, bares e principalmente pelas praias aonde o acarajé quis fugir do prato para se esconder do frio. Os camarões fechavam-se em arco  como se pudessem  evitar os primeiros goles de cachaça por quem deles não tirava os olhos. Os frios, no entanto, foram dignos de elogios como os queijos de várias procedências, salames tipo italiano e afins. Cerveja gelada para os entretantos  e vodca e cachaça com limão e gelo para esquecer do tempo. A criança não tirava o olho das poças d'água enquanto a mãe, a moça dos olhos de todas as cores do verde, deitava e rolava na tapioca de carne seca, desejo trazido dos tempos de menina.
    Eu já não sei se gostei mais do sacolejo do avião ou da nossa liberdade em relação ao trabalho e a outros compromissos, e não diria, jamais, que os homens daquela terra não ficaram desconfiados com a minha presença. Talvez por eu ter dito, brincando, é claro, que baiano não tem pressa. Não tem hora e não faz outra coisa senão descansar seu corpo numa rede além da hospitalidade e da boa educação com as quais tão bem recebem
    Acredito que foi um pouco de inveja da minha parte, confesso, mesmo que disso eu não me arrependa de ter dito.
              -Al e esposa, a vocês, um beijo e obrigado pelo presente. Não vou porque não posso, mas se pudesse não esqueceria da companhia sempre graciosa, do cuidado com a gente e do sorriso permanente como que desenhado nos lábios de vocês.

domingo, 18 de novembro de 2012

PÉ NO CHÃO, CABEÇA NAS ESTRE-LAS.


        Eu não tenho muita certeza, mas talvez viaje agora, hoje ainda, e se não der, amanhã sem falta ou depois para não perder as passagens.  Não deverá passar desta semana, mesmo que todos   tenham ido,   já que vejo as malas da turma prontas no corredor a minha frente.  Talvez  fique por onde eu vá ou quem sabe, nem volte mais, pelo menos durante os cinco primeiros anos da minha partida.  Eu acho que  me cansei da forma como tudo foi feito  até agora.   O resultado tem sido aplaudido pelos meus pares, mas não é o que nasci para fazer. Talvez, quem sabe, a mudança de ar, a renovação parcial dos amigos, uma nova residência, a escola pros filhos e a perspectiva colorindo com novas cores o horizonte da minha mulher,  sejam a pulsão da mola para novas conquistas, novos embates e novas vitórias.  Preciso, eu sei,  terminar cada matéria  com a mesma alegria dos atletas olímpicos rompendo a fita de chegada.  Eu preciso cravar fundo a bandeira do meu País no ponto mais alto das minhas exigências, da minha fé e da maneira como eu aperfeiçoei o que  a faculdade me ensinou.  Eu quero escrever todas as cartas que estão em branco, mesmo que somente algumas eu poste nos correios de forma que um terço possa chegar ao destinatário e que sejam lidas, uma, pelo menos, entre poucas, por aquele que não entende o que eu escrevo.  Eu quero, porque preciso,  pichar um pedaço de cada muro. Quero dizer com desenhos o que eu penso desse mundo escuro e por que eu me formei  nesse monastério. Eu, talvez não tenha como realizar todas as minhas vontades, porque, querer é possível para quem sonha, mas o poder é só para quem domina os pesadelos. Dizem que o sol nasce para todos e que a sombra é só para quem tem aonde se esconder, mas no entanto esquecem que é durante a noite que as estrelas saem para passear, para festejar com os namorados e para se mostrar a todos os astros que como eu não desistem, mesmo tendo parado para engendrar novas ideias.        

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

POR ELA

          Eu insistia, puxava assunto, desejava-lhe sorte, dava bom-dia e ela, introspectiva, fingia não perceber. Talvez fosse bem casada e a sua vida um mar de rosas virgens, amarelas.  Enquanto a minha que tinha tudo para me deixar feliz, enfeitiçou-se  com a imagem em três dê, da criatura.  Mulher de linhas certas, corpo desenhado a lápis, peitos fugindo a realidade dos padrões e um par de pernas de   fazer pecar os monges. Ela era o feitiço do pajé. Era o fruto maduro fora da estação e linda como flor alguma desabrochou.  Agora, no entanto, eu preciso de um momento, nem respirar eu quero ou posso e como  o cão à espreita da caça não pisca, eu nem pensar, para não perder a concentração, me atrevo. Só os meus olhos, estáticos, hão de observá-la caminhando em minha direção para perto, o mais próximo de mim, passar sem notar que eu estou ali. Escapar ao meu olhar, fugir de mim e se duvidar, dos meus pensamentos,  do meu olfato, das minhas tentações eu não creio que seja o seu desejo; ela simplesmente sabe que eu não existo.
     Um ano eu vivi a sua espera. Muitos meses eu ardi em febre por causa dela e enquanto a minha vida se esvaía na sua indiferença  ela desfilava as linhas tortuosas do seu gingado sem reparar  nos aplausos dos meus olhos.
- Quem sabe eu não sou melhor do que pareço(?) e mesmo assim mendigo a  migalha do seu olhar, a sobra de um sorriso distorcido que me faria dar saltos de alegria e  em troca eu lhe sorriria mesmo que a minha presença não fosse por ela percebida e como da corte sorriem os bobos, eu teria orgasmos múltiplos de felicidade; por causa dela.                                                                                                                                            (Foto da Internet).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

AO VIVO E COLORIDO.

Tudo me fazia acreditar que as roupas tinham sido rasgadas antes de desnudarem o corpo  de sua dona. Esse ato impensado talvez tenha sido praticado por quem não pudesse perder um só minuto que fosse,  mas tinha (quem sabe?),  desejos exacerbados, talvez planejados e compartilhados entre os dois.  Desejos que confundem a gente, que roubam a razão, que machucam, cegam e as vezes ferem de sangrar até morrer.  Talvez  as roupas fossem tiradas por ela ou por uma força maior para jogá-las,  cada peça, num canto diferente.  Umas por sobre a  poltrona, outras na cama enquanto as mínimas se espalhavam no tapete pelo chão. Um pé de sapato na entrada da sala e o outro embaixo do sofá, no quarto.  Este poderia ser um sinal de que o tempo era pouco para grandes feitos.  Esparramada na cama com os braços em forma de cruz e as pernas levemente flexionadas, abertas como um pasto verde depois da chuva,  jazia de costas, inteiramente nua,  uma belíssima mulher.  Cheiro de gente, Martini com cereja, vodka, limão, sussurros e gritos reprimidos,  audácia, gozo e medo.  
Lá fora a sirene da polícia, do Corpo de Bombeiro,  ambulância,  pessoas gritando, acenando,  e o pavor arrepiando a medula. Porta de saída aberta, traçada rota de fuga e as pernas, minhas longas e magras pernas prestes a fugir tão logo deixassem de tremer, e no entanto;  Sarah Menezes, Arthur Zanetti, Thiago Pereira, Alison e Emanuel, Esquiva Falcão, Mayra Aguiar e felizmente muitos outros, agradeciam os aplausos exibindo as medalhas de ouro, prata e bronze que traziam de Londres dependuradas no pescoço.  Passada a carreata o  silêncio tomou todo o espaço, meus olhos arregalados não perdiam de vista o belo corpo estendido à minha frente. Aos poucos foi movendo cada perna, mão e braço, ligeiramente abriu os olhos para fechá-los feridos pela claridade.  Espreguiçou erguendo toda a sua formosura e se dispôs sentar na cama. Tirou dos lábios o sorriso de festa e num gesto, sem pressa, pegou o  lençol esquecido no outro lado do leito. Nele embrulhou-se  para presente, mas não sem antes perguntar meu nome, o que eu queria e de onde eu vinha como se todas as perguntas pudessem, com uma única resposta, atender a sua curiosidade.
- Eu? Eu sou o sonho que amadurece  rejuvenescendo  o homem. Sou o futuro e o presente, sem passado. Sou o sol brilhando com a lua, as estrelas molhadas de chuva e a sombra colorida. Sou você na teimosia dos desejos e você,  a mulher que todos gostaríamos de ter ou  pertencer se cada um pudesse acordar no sonho quando se tiver o direito de sonhar.  
Ela ouviu sem perder da face o ar das curiosas. Perguntou a quanto tempo eu vasculhava as suas curvas  e antes  que eu pudesse responder o lençol  escorregou exibindo, outra vez o belo  corpo, enquanto nua acariciava os pequenos, mas duros seios. Tive medo ou vergonha do meu estado de ereção.  Coloquei a mão no bolso, curvei meu corpo e mesmo antes de cair da cama eu despertei daquela doce ilusão.  (Foto da Internet).

domingo, 4 de novembro de 2012

NEM MENINO e NEM MENINA.

           Brigas constantes e a separação dos pais talvez influenciassem negativamente na formação da personalidade de um filho, mas nada colabora mais para a homossexualidade, se não for genética,  do que um pais omissos.  Aqueles que não conversam, orientam e até puxe a orelha quando necessário.  Indispensável, seria dizer, que o aplauso às pequenas vitórias, por menores que sejam não tem preço. A criança que tem traços ou se comporta como menina, necessariamente não será gay no decorrer de sua vida, mas sente que trilha caminhos estranhos. Não existe só uma causa  que determina a homossexualidade. A igreja, por exemplo, ao atribuir o fato ao demônio discrimina a criança e consequentemente aponta o dedo para os pais como se esses afrontassem a sociedade a vergonha. Eu posso afiançar que um bom punhado de gente não sabe ou não tem  observado que a criança pode transferir sua libido para o homem – seu   pai – ou à mulher – sua mãe.  É tênue o fio onde nossas crianças se equilibram. 
    Todo o cuidado no tocante ao modo de tratar com a futura mamãe e a maneira dela reagir com relação a todos os problemas durante a fecundação do óvulo, a gestação do feto e a criação do filho é pouco, mas ajuda sobremaneira.      
      - Nós, aqui em casa, temos alguns livros de Charles Darwin, outro tanto de Lacan, Jung, três de Piaget e 24  de Freud, e em um específico, Sigmund determina a postura de cada um de nós diante da vida. Pai ausente ou pouco afetivo, assim como, mães dominadoras e possessivas, costumam consolidar a figura do gay na sociedade.
    O menino com este perfil, tão logo atinge a adolescência é assombrado pela crise existencial e só a presença de um terapeuta, e daquele que tomou o lugar do  pai, que teria morrido, abandonado a mulher e o filho ou mesmo quando presente, mas não está nem aí para a família, poderão ajudá-lo a se entender e com menos sacrifício exercer no futuro as atividades que a vida impõe. Isso sem contar que  também faz parte de uma sociedade formada por pessoas maravilhosas, mas que tem na sua maioria pessoas preconceituosas,  machistas, hipócritas e homofóbicas.   
      Dos onze aos 18 anos é quando o jovem começa a se questionar.   Enquanto o amigo quer levá-lo para jogar bola  ele quer levar o amigo para a cama. No grupo de sua relação todos falam de meninas, mas ele, sem jeito, cala ou sofre por fingir ser o que não é. O conflito é grande e muitos se perguntam por que as garotas não os atraem, mas os meninos, sim? A tentativa de suicídio voa em torno das possibilidades da criança que não vê apoio nos pais, nos parentes e nos poucos amigos. Conversar com ele alguns até conversam, mas ouvi-lo, entendê-lo, aceitá-lo, poucos ou ninguém. Os pais deveriam fazer exame de consciência para descobrir o quanto colaboraram para esta situação. Deveriam lembrar-se das farpas trocadas, do silêncio na hora da fala e das ofensas na hora de calar. Não é só a genética que determina quem é gay ou deixa de ser.
       Eu, silvioafonso, fui criado da forma mais natural possível; fui levado pelos meus pais a alguns cinemas, vários passeios,  joguei  futebol enquanto meu pai babava do outro lado do alambrado e algumas vezes dei e levei porrada  dos moleques na minha infância. Eu, no entanto, tento mudar, não a linha da vida e muito menos o rumo dos rios, mas já que eu quero e posso, vou ajudar o meu filho com a minha presença sempre que ele olhar para o lado a procura de um amigo.  Quero participar da sua vida  com  o melhor dos meus sorrisos, com as mãos prontas para aplaudi-lo até nos  seus intentos mais bizarros, e os meus braços escancarados para o abraço verdadeiro e mais sincero. Tirarei dos armários todas as portas que possam ter, pois criá-lo dentro de um deles eu jamais  me permitiria e se a arte final não sair de acordo com o projeto, eu o amarei do mesmo jeito como eu sei que me amariam, caso eu não fosse o resultado positivo de um estudo tão audacioso.