quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAUDADE QUE MATA.

       Foi assim quando Elvis morreu. Depois foi a vez do meu pai e a morte se mostrou burra naquilo que faz.  Elvis embalou os meus sonhos no colo de minha mãe. Bastava que ela cantarolasse, Pocketful of Raimbows baixinho junto ao meu rosto para que eu tivesse o mais calmo e bonito dos sonhos. 
      E o meu pai?  Ah, esse não tinha defeito. Meu pai foi o primeiro a dizer que eu não precisava dançar, forçar uma garota a fazer o que não quisesse só para mostrar para os amigos que eu sou homem.   Meu pai foi um garanhão descoberto pela minha mãe, sua primeira e última namorada. Com ela ele teve os filhos que o destino achou que merecia. Viveu com a gente o suficiente para nos ensinar o que era esperança e dignidade. Hoje ele se encontra sozinho numa cova rasa, só para ficar mais perto dos pés da mulher que amou  quando ela fosse visitá-lo. Nesta data eu os sinto namorando. Ela abraçada as flores e ele, certamente, extasiado com o perfume e a presença delas.
      A morte é isso. Um poço de injustiça e crueldade. É matreira, mentirosa, indesejável. Quantos marginais, inimigos da sociedade já foram alvejados de morte pela polícia e estão por aí distribuindo maldade sem que a morte ouvisse pelo menos o estampido dos tiros? Quantos bebês saudáveis têm morte repentina para desespero dos pais e indignação dos médicos? Esses são os perfis da morte. Eu queria que ela nos fosse útil e que não vivesse por aí tirando, tão somente, a vida dos outros. Que ela tivesse a dignidade de, pelo menos,  nos brindar matando as dores do abandono, as dores da criança com fome, do velho sem esperança e principalmente a dor do amor, e para terminar com a cabeça e o nariz erguidos, que ela se matasse enquanto a gente, em festa, morreria de felicidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

NOS TORMENTOS E NA ALEGRIA.

      Eu sou daqueles que olham as estrelas, mas  só veem a luz ao invés dos astros. Sou um cara que não vê a chuva  melancólica, mas a fonte do viço, da vida. Eu não vejo a rosa como um 
punhado de
 pétalas protegidas por espinhos, mas uma flor para acalentar a vida e abrandar a dor da morte. Eu não vejo o pranto como rastro de sofrimento, mas uma forma bucólica de escoar a
 tristeza do corpo e a
angústia da solidão. Hoje, porém, eu precisava me manter na cama, deitado e se possível dormir o dia inteiro com a cabeça e os pés cobertos  até que a minha alma retornasse ao próprio
 corpo.  
Eu queria, se possível fosse,  deitar pela janela o meu olhar mais distraído e mesmo que os prédios vizinhos me bloqueassem a vista, fingir que via os barcos de velas coloridas
 riscando de branco o azul do mar.
      Hoje eu não queria ver e muito menos saber de nada que não fosse as ondas se esparramento na areia dorada da restinga. Eu não queria entender otempo, as horas e 
muito menos saber se vai dar praia ou vai chover, porque o 
que eu quero, de verdade, 
é poder chorar até desidratar meu corpo, ficar lerdo, bobo, perder o tino, pois
 assim, eu creio acabaria o sofrimento. 
       Talvez a minha agonia tivesse aumentado por saber que a mulher que divide comigo as tristezas e os momentos de alegria  me olhou daquele jeito.  
 Seus olhos 
eram como duas esmeraldas banhando de verde toda a  minha lanquidez.  
 Perguntas não seriam necessárias já que os seus olhos decodificavam dos meus tudo o que eu sentia.       (Foto da Internet).
     

domingo, 21 de outubro de 2012

DO VIRTUAL PARA A CADEIA LÓGICA

        Existe muita semelhança entre as redes sociais e a roleta russa.  Roleta russa é aquela brincadeira irresponsável que alguns idiotas fazem depois de colocar uma bala no tambor e rodá-lo, aleatoriamente e com o cano junto ao ouvido apertar o gatilho esperando não morrer. 
     Mas, voltando às redes sociais; você fica ali, esquecido da vida  rabiscando alguns poemas  para o blog ou batendo um papo interessante no MSN com as amigas, se não estiver azarando, é claro,  o cara que você acha mais interessante. Fica ali visitando as páginas das amigas, compondo versos e quando menos espera, pow! Lá vem um espírito de porco atrapalhar a sua vida. Esses caras chegam como quem não quer nada, vêm de mansinho como uma doença, no sapatinho, como diria o Palhaço Poeta.  Chegam com aquela conversa mole, até que são adicionados, exatamente na página que eles escolheram, enquanto você, pobre diabo, tem a sua vida conturbada por uma pessoa que nasceu para fazer mal aos outros. Essas criaturas, vampiresas da felicidade alheia, conquistam, prendem, julgam e ferem de morte os sonhos e a esperança de qualquer um. Eu só tenho que lamentar quando isso acontece.      Conheço alguns casos, inclusive já aconteceu comigo. Eu usava o Orkut para conhecer pessoas e esquecer a vida corrida que eu tinha. Foi com aquela ferramenta que eu conheci o amor. O primeiro e verdadeiro amor da minha vida.  Ali eu descarregava as minhas angústias, os meus medos e os sonhos para cuja realização eu tanto batalhei. Tudo ia bem até que a minha página foi clonada.  Eu jamais enviaria textos para um estranho com tanta intimidade, como fizeram no meu nome. Puseram palavras na minha boca que a minha educação, em tempo algum, me permitiria dizer. Sabedor da minha aflição, meu filho que é da Polícia Federal e que nasceu com a missao de dar sentido a minha vida, tomou para si a minha dor e não sossegou até que localizou e prendeu os gênios da Internet que, agora, ensinam informática aos seus "maridos", na cadeia.
- Frustrado  deletei a página aonde conseguira a sorte grande. Foi através do bate-papo do Orkut que eu encontrei uma linda e meiga mulher cujos olhos pintam de verde a esperança e as matas e ainda por cima me dá o privilégio de dividir comigo o teto, a mesma cama e a sua vida.
      Com o passar do tempo eu acredito que as coisas se acertarão. Os sabidos ficarão mais comedidos e os outros, talvez não chorem tanto.                                                                                            (Foto da Internet).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ROUBOU, MAS NÃO CARREGOU.

         Uma bofetada estalou na cara de Vera que não resistindo a tamanha agressividade caiu aos pés da antiga amiga sujando a roupa, ferindo a alma. Marcelo era legal.  Terceirizado de uma banca de jornal cujo emprego o permitira conhecer as pessoas do bairro que o respeitavam e o admiravam pelo seu comportamento e empenho no trabalho. Há cerca de três meses admitiu que fosse amigo de uma das freguesas cuja intimidade permitiu-lhe confidências e aos poucos alguns abraços. Mais tarde vieram as conversas mais relaxadas até que os beijos não tardaram, e por fim a cama. Pensavam se casar assim que ele terminasse os dois últimos períodos de jornalismo que cursava.        Carmem era possessiva, mas respeitava os caras com quem ficava e a eles pedia o mesmo sentimento. Marcelo, por sua vez, não deixava de ser simpático e gentil com todos, mas Vera, petulante como era, mal ficou sabendo que sua amiga namorava o jornaleiro fez de tudo para roubar dele a atenção e os carinhos e dela, o namorado.  Depois de muito insistir, combinaram  um encontro para um papo despretensioso num horário vago   entre o trabalho  e a primeira aula que teria.  Achando que mal nenhum havia  no que fariam os dois se encontraram na praça de alimentação do shopping da cidade aonde conversaram entre um chope e outro.  Vera prestava atenção no que Marcelo falava, mas como o barulho era alto e dele não queria perder uma só de suas palavras, praticamente se deitou no seu ombro enquanto segurava a sua mão entre as pernas do rapaz. Por descuido ou por maldade, Vera, suavemente tocou-lhe os lábios com um dos dedos e o beijo logo depois. Como Marcelo demonstrou espanto e tentasse se levantar para ir embora, algumas pessoas ligadas a sua namorada se apressaram em  colocá-la a par dos acontecimentos. Carmem, indignada e cheia de ódio procurou pela falsa amiga e a esbofeteou na frente de todos enquanto gritava a traição por ela sofrida.
Hoje, seis meses do fato ocorrido, Vera recebe o convite de casamento da antiga amiga com o homem a quem ela pretendia se entregar para afrontar a outra.
    Escondida na multidão que tomou o salão da igreja Vera viu que Carmem a procurava entre todos, mas nunca ficou sabendo se era para receber das mãos da noiva o buquê ou se era para vê-la sorrindo o sorriso dos justiçados pela  própria coragem de defender o que é seu, sem, ao menos, se dar conta do estrago que poderia fazer.                                                (Foto da Internet)

domingo, 14 de outubro de 2012

VALE QUANTO PESA.

           

    Quando a sua mulher decide que vai perder 30 quilos em seis meses, você já pode imaginar o inferno que se tornarão as suas vidas. 
- Nas primeiras refeições o pão quentinho de todas as manhãs não terá mais a manteiga e o queijo derretendo em suas bocas. O bacon frito e os ovos mexidos que recuperam as energias empreendidas numa noite inteira de jejum e sexo, sumirão de sua mesa. A linguicinha, os apetitosos salgadinhos e os petiscos que acompanhavam as cervejinhas nos finais de semana, assim como o bife à milanesa e os doces da sobremesa que vocês tanto gostam, não mais farão parte do cardápio, entretanto as folhas e os legumes das saladas os farão lembrar das lagartas magras que comiam a planta, e dos gordos elefantes consumindo brotos. Os sorvetes de sabores mil serão trocados por um picolé de limão que talvez amenizasse os desejos de quem tomava um cascão de três bolas cobertas de chocolate. Água, muita água durante o dia e chá verde meia hora após cada refeição substituindo o refrigerante. Duas colheres de chá de gengibre ralada para dar sabor a água e acelerar o metabolismo enquanto o dia inteiro ela falará sobre o que deve ou não ser feito para o almoço e o jantar.
Comer de duas em duas horas e fazer sessenta minutos de atividade física serão o suficiente para torná-los exaustos e desanimados para o sexo de todos os dias. Em compensação dentro de seis meses ela estará mal humorada, sim, porém fininha como uma linha, enquanto você não passará de um cara estressado e rabugento pelo peso que não perde, mas ela, quem sabe, poderá se apiedar de você e o forçará a comer menos do que comia e se exercitar em dobro, e caso você não concorde com a ideia, um pé na bunda certamente vai lhe dar. Aí você cairá na realidade e para não perdê-la comprará aquela roupa ridícula dos fisioculturistas e se matriculará em uma academia. Fechará a boca às delícias da cozinha, aos chopes, escondido com os amigos, e viverá dependurado na balança como carne de porco, enquanto ela o perseguirá lembrando que as 24h de sofrimento e amargura pelas quais passou para conseguir a perfeição do corpo, conquistada, já é, pra ela, a maior felicidade. Talvez por ter conseguido o seu objetivo é que ela tenha repousado as armas com as quais lutou, mas esquecida, porém, que bastará um pequeno descuido para recuperar todos os quilos que perdeu, enquanto você, riscando nos próprios lábios o sorriso da vingança a envolverá nos braços gordos, porém fortes, aquela que o tirou do sério, o engordou pela ansiedade e até o fez envelhecer de certa forma, mas o terá, como tinha; gentil, companheiro e feliz.                                 (Foto da Internet)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

PEÇONHA.

      Eu sou amigo de um sujeito que viveu calado a vida inteira. Poucos sabiam dos seus passos, dos seus risos, suas dores e de seus  amores. Tão pouco deixava que vislumbrassem  seus sonhos e as  fantasias que tecia.  No momento em que achou conveniente virar  a página  da vida,  o fez,  mas deixou transparecer  alguns dos seus antigos vícios e costumes. Pronto, isso já foi o bastante para que  seu nome fosse mencionado em editais, citado em versos e prosas, por quem pouco ou quase nada sabe das letras que lia e da  própria vida e ainda cria ser deus entre os sábios que o cercam.  
- Desse jeito deve ser a vida, e desse jeito pode ser a morte.   Alguns poucos se preocupando consigo e muitos cuidando da vida de todo mundo, já diria Palhaço Poeta. 
     Certa vez eu conversava com pessoas da minha relação, quando pude observar através dos gestos de outras que mesmo não dizendo nada me deixavam perceber que não estavam sendo verdadeiras com as demais e isso me deixava curioso. Por que se relacionavam com aquela gente e o que delas  pretendiam com tanta falsidade? Só um olhar mais apurado, como o que eu consegui naquele instante,  para ver brilhando nos olhos de alguns o desejo de riqueza e de poder, de soberania e divindade.       Neles também vi morrerem sonhos  e bocas querendo gargalhar enquanto  cuspiam  inveja. Eu reconheço que estas  minhas palavras soam para alguns como um grito de socorro e de perdão, quando na realidade seriam para não deixá-los calar, como calou a vida inteira o meu amigo do começo deste texto que carregou nas costas  o peso morto de certas amizades pensando ser a cruz a ele confiada.                                                     (Foto da Internet)

domingo, 7 de outubro de 2012

FELICIDADE NÃO TEM PREÇO.


     Ele era alto, magro, loiro dos  olhos claros.  Ótimo humor, educado, muito bem empregado,  e se isso não fosse tudo, era solteiro.  Quem não gostaria de ter um homem desses na sua vida, nos seus braços, na sua cama?  Pois eu, que pouca coisa pedi a Deus, tive e dei a ele tudo o que achei que merecia.  Foi uma vez. Nada além de um encontro casual, um sorriso proposital, depois um barzinho com música, pouca conversa e muito chope, e mais tarde uma dúzia e meia dos melhores e mais variados beijos. Depois uma esticada pela noite e o acordar no outro dia na cama dele.  Era tudo o que eu queria se isso fosse permitido a uma garota do subúrbio, filha de operário e que ainda sente na boca o doce sabor de haver passado no vestibular.  Com ele foram momentos inesquecíveis, únicos.  Eu já nem sabia se queria  ficar sozinha  com ele ou sair para mostrá-lo a todo mundo, principalmente as minhas amigas.  
    Hoje faz quinze dias que nos vimos, ficamos e curtimos a vida como se fosse aquele momento o derradeiro de nossas vidas.  Há duas semanas que, se eu pudesse não me levantava daquela cama.  Queria ter ficado ali sentindo o seu cheiro e o tocar suave de suas mãos nos meus cabelos, no meu rosto, nos meus seios e coxas e nos meus lábios o roçar gostoso de sua boca.  Queria, mas não pude, já que a vida não pode parar.  Agora, por exemplo, o que eu sinto faz parte da minha felicidade; é a menstruação que mesmo tímida  umedece as minhas pernas tirando as minhas forças e me deixando enjoada, em cólicas.  
   Esta é a primeira vez que noto  o meu peito inchado.   Sinto vontade  de ficar deitada, porém me levanto para  um xixi amigo cuja vontade não passa ou o faço aqui mesmo, no leito.  Tenho, talvez pela felicidade a mim proporcionada, vontades extravagantes, absurdas,  como só as princesas têm.  Eu quero a qualquer hora do dia ou da noite, comer coisas que normalmente não me apetecem, mas quando as consigo, o cheiro me enjoa, me mata.        
     Tudo mudou na minha casa, na minha vida.  Em quinze ou vinte dias deixei de gostar do cheiro dos perfumes porque todos vêm me causando ânsia de vômito.  E se tudo isso não bastasse, eu me sinto um balão cheio de gazes o que me obriga a ter cuidado com os arrotos e outras consequências.   
     Amanhã, se eu tiver um pouco de coragem, vou ao médico.  Espero que o mal seja passageiro, mas se a cura implicar no bloqueio da felicidade que o príncipe me causou,  vou sugerir que o doutor faça o milagre da reprodução me transformando em duas para que eu possa suportar o mal-estar que sinto agora.           (Foto da Internet).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

UM RIO QUE PASSOU...

       O amigo mostrava uma foto e falava da pessoa como se ela fosse um exemplo, uma deusa, uma santa. Falava com tamanho enlevo que o outro acabou se interessando por  conhecê-la, mas para isso precisava ser apresentado à modelo da fotografia.  Através das redes sociais a coisa aconteceu e em poucas semanas usavam o MSN para trocar  ideias e confidências.  
    Ela, moça bonita e recatata, tinha a vida dos provincianos, enquanto ele, instruído e inteligente,  a de um recuperado cafajeste.  Muito tempo não passou até que,   às margens de um rio que cortava a cidade dela, puderam se ver e se tocar, como pretendiam.  O dardo de cupido, cuja ponta  envenenada em mel os fez  amigos, e depois mais do que isso,  tornaram-se  marido e mulher  combinando entre eles  dividir  o teto. Foram felizes na relação com os amigos e com o trabalho, mas na cama era quando melhor se entendiam.  A química  era tamanha que transavam a qualquer  hora, de dia ou de noite, sempre que possível.  No entanto,  nela, o rolo compressor do tempo travou a libido substituindo as suas vontades  pelas dores de cabaça tão normal na mulher que já não sente a mesma atração incontrolável que sentia. Menstruação sem hora de chegar e de ir embora, sem falar no cansaço que de repente nela apareceu.  A felicidade de uma relação bem resolvida, mesmo que falsa, era o que encantava aqueles que os conheciam.  No peito do marido, entretanto, doía  a certeza do desenteresse  da mulher que antes não  se aguentava de tesão, mas agora reprime no companheiro a ereção que ele tem por ela. O tempo enrugará e curvará seus corpos. Destruirá a química de ambos e os tornarão irmãos, se antes não encontrarem com quem dividir a indiferença de um e a necessidade fisiológica do outro.      (Foto da Internet)