segunda-feira, 28 de maio de 2012

DESCANSAR PRA QUÊ?


          Em uma cidade pacata e por um preço razoável eu resolvi passar as férias da faculdade numa fazenda situada no  interior do meu Estado aonde o galo me acordasse nas manhãs bem cedo e ao entardecer com as galinhas eu fosse me deitar. Eu que vivo a agitação de uma grande metrópole queria me deixar ficar sob o azul de um céu durante o dia e as estrelas como companheiras ao anoitecer. Pensava poder ouvir histórias de antigamente na voz dos mais idosos e dentro do possível fazer daqueles momentos os melhores das minhas férias. Pura ilusão. Na primeira noite eu fiz parte de um grupo de moradores que se reunia para discutir as mazelas da política, falar de futebol, de homem e de mulher. O papo era amistoso e inteligente, talvez por isso varasse noite adentro.  Por volta das três, três e meia o grupo se desfez. Cada qual para o seu canto, enquanto duas das muitas moças ficaram para pernoitar conosco.
Dei boas gargalhadas. Cantei e até flertei com uma das pequenas que pra meu azar resolveu ficar para dormir.  Coisa boba, pensei com o meu umbigo. Amanhã cada um tomará um novo rumo e só as lembranças ficariam. Às 5 e meia  cantou o primeiro galo, mas eu ainda estava acordado. Não conseguira conciliar o sono com aquela troca de sussurros no quarto ao lado. Cobri os ouvidos com o travesseiro, mas nada adiantou, até que ouvi falar meu nome. Levantei as orelhas e as colei na parede. A curiosidade me fez entender que a moça com quem flertei assediava a outra que fazia jogo duro.  Forcei um pigarro e todas se calaram. Um riso, uma ameaça e depois um tapa provocou o vazio do silêncio.  Um gemido e o som de um beijo me levaram a espiá-las. Com o capuz do agasalho eu cobri meu rosto e bati, levemente, com o nó do dedo indicador na porta. Através da fresta, uma das moças  embrulhada num lençol fez sinal de silêncio e me puxou para dentro fechando aporta atrás de mim.  Na penumbra eu pude ver Isabella nua sobre a cama. A mesma garota com quem troquei olhares sem saber que ela também gostava de meninas. Aquilo me mantinha excitado, mas a minha presença era, talvez a única chance de Martha fugir dos beijos da parceira. Desolada Isabella cobriu os olhos com as mãos e chorou a própria sorte. Desolados ficamos todos quando as luzes se acenderam e os donos da casa me olhando de cima à baixo levaram as garotas para quartos separados e não sabidos. No café, pela manhã, eu pude ver e falar com todos, menos com aquelas que sumiram da fazenda depois de me roubar o sono e os momentos que, talvez, tivessem dado um outro rumo às minhas férias.

terça-feira, 22 de maio de 2012

MEXER E REMEXER.


     Eu tomei todos os cuidados que se faziam necessários. Selecionei os templates, copiei e colei no arquivo do yahoo. Escolhi o modelo do blog que eu pensava ter a minha cara e transferi pra lá todas as histórias que, a grosso modo, eu contei um dia. Tive a preocupação de guardar comigo cada um dos gadgets que eu, carinhosamente preparei pensando nos amigos de escrita e de leitura. Criei exposição de selos e de contos e às pessoas mais influentes eu  pedi a  sua opinião. Todas ou quase todas, eu diria, foram de aplauso e incentivo.  A maioria concordou com a troca e torceu por mim, mas, incrédula com a minha ousadia, uma outra amiga, mais despachada,  pediu-me desculpas e abriu o verbo. Falou das duas amostragens e confirmou a primeira como sua preferida. Talvez pelo tempo que a página permaneceu no ar nos tenha causado a impressão de facilidade no manejo, o que eu também concordo. A segunda, que entrou no ar esta semana é mais bonita e espaçosa, mas não tem a singularidade da anterior. Eu não deixei de gostar delas, mas me pareciam frias e tristes.  De qualquer forma eu já estava meio que enjoado daquele outdoor ali, parado e mesmo achando precipitada a minha atitude  ainda penso que errei, mas com o melhor dos propósitos. Talvez mais para frente eu encontrasse uma outra mais leve, mais completa e mais bonita. 
    Eu não estou feliz, mas também não entristeci por pisar errado com o passo pretendido. De ter falado com quem falei e entender cada palavra a mim endereçada, foi o que salvou do erro às minhas pretensões. Fiquei e estou agradecido com os tapinhas nas minhas costas e o sorriso de incentivo recebido, mas sem pretender desmerecer a colaboração recebida, eu, pela primeira vez, gostei mais de quem contrariou a maioria. Talvez eu não consiga dar ao blog a cara que tinha, mas vou tentar, mesmo trocando as minhas folgas pelo trabalho árduo da descoberta. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

SOL e CHUVA.


      Entre tantos problemas que atropelam o nosso dia a dia, felizmente aparece uma fresta na porta ou na janela por onde se pude forjar uma saída.  Foi assim nesse final de semana. Nós três nos concentramos no intuito de criar uma rota de escape e fugir por uma estrada que nos levasse ao litoral para um descanso que achávamos merecer.
- Foi sob uma barraca que do sol nos protegia onde sentamos a espera dos camarões que deslizariam de sobre algumas postas de badejo preparadas no capricho pelo gourmet do quiosque escolhido.
      Reuni o bando que me impedia de ver o que eu comia tal o vai e vem dos braços por sobre o prato em minha frente.  Meia hora de puro prazer e só não foi melhor porque o sol cedeu espaço à chuva que nos pôs em correria. Pagamos a conta sem dar conta do valor, pois qualquer que fosse ele, não seria alto pela felicidade proporcionada.  Voltamos à casa para tomar sorvete de flocos na beira da piscina enquanto o sol voltava soberano ao seu lugar.
     A noite chegou e o ar condicionado, confuso, não nos permitiu dormir.  A cada duas horas um de nós se levantava para aumentar ou diminuir o frio que fazia.
    Pela manhã um café com pão, manteiga e requeijão. Suco natural e frutas reforçavam a primeira refeição. Depois, sem pressa, praia. Sol a pino, cerveja pra refrescar e criar clima. Mulheres, moças e crianças, rapazes e senhores com suas mães ou também mulheres, curtiam o dia que às mães era consagrado.  Na panela de barro que chegava a moqueca borbulhava  enquanto um olho vasculhava o céu e o outro vigiava o peixe fazendo daquele instante um momento inesquecível de lazer.
     Às 17h voltamos à serra que em clima de inverno  escondia,  com o nevoeiro, toda a beleza da paisagem como que enciumada com a nossa ausência.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

SIMPLESMENTE, MARIA.

Foi nos seios de Maria que eu mamei a esperança da sobrevivência. Foi nos seios dela onde eu adormeci tão puro de maldade quanto puro era o doce olhar que por inteiro me cobria. Foi junto ao peito. No calor do colo dela que eu aprendi a primeira prece. Quantas vezes o azul dos seus olhos derretia lágrimas por sobre o meu pequeno corpo?  Poucas não foram as noites em que o seu soluçar  me  embalou o sono  e a febre apiedada  se esqueceu de mim.
Muitas e muitas vezes vi Maria choramingar a ausência do meu pai e quanto mais falta ele fazia, mais Maria me espremia junto ao rosto jovem e belo de mulher.
Foi ouvindo o palpitar daquele espezinhado coração que eu aprendi a compreender o tempo de cada coisa. O tempo do cultivo e do plantio, do colher e do armazenar para não faltar. O tempo de agradecer aos que, com ela, resistiram sem perder a fé no trabalho que premente se fazia.
Maria foi uma doce criatura. Não tinha sonhos, talvez nem tivesse vaidade. Era mulher de honra e de trabalho. De coragem e ousadia. Acordava cedo para madrugar na lida. Lavar, passar, cozinhar e cuidar para que os filhos não desgarrassem rumo aos perigos da rua, da marginalidade, dos vícios. Cuidava da ninhada como a galinha-choca dos ovos, cuida. Como a leoa da cria, a gata dos filhotes, como da roça, o lavrador.
Café da manhã, uniforme engomado;  Escola. Almoço, marmita embrulhada; Trabalho. Café da tarde, jantar; Formatura
- Assim foi a vida sofrida de Maria que levada nos braços, quase carregada devido a artrose, adentra ao enorme pavilhão de uma universidade pública aonde orgulhosa vê seu último filho, depois dos já formados, o mais novo, se tornar doutor.  
- Missão cumprida, Maria.
Quantas e quantas noites tu sofrias ao lado dos filhos que em véspera de provas não dormiam? Quantas orações ao te deitares tu rezavas para eles  esquecendo-te de ti?   Quantas vezes tua barriga reclamou de fome enquanto um  filho faminto, que chegava a noite do estudo e do trabalho, comia do pão o seu último pedaço?
Missão cumprida, sim.  Tão cumprida que os teus dias de força e de coragem, de viço e de beleza, como provam as fotos amareladas em cada canto dessa casa,  sucumbiram aos pés do tempo que pintou de rugas a bondade de tua face. 
- Maria era o nome dela, que felizmente ainda vive. Nome de valsa e de coragem, de conto de fada e resignação. Nome de santa, de água pura de nascente, de céu azul e noite estrelada. Nome de quero te amar enquanto vida eu tiver.  Nome doce,  nome de mãe,  que se esqueceu de ser mulher.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

TEM COISA QUE O TEMPO NÃO DESGASTA.

Eras tu. Eu tenho plena certeza de que eras tu a mulher que se banhava nua do outro lado da rua sob os raios de prata dessa mesma lua que de vergonha ainda não surgiu. 
Casebre de pau à pique, telhado baixo de sapé. Paredes de estuque esburacada pelo tempo, que rente, remete a gente aos tempos de antigamente.  A gente era jovem e eu, moleque ainda, saia cedo e voltava tarde para ganhar o pão de cada dia sem mesmo pelo cansaço, perder um dia de escola. Foi em uma dessas noites que eu resolvi atravessar a rua e na tua porta fui buscar uma palavra de consolo por ter trabalhado duro e nada conseguido. Foi o barulho da água caindo que me chamou para junto da porta do banheiro e sob uma luz trêmula de um candeeiro eu vi a silhueta de um corpo jovem como eu, mas bonito como manhã de primavera, nu, a se banhar. Eu tive um misto de vergonha, desejo e medo, mas guardei como segredo até que nós crescêssemos e eu pudesse te contar. Dizer sem receio, sem vergonha, do como ficou o homem diante daquele quadro. Uma bela mulher que a nada temia, que sozinha cuidava da tia e no banheiro só o meu olhar, nenhum pano lhe cobria o corpo. Ela tinha a graça de todas as garças, de um cisne leve como a brisa sobre as águas calmas de um lago frio. Vi muitos relevos e poucos pelos, mas devo te adiantar que o pouco que eu vi foi o suficiente para crescer em mim o homem de muito respeito e nenhuma coragem ou tu, naquele tempo não teria ficado sem ter no colo um filho meu, tamanho era o meu amor por ti e o desejo que aquela imagem provocou em mim.
Desejei teu corpo como o miserável deseja o pão. Sofri nos meus momentos de solidão, mas em tempo algum eu confessei o que vi, para ninguém. Confessei, no entanto, a  ti, por escrito, o motivo da minha partida. Por carta eu tinha sido informado que entre os aprovados eu fora agraciado para cursar uma faculdade do Estado. Felicidade sem tamanho, da minha família. Um sonho que eu ousei sonhar acordado. Motivo de festa e de lágrima. Chorei abraçado ao teu retrato e prometi a mim mesmo um futuro melhor, com teto de gesso e telhado à francesa, tevê com algumas polegadas, carro do ano na porta e você empilhada da criança, cada uma com a minha cara e o teu sorriso.  Não tive coragem de me despedir de ti, de dizer do meu amor e da minha dor em precisar partir. Não falei que te amava e não pedi que me esperasses, mas rezei para que tudo de bom te rodeasse.
De tentar beijar tua mão ou dos teus cabelos sentir o cheiro eu morri de vontade, mas não fiz. Do perfume de rosas como o que eu senti naquela noite quando fui te dizer que tinha feito um bom vestibular, eu jamais esqueci. Parti e estudei. Formei os sonhos de todos de minha casa e agora, mesmo que o anel que eu carrego no dedo me quebre todas as barreiras eu me sinto frágil e desamparado para bater na tua porta.    Sinto-me covarde para ouvir a tua voz me pedindo para entrar e entre o teu marido e a criançada arrumar um lugar para sentar.
- Bati leve com o nó do meu dedo na madeira velha e frágil de tua porta. Uma voz rouca seguida de tosse, pediu-me que entrasse. Meu coração descompassou  emudecendo na garganta a minha voz. Atrás de mim alguém vibrante, nervosa, gritou  meu nome e antes que eu me virasse atirou-se em  meus braços e entre lágrimas de euforia calou na minha boca o meu pedido de casamento, que foi aceito, com um beijo que nunca mais da minha boca descolou...