sábado, 28 de abril de 2012

CALA-TE BOCA.


       Eu tenho amigos que não gostam quando eu falo de política porque, segundo eles, eu omito os nomes, mesmo não deixando de apontar o sujeito da oração. Dizem que eu fujo do assunto que mais motiva as discussões. Que eu não falo dos altos salários pagos a quem não faz por merecê-los e dos nossos tão suados e minguados. Que eu deixo escapar a oportunidade de falar dos melhores médicos e das conceituadas clínicas aonde e com quem os prefeitos, senadores, governadores, ministros, deputados, que são os donos do Brasil, entregam as suas enxaquecas para serem tratadas, enquanto a gente chora o ente querido esquecido em uma maca num corredor mal iluminado e sujo dos hospitais do SUS.  Sobre isso, dizem eles, eu também não falo.
   Meus amigos gostariam, e eu sei disso, que eu discursasse  sobre o que envolve os  parlamentares e suas brilhantes ideias.  Sobre seus parentes milionários e sobre os que têm no seu nome poupudas contas fora do país; grandes iates, belas mansões, mas que não podem usufruir  desses direitos, pois são meros testas de ferro. Vivem à míngua, sem dinheiro para o táxi, para o lanche, quiçá para o trem. Essa gente deveria se lembrar que laranja só serve madura e descascada. Casca grossa, casca verde ou amarela, azul e branca talvez não tenha, mas tem o sabor do desvio da verba pública, das falcatruas e maracutaias, dos estelionatos que tiram da nação e de quem vive dos restos que lhe são permitidos. Pobre povo brasileiro, esforçado trabalhador, esperançoso, sofrido cidadão. Eu tenho certeza que isso é o que os meus amigos gostariam que eu dissesse, mas esta passeata não é de minha competência. O que eu poderia fazer seria sugerir  corda grossa para os que têm pescoço curto se enforcarem. O resto é com o povo. Só o povo muda as regras desse jogo.
      Uma vez ouvi o Rei do Futebol dizer que o brasileiro não sabe votar; como não sabe, Pelé, se todos os que lá estão ou que pretendem ingressar naquelas casas têm nas suas veias o mesmo sangue do pecado?
   Talvez seja por isso que os meus amigos gostariam que eu falasse.  Que eu fechasse  os olhos, cruzasse os braços, parasse as impressoras e gritasse todas as verdades para abrir os ouvidos desse povo que se faz de surdo.  
    Parar de trabalhar para reclamar é ou não é uma nova maneira de atravancar  o progresso?
     Bela contradição, diria eu, respondendo aos sorrisos de deboche.

domingo, 22 de abril de 2012

AUTOSSUFICIENTE.

       Ela é muito engraçada. Só gosta de homem de atitude, de pegada, valente e audacioso. Um sujeito que a receba com flores, com sorriso de mesura, mas que a pegue no colo antes de adentrar ao quarto. Um garanhão que se prostre  a seus pés e que abata com pujança  os seus desejos. Que a tome nos braços e a jogue na cama. Cavalgue o seu corpo e se deixe cavalgar por mais longa que seja a estrada. Que  morda sua boca e a possua de todas as maneiras. Que a esprema contra o próprio peito, que xingue com voz mansa, mas firme. Que a pendure no lustre e a faça brilhar com estocadas fortes   enquanto ordens dela receber.  Que a vença no cansaço, mas que eternize os seus espasmos. Que lhe bata com amor desde que nas suas pernas escoe o excesso de seiva que marcará em sua alma o rastro do pecado. Que suas mãos sejam de vermelho tatuadas no seu corpo branco, e dos seus sonhos, os mais devassos se  tornem realidade. E quando ela achar que tudo terminou, terá  tido a certeza de ser ele um macho contumaz. Um digníssimo, mas adorável cafajeste.  Nisso, um grito de; puta, safada, vagabunda a roubará dessa vertigem ecoando em suas lembranças enquanto risca nos seus lábios o sorriso do convencimento.
Mulher moderna, senhora dos seus desejos, de si e do mundo.

Definitivamente a mulher gosta, nem todas é claro, só as normais, já dizia o cronista Rodriguiano, de olhar o homem de baixo para cima, como que buscasse proteção no seu tamanho, e a ele se entregar para que fosse vorazmente possuída e depois negar a condição a que se prestou. 

- Eu não admito que pensem que a mulher seja inferior ao homem, até pelo contrário. A mulher é superior  e muito, mas na realidade finge que não é.                                    (Foto da Internet)

terça-feira, 17 de abril de 2012

DÚVIDAS.


   O que deve ferir mais; a bofetada que se dá ou o tapa que se recebe? Eu, sinceramente já não sei. Um ladrão seria pior que um grande amigo? 
- O ladrão leva da gente o que deixamos que nos leve ou o que nos descuidamos em guardar. Já o amigo nos rouba o tempo que nem sempre a gente tem. Come em nossa casa quando nada ou quase nada temos na dispensa e ainda sai com a nossa melhor roupa nos deixando com um sorriso deste tamanho, na cara.
Um bom salário, por exemplo, deve ser aquele que nos permita adquirir qualquer coisa, mas seria suficiente um bom dinheiro para comprar um transplante quando o sangue não combina?  Neste caso renasce o dilema: o que seria melhor; muito dinheiro na conta, bons e prósperos negócios ou ser pobre, morar mal, mas ter saúde e viver sendo chamado de bobo por escarnecer a qualquer tempo, a qualquer hora e por qualquer coisa? Não sei. Juro que não sei. O importante, no entanto, é que se tenha o que for de nossa competência, mas que tenhamos com honra e dignidade. Que sejamos pobres de dinheiro, mas ricos de elegância e compreensão. Que tenhamos o suficiente para comprar um simples pão francês, mas que o amor nos seja tão grande que consigamos dividir com quem nem força pra pedir, tem. Eu não sei. Definitivamente eu não sei o que é certo e o que é errado, mas ladrão eu até me permitiria ser, porém com uma condição; poder roubar o sorriso daquela moça. Roubar ou furtar um beijo um abraço ou mesmo o atrevimento de saber-me forte para o trabalho, rico de bondade e corajoso o suficiente para tê-la, como a tenho, nos meus braços todas as noites no alto daquele morro  aonde moram os que pretendem viver com Deus. É com ela que eu vejo em nossa casa as sobras serem maiores que o todo.  O todo que temos, que conseguimos com a honestidade da nossa lida e com o amor que une o homem à mulher e à família, mesmo que a dúvida ainda me confunda.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

PASSADA PARA TRÁS.


Foto da Internet.
      Ele a enfeitiçou com a primeira olhada que lhe deu. Talvez fosse por isso que eu não fiquei sabendo se foi com alegria rara ou tristeza profunda que ela o rejeitou na obsessão da forma inversa de transar. A invasão pretendida, ser possuída por trás, tatuava nela um absurdo medo de se achar  devassa, prostituta, vagabunda. 
Ser o primeiro a entender esta história, talvez eu não quisesse, ou quem sabe eu não pudesse, mas ser o último, esta pretensão eu não carrego. De qualquer forma eu comento o que com ela, dentre tantas talvez a mais bela, aconteceu:
- Lua alta num céu escuro arroxeado, estrelado de branco esquadrinhado, calor moendo e pele e sobre ela um vestido longo, solto, esvoaçante, rendado na barra.  Barra de renda redimensionada amarela de um azul limão mesclado num verde púrpura de viés, tal qual os ais noturnos das mulheres que se pensam resolvidas.  Vestido de alça solta que a toda hora deve ser suspenso para  voltar ao ombro ou se permitir mostrar  um par de belos seios, firmes, arredondados. Sandália baixa, rasteira de couro cru. Roupa de algodão por baixo da seda pura, mas por sobre a pele lisa de pelos finos cobria  o que não deve como se esconder o que a excitava mostrar pudesse.  Fala mansa no tom do arrepio. Hálito de bala doce de hortelã madura. Coxas roliças e pés espalmados. Pernas longas, macias  e entre elas um amor proibido que de tanto guardar desejos  não se permite gozar os  próprios orgasmos, os mesmos que a deita de costas ou de bruços, lânguida, solitária e triste, aos pés de uma paranóia que a mantém presa num velho e apertado  tabu aonde ela mesma se fechou.

sábado, 7 de abril de 2012

FESTA DA PÁSCOA.

Escorre fria a água pelo corpo quente embora nele estremecesse, ainda, o orgasmo proibido. Ele há bastante tempo queria e não podia. Ela, que o enfeitiçava, prometia e não cumpria. Esse jogo de pega e larga colaborou em muito para aumentar o desejo que um sentia pelo outro chegando a proporções  inconcebíveis.
Foi assim que ele, numa noite chuvosa, freou bruscamente o  carro   ao lado dela que, amarela do susto,  se viu abduzida para o seu interior. Ela estava sequestrada pelos desejos que provocava e deles se viu refém.  Peça por peça do seu corpo ela viu cair  enquanto as duas outras que o vale e os relevos encobriam, viu com a simetria de belos e brancos dentes, do seu corpo serem arrancadas.   Rasgaram-se em muitos pedaços as pequenas peças que grandes obras escondiam.  Duas elevações de belíssima vista,  e um vale de grama rasteira protegendo a umidade que brotava a cada desejo que sentia.  Enquanto se entregava como pasto ao voraz apetite dele, tomou ela entre as pequenas mãos a grande e pulsante peça e entre elas a envolveu.
Um seio escapou ao controle dele enquanto o outro era acariciado, beijado, sugado e por que não, mamado, sem tempo para terminar.  A mão, imprópria nas horas certas, varria do pelo eriçado o arrepio. Um entrelaçar de pernas, um grito de euforia enquanto ao regalo se jogavam por inteiros.  Gemidos de ais. Grunhidos de uis. Pranto de gozo. Riso nervoso e finalmente o soar dos clarins. Fogos clareando os céus e o dobrar dos sinos revoavam a passarada na madrugada fria e chuvosa de um domingo de Páscoa que surgia.

terça-feira, 3 de abril de 2012

COMO UM LIVRO ABERTO.

Quando quiseres saber da minha vida para entender melhor a tua, não procures noutras fontes senão nas minhas. Comigo saberás o que precisas e até das mentiras as minhas mais sinceras, já que eu minto como todos os mortais. Certamente eu discursarei sobre os melhores dos meus momentos. Direi das minhas honras, do respeito e dependendo até direi dos meus defeitos. Eu contarei o que quiseres. Falarei dos meus filhos, das minhas mulheres, e o farei olhando dentro dos teus olhos com o melhor dos meus sorrisos. Relembrarei, possivelmente a teu pedido,  os meus tempos de menino. Das minhas professoras e dos seus ensinos que de tão certinhos me envergonhavam por não saber obedecer.  Entre outras poucas coisas eu  esquecerei das peraltices, mas direi assim, meio que sem jeito, que em algum momento na escola uma medalha com orgulho eu ostentei no peito. Falarei também dos meus amigos, até dos que ficaram ressentidos quando eu troquei  os da esquina pela faculdade.
Umas coisas eu direi sem precisar enquanto outras ficarão por  comentar. Talvez até tu, te esquecerás de perguntar, mas eu, mesmo que me lembre, farei cara de paisagem para ver o tamanho desse interesse.  Algumas novidades serão ditas, outras esquecidas, mas de Maria não terei como não falar. Eu direi da guerreira de mãos limpas. De testa suada e boca seca. De panela vazia e peito cheio de esperança ou todos os seus filhos não teriam sabido o caminho da escola e se tornado cidadãos.
Portanto, pergunte a mim que sei tanto da minha vida que eu seria bem capaz de vivê-la novamente se a perdesse.