quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SALA DE TV...

O motor rasgava as águas num gemido rouco. Avançava na intenção da praia batendo as ondas na imensidão do mar. Buscava,  através dos caminhos que antes navegara na constituição de uma vida regrada, a conquistas e poucos amores uma lembrança esquecida no passado. Horas a fio exposto ao sol pintando o corpo de dourado. Onda entortando a proa aspergindo água salgada na cara, temperando a pele. Vontade de ver, de olhar de novo. Saudade do toque, do arrepio, do abraço sem jeito, do beijo molhado, da falta de vergonha e do respeito. Do sorriso escachado, das safadezas no leito. Duas horas sem escutar o canto das gaivotas. Só o roncar do motor se podia ouvir.Apeou do barco para estancar os passos na chegada ao jardim. Muito perto da casa, antes caiada, hoje sem cor, muitas flores brancas marginavam o caminho, e na entrada, uma leva de rosas amarelas. Borboletas que mais pareciam pintadas numa tela, verdadeiras aquarelas, voavam numa rota estranha em torno do corpo dela. Trazia na testa prendendo os negros cabelos uma fita amarrada, tal qual uma donzela. Braços cruzados debruçada na janela como há tantos anos a sua espera. Um grito, um tiro, correria. Num sobressalto vazou de onde se estendia. A cidade em silêncio, nada se movia, só a tevê no último volume, um filme de bangue-bangue exibia. Não fosse esse pequeno impasse, com certeza ele dormia.

sábado, 21 de janeiro de 2012

ASSIM VOCÊ ME MATA...

    No verso e no reverso de um lindo gingar de corpo ela enfeitiçava as mulheres e a pecar obrigava os moços. Foi com cheiro de rosas deixado num rastro de pétalas coloridas que passou por ele e no seu desfile olhou-o por sobre o ombro no fundo. No fundo castanho dos olhos dele. Olhar que, como um corisco que rasga os céus em noite de chuva, riscou-lhe a alma num arrepio de amor e desejo. Mais um que na armadilha do seu corpo se prende por mais que se debata. Tornou-se, desde então, um felizardo prisioneiro. Apaixonado escravo no porão da criatura que faz da sua escrita uma esparrela e do sorriso um cativeiro. Eu mesmo, por mais que me esforce gritando, é para surdos que eu me faço ouvir. Eu quero a liberdade que escapou ao meu controle. Eu preciso voltar a sorrir, a cantar, mas se o impossível acontecer, para que viver sem o teu cheiro, sem poder admirar o teu corpo inteiro, sem a lágrima do riso e do pranto, sem ti, sem mim, mas com a morte a me espreitar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

VERDE DE FELICIDADE.

Menos de sessenta metros quadrados tem o meu coração. Cinquenta, quarenta, talvez trinta metros, mas tamanho suficiente para oito pessoas viverem uma vida inteira num espaço de três curtíssimos dias. Um reservado para emergências e fora dele uma fila inteira de sorrisos pacientes. Uma sala e uma cozinha transformadas em leito aonde sonhos, quem sabe lindos, puderam ser sonhados. Pesadelos poderiam ter rondado o pequeno Arcanjo, mas não tão forte que o acordassem, que o removessem do seu mundo aonde o pega-pega, o pular de corda e o jogo de bola são tão comuns. Em um retângulo de três por dois uma cama e nela uma donzela, que como ela, só um anjo de dez anos para comparar e se não bastasse no arquivo morto o pulsar da juventude para compensar quem muito já viveu, mas não uma vida tão bonita como agora e que dentre os oito, foi quem mais se comoveu.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

EM NOME DE DEUS.

Olhou para trás, pediu desculpas pelo esbarrão que dera e, apressado como sempre, seguiu o seu caminho. Olha para onde anda, cara! Gritou para um jovem magricela que ao passar por ele, por pouco não derrubou as sacolas que carregava.Era nessa agitação, num corre-corre de tirar o fôlego que Zebedeu vivia a sua vida. Assim que saía para o trabalho era a cachacinha que dava ao jovem de meia-idade a disposição que muitos procuravam. Zebedeu mantinha um antigo hábito de chegar ao local de trabalho antes de qualquer outro funcionário e era com seriedade que ele, um cara brincalhão, educado, bom amigo e companheiro executava as tarefas a ele confiadas. Ele era o funcionário padrão daquela empresa e de todas por que passou. Sempre que as festas de final de ano acabam eu me lembro desse moço. Pessoa respeitada por todos que o conheciam. Lembro-me que foi numa destas datas que ele viu, gostou, ofereceu matrimônio que foi aceito e se casou com uma bonita e meiga moça da igreja. Foram dias felizes e ele que não sabia o que era tristeza acercou-se da felicidade verdadeira. Um filho no final do primeiro ano e outro no decorrer do terceiro deram à família maior respeito e mais amor. O pastor, porém, continuava sendo o assunto da mulher amada. Nas primeiras refeições e no jantar, assim como antes de dormir, ouvia as histórias da igreja e o nome do pastor com que ela martelava os seus ouvidos até que o sono o envolvesse. Era difícil saber dos lábios dela qualquer coisa que não lembrasse a igreja e a cada dia que passava, Zebedeu sentia o desânimo do quesito família apertar-lhe o peito. Amava a mulher, os filhos e a casa, mas sentia-se melhor no botequim onde falava do flamengo, time do seu coração, dos políticos ficha suja e da crise econômica do País. Para intercalar cada assunto, uma cachacinha caia bem, mas quando o assunto esgotava e a volta para casa se fazia necessária, a bebida o puxava para trás e era aos tropeços que deixava o bar. Assim chegava à casa onde a igreja e o pastor o aguardavam para punir o ser que ofendia a Deus com a bebida do Demônio. A bebida não era de Deus, mas foi Ele quem levou o cara mais feliz que os amigos conheceram. Todos sentiram sua falta e com ela o sorriso se afastou dos lábios daquela empresa, daquela rua, daquela gente. Dos filhos pouco fiquei sabendo, mas da viúva...
Bem, viúvo é quem morre porque ela se casou de novo e é feliz, feliz como estava ao tomar a vida do falecido em suas mãos e fazer dela o que foi feito; uma leve e boa lembrança.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DENTE DE SABRE.

Eu tentei a prevenção para não ter a surpresa que tenho agora. Fui ao dentista, troquei de profissional, paguei o que me pediram sem discutir preço e, no entanto estou assim, triste, constrangido. Caso eu não tivesse feito nada, se tivesse ficado aqui sentado a espera que a natureza corrigisse o que ela mesma destruiu, talvez eu não ligasse tanto, mas fiz o que qualquer um faria no meu lugar. Pena é que os profissionais que eu encontrei nesta cidade não tiveram a mesma sorte que eu precisava quando a eles o problema foi apresentado. Agora resta-me o silêncio. Calar é o que me basta e mesmo que insistam, através das palavras, hoje eu não me expressarei. Todos os dentistas estão de férias, só um protético restou para me socorrer até que a vida retorne ao normal, isso se o bumbo não anunciar antes o carnaval.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

AGONIA DE UM POVO.

Estou morando em Nova Friburgo há quatro anos e nos últimos dois convivo com o mesmo discurso dos responsáveis pelo serviço público visando os moradores ribeirinhos e os que têm, no pé do morro, as suas moradias. Nada foi feito para favorecer as vítimas das chuvas de janeiro passado que nos braços de parentes e amigos, sem casa, honra e esperança, há muito não sorriem. Agora eu tenho visto na tevê a defesa civil pedindo que fogueira nos morros não seja acesa para não rachar a terra permitindo, com isso, que a chuva infiltre e provoque desmoronamento. Acontece que o fogo ardeu, em secas passadas, no alto desses morros e ninguém do poder público apareceu para conter as chamas e quando agiram, o mal já se consumara. O trânsito é outra vergonha. Muitos carros estacionados em vias não permitidas bloqueiam a chegada dos turistas e a passagem dos ônibus com a mão de obra produtora. Os sinais, sem sincronia, o retorno em locais que não devia e o jardim da Paissandu, dão nota zero aos órgãos responsáveis. Friburgo não tem mais com que atrair turistas. Não fossem os compradores de lingerie e os representantes comerciais de outras praças e a cidade há muito teria parado, se não parou. Tenho hoje, em minha casa, um casal de escritores oriundo do Espírito Santo, sendo que Catia Helena Alcântara de Oliveira, com assento assegurado na cadeira 22 da academia de Letras de Santa Catarina é quem mais se indigna com o descaso.
Acreditamos em Deus e no poder público desse País, mesmo que o pouco caso berre aos nossos ouvidos toda a sua indiferença.