quarta-feira, 30 de novembro de 2011

DIA ESTRELADO

Vou fazer uma viagem de trás pra frente. Vou ao sol lançar um livro e comigo lá estarão a razão de tudo isso, o futuro e o presente, todos irmanados em um só movimento e quando a noite se fizer no sul do astro rei eu parto em direção à lua e de lá eu olharei através de todas as janelas, entre tantas, certamente eu descobrirei a tua e sem chance de errar te jogarei um beijo. Com a ausência da gravidade não deverá ser cansativo passar um final de tarde ou a noite, que seja, num barzinho de esquina da avenida quarto minguante com crescente. Caso a noite de natal seja a data escolhida eu quero festejar e um brinde levantar à boa viagem que fizemos, ao sucesso do livro e ao nascimento do pequeno grande rei, não sem antes caminhar, como quem não quer nada, por entre os astros, distraído, a procura de um souvenir, uma lembrança do lugar de onde a ti, na janela, eu pude ver a espera da banda do Chico passar. Também quero trazer, entre outras coisas a poeira de um cometa que ficou em minhas botas, um anel, quem sabe de saturno, que eu achei entre umas rochas e se tu não te importares, sentaremos ao pé da nossa porta, apreciaremos a lua mudar de quarto e depois pro nosso iremos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

TEMPO CURTO, MAS TEMPO BOM

Pouca, mas muito pouca gente faz ideia da exiguidade do meu tempo. Às cinco e meia da manhã eu já estou de pé para um banho, fazer a barba e o café. Café reforçado que levo ao quarto para compartilhar com a luz dos meus olhos, nossa primeira refeição. As sete saímos, eu e ela e na metade do caminho uma parte de mim é deixada para trás, já que os olhos que de verde pintam a minha vida desce para trabalhar. Volto vazio de tudo e cheio de mim. No escritório devoro os jornais em busca do assunto que mexa com a opinião pública para, num espaço previamente estabelecido, sintetizar e publicar o meu trabalho como cumprimento do acordo preestabelecido. Assim eu tenho passado boa parte dos meus dias e diferente só os fins de semana quando eu reúno as minhas mulheres e viajo para lugares possíveis e prazerosos. Neste final de ano muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo. A filha que o meu coração pariu se vê às portas da puberdade. Muita coisa está saltando do seu corpo para os olhos curiosos e o processo nos faz atentos. Sua mãe, a senhora de todas as montanhas, faz da família e principalmente da psicologia a razão de sua vida. Veste-se, alimenta-se e respira os métodos que a formarão, ainda este ano, doutora na matéria. As provas estão sobre a cátedra e tirar nota inferior a nove ela não cogita e isso nos faz babar de felicidades. Livros e malas desarrumadas com roupas dentro e fora são o que vemos pela casa. Tudo é nada quando chega a nossa vez e o alvo para os nossos dardos nos é apresentado. Agora, para a menina de quem sou pai e a senhora dos olhos da cor da mata, só me resta dar um jeito na casa de forma que andar, pensar e viver por aqui nos seja possível já que o resto depende do tempo. O mesmo tempo que massacra e que um dia nos permitirá sonhar...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

FESTA DE LANÇAMENTO

Fotos de Márcio Oliveira
Fotos do Márcio Oliveira
Fotos de Márcio Oliveira


Fotos de Márcio Oliveira.




Obrigado a editora Catiaho pela chance do lançamento e a festa compartilhada.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

PALAVRAS VAZIAS.

Tem vez que ele é comparado ao Faustão. Fala quando é a sua vez e na dos outros, também. Esta é a óptica da sua mulher que tem o dom do mediador. Pior para ele que foi alertado tarde demais e agora, com as interrupções feitas ao longo dos anos em cada uma das conversas que teve, não há mais como corrigir. Portanto, se você quiser falar alguma coisa, procure outra pessoa para conversar, mas se o que você tem para dizer for caso de vida ou morte, tente a sorte, já que o monólogo, com ou sem você, acontecerá. Eu também não fico longe disso. Na euforia sou até capaz de falar mais alto para que a minha fala prevaleça. Dificilmente alguém fica olhando, atento ao que foi dito sem que reste alguma dúvida. Muitos fazem cara de que tudo ficou claro e que dúvida alguma restou para confundir ou lhes tirar o sono.
Quando eu saí da casa dos meus pais e fui morar sozinho, notei que o respeito deles por mim cresceu a tal proporção que eu custei a acreditar. Eu ficava horas falando e eles, babando, olhando à cria sem saber o que falar ou certamente, não queriam interromper a minha prosa para não perder uma que fosse das minhas palavras. Em uma das visitas que fiz a eles, minha mãe me perguntou o que eu achava se ela mandasse cortar três árvores que margeavam o corredor do seu quintal. Eu não acreditando no que ela se propunha, fui contra, depois de argumentar sobre o benefício que uma jaqueira, mesmo que nova, uma caramboleira e um pé de mangas com suas sombras e frutos trazem para os que ali vivem. Minha mãe, emocionada, trocou as minhas palavras por um carinhoso abraço. Três dias depois as árvores foram cortadas por ordem sua. Isso me garante que nem sempre aquele que fica olhando as palavras sairem de sua boca tem o respeito pelo que você diz. É claro que minha mãe admira e gosta do que eu digo, mas quando a minha resposta não tem o sabor que ela quer, logo arranja um jeito de temperá-la a seu bel prazer.
Assim é a vida.
Assim são as pessoas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

JÁ É NATAL...



As lâmpadas, pequeninas luzes, como que distantes estivessem, piscam tal qual vagalume em noites quentes de festa. O peru vai do freezer ao forno e com ele o pernil e o chester. As castanhas, as nozes e avelãs, confundem-se na mesa contornando as taças de champanhe. O bacalhau, a rabanada, o vinho tinto, seco ou doce. Branco, verde ou rosé, para qualquer gosto ou prazer. Sapato na janela, hinos e sinos na capela. E as velas, preces e pedidos em torno delas que simulam o presépio de Deus. Licor com folhas de hortelã, Uísque com gelo, Martíni afogando cerejas de manhã no bar para os mais afoitos. Na sala, vovó de olhos lavados, molhados de choro, bonita, feliz e que tivesse chorado você nem diz. No quarto os presentes, cada um com o seu por que, envolto em papel marchê, fantasia com o nome de quem os merece saber. Bolas vermelhas, laços de fita na mesma cor adornando a pirâmide verde com galhos salpicados de neve tão breve dos países frios em nome da paz e do amor. Risos e guizos. Beijos e desejos a todo pano. Ledo engano pensar que em uma festa de fim de ano não se vive o suficiente para eternizar os desejos e dar a alma a sensação de infinito.

domingo, 13 de novembro de 2011

FIOS DA ALEGRIA

Em uma página, cuja hospedagem eu não me lembro, eu dizia de um par de fios, negativo e positivo, soltos dentro da gente e que, ao se tocarem, acendiam a lâmpada da alegria. Claridade essa que iluminava a alma e divulgava o corpo, criava sorriso para os lábios e brilho colorido no olhar. Coisas que a ciência não quer ou não pode explicar. No espaço em questão eu dizia do meu quarto aonde dormem as minhas alegrias e as minhas frustrações, o meu cansaço e os meus pensamentos. Foi naquele lugar, no encostar dos fios que eu senti a tristeza bater suas asas e janela afora voar com a tristeza e o pranto rumo à escuridão das trevas. Essa história de estar macambúzio agora e irradiante de felicidade daqui a pouco é coisa da eletricidade ou milagre de Deus. Seja lá o que for, o importante é que eles se esbarrem sempre já que uni-los em definitivo é coisa que a vida não cogita.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PACIÊNCIA/AMOR.

Tem dias que a gente acorda sem saco para certas coisas ou ele logo se enche por falta de cuidado com o manejo de certas pessoas com as palavras.
Eu sou meio que vacinado contra estas coisas. Para mim o tempo está sempre bom, nada me tira do sério. Coisa alguma me aborrece. Ontem um e-mail de uma pessoa, amiga, invadiu a minha casa, sem mesmo ter batido e voou-me no pescoço como um vampiro sedento de sangue. Agarrou-me pelos ombros e sem mais nem menos foi dizendo coisas que eu até já tinha ouvido de outra pessoa para uma terceira, mas felizmente não foi comigo que falava. Desta vez, no entanto, a coisa ficou pior porque o alvo daquelas flechas era eu. Tão logo me refiz do ataque, mostrei a agressividade com que fui ferido à minha amiga, mulher e companheira que, para desespero meu, ficou do lado de quem em mim batia forte. Ouvi, calado, o que as duas tinham para dizer. Calado eu estava, calado eu fiquei até que uma foi para o quarto enquanto o e-mail mal educado que invadiu a minha paz e fez a diferença entre mim e a mulher que amo, ainda assim sorriu na hora de ir embora quando para um sombrio túnel de onde veio alçou seu voo e se escondeu.
-É, depois dessa, só um banho de mar para descarregar...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

OLHAR DE MARIA.

Ela cuidava quando precisava ser cuidada. Era caprichosa quando o capricho deveria partir de quem com ela dividia a vida e se entregava de alma levando consigo o corpo a fazer vontades, cumprir desejos, questionáveis obrigações. Sentimentos mal distribuídos, pensamentos mal compreendidos e essa maneira de achar que o homem nunca vai deixar de ser criança. Mulher com espírito de menina. Senhora que se esquece de suas vontades, suas vaidades e suas angústias, que se conserva mãe a vida inteira, mesmo que seja de um senhor maduro, se ele for o seu marido. Senhora com olhar de santa. Mulher com os olhos de Maria.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

OBRA DE ARTE.

Eu sei bem como são essas coisas. A gente pinta um quadro e quando ele vai a uma vernissage ficamos meio que aflitos a espera do primeiro interessado. Fica-se encantado com os elogios e apreensivo quanto aos conselhos, mas o que interessa, de fato, é a presença crítica do primeiro comprador que reconhece na sua obra o seu talento, o seu valor. Com o escritor não é diferente. Tão logo o lançamento é feito, forma-se o burburinho para, só então, surgir a fila dos possíveis compradores. Enquanto isso não acontece, as horas se arrastam, o tempo não passa, mas deixa envelhecer o sonho que talvez tenha sonhado para rejuvenescer no esgotamento da primeira edição. Todas as artes, em todos os tempos, têm história parecida. Como não sentir o frio na barriga no momento do sim que antecede o bater do martelo e a afirmativa de, vendido? Como responder perguntas se a obra é fictícia, mas se parece com a história de vida do leitor? Talvez isto seja tudo, mas se não for alguma coisa, pelo menos será uma letra a mais em uma página que compõe o livro da pessoa.