quarta-feira, 28 de setembro de 2011

LER PARA APRENDER



Talvez não fosse essa a primeira vez em que mergulhei em uma piscina cheia de livros. Na primeira vez foi quando a puberdade ainda modificava o meu corpo criando o homem que sou hoje. Naquela época eu já recebia salário pelo que fazia e cansado de esmolar por um certo livro de Monteiro Lobato na biblioteca da escola eu jurei que um dia teria dele todos os seus contos e todas as suas histórias. Finalmente chegou o grande dia. Tomei um belo banho, passei um creme no cabelo, vesti a melhor roupa, beijei a mão da minha mãe e com porte de gente adentrei a livraria que antes, só de longe pelos funcionários eu era visto. Cheguei junto ao gerente e pedi; Eu quero toda a obra de Lobato. Isso mesmo. Eu quero comprar a obra de José Bento Renato Monteiro Lobato.
Foi com ele que eu aprendi a gostar de ler. E ler livros era de tudo o que eu mais gostava. Só não aprendi a escrever, mas tento e por isso rabisco algumas linhas. Uma das muitas frases desse gênio da literatura eu guardei comigo. Eu até podia mudar de série, de escola, de diretor e professor, mas a frase de Monteiro Lobato eu não mudava, não trocava ou dela esquecia. Vivia na minha cabeça e constava na última capa de cada um dos meus cadernos, e dizia; Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Eu não moro, mas há muito eu morei sob o telhado de um livro. Comi sobre outros e de muitos e vivi.
Hoje, como comecei dizendo neste texto, adquiri todos os 24 livros de Freud. Sigismund Schlomo Freud. Chega de procurar por um exemplar onde eu pudesse estudar ou fazer uma consulta, simplesmente. Chega de pedir e ouvir um não como verdade, ou um, depois eu te empresto, como mentira. Agora eu vou tomar um banho de conhecimentos. Vou mergulhar nessa banheira e esfregar sabedoria no meu corpo e se eu me engasgar durante o banho, será com letras, com frases e sonhos.
Este fato deixou-me, deveras, feliz e como dizia o velho Klein, meu avô; hoje eu estou feliz. Estou alegre e satisfeito, ao mesmo tempo.

sábado, 24 de setembro de 2011

       Hoje é sábado e como em todos os outros eu deveria estar no Rio de Janeiro com a família. Mas como o meu voto foi vencido, ficamos em Nova Friburgo, no alto dos nossos 1.080 metros acima do nível do mar. Aqui é legal. A Natureza está em contato permanente com a gente. Toda a beleza deste local é natural, principalmente depois que os nossos governantes receberam uma gorda verba para a reconstrução da cidade e por não saberem como lidar com tamanha fortuna, resolveram não fazer nada e esquecer o assunto. Os pontos turísticos que antes encantavam os visitantes, não existem mais. Só o clima frio, a água limpa, o povo e o ar puro predominam e asseguram aos turistas, que o passeio vale a pena. Aquele que preferir passar um dia em contato com a natureza, ver moças de pele branca e rosto corado, rapazes de bom porte atlético e roupas transadas, que venha para cá. Caso queira conhecer o último grito da moda íntima e comprar lingerie, também poderá fazê-lo pois somos considerados, de uns tempos para cá, o polo da moda íntima. Os maiores exportadores de camisolas, cuecas e biquínis do Estado, quiçá do País.
Sendo assim eu não vejo outro jeito, vou aproveitar para namorar a minha mulher, curtir a filha dela que já é considerada minha e ler alguns livros que acabaram de chegar e entre eles a obra completa de Sigmund Freud.
silvioafonso.

domingo, 18 de setembro de 2011

POR VOCÊ.

As estações do ano nos apontam o momento certo da preparação da terra, do plantio da semente e da colheita de suas flores e seus frutos. Não fosse a inclinação da terra no seu eixo e essa possibilidade que mais parece um milagre que uma coincidência não existiria. Doze hora seriam da mais pura claridade e o restante de absoluta escuridão. Os sábios, assim como os estudiosos cientistas se perguntam; como essa graça poderia ter acontecido? Quais os motivos teriam forçado o planeta à esta inclinação para que, tal qual um trôpego embriagado, girasse em círculos por tanto tempo? Talvez ninguém em sã consciência se atrevesse a responder, mas um bêbado que nada tivesse a perder com o compromisso da resposta, acredito, ousasse, como eu. Na dúvida se deveria parar ou continuar seu giro, a terra resolveu pender para um lado encurtando o espaço entre ela e a base onde deveria apear o ser que naquela data se dignou nascer. Ar condicionado e lareira, assim como flores e frutos não existiam para aquecer ou refrescar o ambiente daquele que nascia. Flores para decorar sua vida e frutos que permitissem o crescimento, também não tinham ali. Foi nessa data, nesse dia, quiçá nesta hora que você nasceu. Por você o mundo se rendeu e dele surgiu o grão, as folhas de mil tons de verde, as mais lindas e perfumadas flores e o sabor do fruto que me agua a boca. Hoje é o dia do seu aniversário, Paula. Parabéns pela festa que você merece, talvez nem a tenha. Por esta data tão querida de todos que a cercam, pela inclinação da terra e pelas estações do ano que delas o inverno é a sua preferida.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

EU NÃO DISSE ADEUS.

Foram estas despedidas que abriram no meu peito esse vazio, pois dali vazaram alguns dos meus melhores sentimentos. Algumas lembranças felizes e a imagem imaculada das minhas intenções não resistiram, bateram asas e com eles foram embora. Talvez houvesse em contraponto com os não da minha infância uma razão para o fraquejar das minhas pernas. Quem sabe não ficou no fundo do meu coração algo que a despedida não tenha corrompido para que eu pudesse, quem sabe um dia, voltar a sonhar em ser feliz? Muitos adeuses recebi e muitas lágrimas eu verti em troca. Muitas outras despedidas aconteceram em minha vida com o silêncio da morte, com a partida de um amigo ou a viagem só de ida de um parente a quem eu muito quis.
Os meus primeiros mestres muito cedo me disseram adeus. Os mocinhos do cinema galoparam tela adentro para fugir de mim, mas deixaram nos meus sonhos as suas aventuras. O Tarzan, a Jane e a Chita. O meu avô, a minha avó, o Antônio da Bianca, o Bahiano do bar, o Marrom, meu compadre e o meu pai tão querido e invejado. Todos se foram, sendo que alguns me permitiram vê-los, mas despedir de mim, só a sua ausência foi capaz. Hoje eu tenho medo do tempo que apressado vai deixando em nossas vidas o registro de cada época. Algumas pessoas têm boas ou más lembranças e outras de nada ou quase nada se recordam. Todas, porém, estão curvadas, de uma forma ou de outra, pelo cansaço, e a cada dia que passa vão, enfraquecidas, ficando para trás.
A ordem natural das coisas me afiança que é preciso que haja uma boa reserva de lágrimas porque idosa, bem velhinha, mesmo que lúcida e aparentando felicidade em cada riso, gestos e beijos, a hora da minha mãe dizer adeus está chegando. Eu adoraria não deixá-la partir, mas se ela se for antes de mim e eu chorar por mais tempo do que a minha vida inteira permitir, eu juro que será a última vez que eu vou falar do tempo. Da vida. E da morte.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

VOO SOLO

Não adianta porque não vou me perguntar aonde foi que eu errei. Não vou sofrer por ter tentado e mesmo que tudo tivesse dado certo, como parece que vem dando, que eu vou deixar o meu lado perfeccionista me cobrar por algo a mais que eu deveria ter feito, mas não fiz. Foi assim com a criação dos meus filhos. Eu não sabia aonde enfiar a minha cara quando descobriram que eu não sou o super-homem que a eles eu disse que era. Que eu não sou imortal, como a eles jurei um dia. Que não sou o melhor dos pais, mas sou quem mais os amou e isso eu provo a cada instante. Eu tentei porque achava que conseguiria que tivessem caráter, que respeitassem os fracos e não rissem dos inválidos, oprimidos. Mas se tivessem que chorar, que não fosse em causa própria, mas pelos que não têm lágrimas, pelos que sofressem ou não soubessem que chorar não é vergonha.
Eu apliquei todos os conhecimentos que os meus pais um dia me passaram na criação dos meus meninos. Caminhei com eles para que soubessem que andar com um pé de cada vez é possível, mas com os dois juntos só manteremos o corpo inerte e esquecido. Mostrei-lhes o que era honra. Ensinei-lhes a sorrir sem melindrar e formei com eles um castelo com as letras da nossa língua. Um dia eu vi que o corpo deles emplumava. Que já tinham forças e desejos próprios e foi aí que eu abri a gaiola do meu coração e os deixei que fossem. Voaram em direção ao sol, deram rasantes perigosos e a noite pousaram no mesmo galho aonde eu construí o nosso ninho. Tudo estava certo. Tudo saia melhor do que eu planejei, mas o tempo trocou-lhes a cor das penas. Mudou os anseios e as vontades, assim como a rota pra onde iam. Mudou a cor dos meus cabelos, a elasticidade da minha pele e o amor por cada um dos quatro filhos que deixaram vazios os seus lugares na minha mesa no jantar. Não é sempre, mas tenho tido deles notícias doces, meio sem sal e até salgadas eu já recebi. Não foi para estas dúvidas que eu os quis a cada um. Não constava do meu planejamento que sofressem, que chorassem ou quem sabe um dia, que morressem...