segunda-feira, 25 de abril de 2011

DOCE CAFAJESTE.

Ele era um conquistador barato aos olhos de alguns, porém caro aos que a sua beleza se rendiam. Era loiro e alto, magro e bem falante com o poder de amenizar na paz do seu sorriso a tristeza de quem as esperanças havia perdido. Sua vestimenta era sem luxo. Calça social e camisa de mangas longa, dobradas, aberta no peito. Este era o seu habitual. Nos pés, sapatos engraxados sob meias de algodão. Nos lugares em que chegava o riso da inveja tomava o canto da boca de algumas mulheres casadas e de todos os rapazes. Moças solteiras e comprometidas davam um jeito de ver de perto a impressionante figura e ao acharem que com ele chance não tinham logo colocavam defeito aonde não podia existir.
O rapaz, mortal como todas as criaturas, caiu de amores por uma donzela. Uma linda jovem de 19 anos, filha de imigrantes alemães e irmã de dez outros entre moças e rapazes. Era sem nenhum medo de errar, a mais bonita da família.
O rapaz procurou o pai da jovem e a pediu em namoro. O velho concordou desde que se casassem naquele ano. O jovem tentou uma aproximação furtiva, mas pelos irmãos dela foi escorraçado. Tentou encontros a sós, mas ela se negou e como não achava jeito de burlar a vigilância da família, ele se prestou ao impossível e marcou a data do casamento. Nas vésperas da cerimônia tentou se aproximar o suficiente para beijos avassaladores e amassos que levassem a possíveis bolinagem. Nada disso a família permitiu ou ela assentiu. No outro dia a festa estava pronta. A igreja enfeitada, convidados e padre apostos enquanto a noiva adentrava à casa do senhor. Todos estavam lá. Menos o noivo. Não apareceu nem para dar satisfação do seu ato ou mandou alguém para fazê-lo. Naquele momento a noiva descobriu que o casamento seria uma farsa, um embuste. Seria um golpe para que ele tivesse em sua cama a moça que virara a sua cabeça, mas casamento não estava nos seus planos. Um dia antes da festa ele tentou, e caso o ato se concretizasse partiria, iria embora, como foi, mas sem levar em sua boca o sabor do mel daquela virgindade.
A vergonha imperou e por mais de dois anos as caras ele não deu. A família, menos a noiva, não queriam saber dele e nem o seu nome era ventilado dentro daquela casa. Tempos depois um cavaleiro apeia no terreiro próximo a cozinha, prende as rédeas do cavalo no tronco a isso destinado e grita o nome de Maria. Ele avança porta adentro. Segurando o chapéu no lado esquerdo do peito, junto ao coração, joga-se de joelhos aos pés da moça que tremia de emoção. Tirou o embornal do ombro e de dentro sacou alguns papeis que davam como pagas as despesas da igreja na celebração do casamento e o aluguel do salão de festas.
Jurou que se casaria no primeiro sábado da primavera daquele ano e assim, sob a desconfiança de todos o meu pai se casou com a minha mãe. Foi a redenção do cafajeste. O mais belo e doce de todos os cafajestes abandonava as armas da sedução e ao julgamento e a pena que teria de cumprir ao lado da mulher que amava, se entregou.
Maria, tu tinhas que se chamar; Maria. Eu acho que todas as mulheres predestinadas a dor do amor deveriam se chamar Maria. Maria de todos os encantos, de todas as lágrimas, de todos os colos e de todas as esperanças...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

PRESUNÇOSA

       Andava com os olhos no chão quando um grito de mulher a roubou dos pensamentos. Uma garota de presumidos 19 anos puxava um velho para dentro de um casebre a beira de um caminho ermo, quase deserto. Martha, curiosa como é a maioria das mulheres, escondeu-se atrás de um arvoredo na esperança de saber o por quê da garota falar com o velho daquele jeito se nem força ele parecia ter para fugir. E os gritos da garota não paravam: - porra, cara! Tu é homem ou não é? – Essas foram as últimas palavras que Martha ouviu até que o silêncio tomasse conta do lugar. Nem o zumbido das asas de um mosquito se podia ouvir. A tarde afinava os últimos acordes do dia quando Martha resolveu espiar pela janela. Do lugar em que se encontrava, Martha, ouviu alguns gemidos. Na ponta dos pés a enxerida viu o velho, aquele que antes era humilhado, transando com a garota num sofá. A jovem parecia ter um adestrador de xucro sobre si, tal a esperteza dos movimentos dele. Agora era o velho quem dava as ordens – então, não era isso o que tu querias? Então, tome! – Dizia o velho sem demonstrar qualquer cansaço enquanto ela se mexia, gemia, xingava e sorria ao mesmo tempo. Martha descuidara-se do tempo, da honra e da vida. Nervosa com o que via já não se reconhecia. Agora era ela quem tinha o corpo ardendo de desejos, não pelo velho, mas pelo que via ao vivo e a cores. – Meu Deus - pensava ela, como pude invadir a privacidade de alguém, mesmo que a minha intenção fosse de ajudar? – Antes que Martha se desse conta um mulato alto e forte apareceu não se sabe de onde. – O que você está vendo é o que vem acontecendo com esses dois, ultimamente. – Disse o recém-chegado junto ao ouvido dela. Na mesma hora a parceira do coroa pediu ao mulato, a quem chamou pelo nome, que levasse a namorada para eles conhecerem. Martha, pelo visto, não teria escapatória se conhecesse ou fosse reconhecida por alguém, o que não era o caso, por isso decidiu por entrar no jogo e dependendo do que rolasse, talvez pudesse tirar algum proveito. A calcinha era a última peça que ela tinha no corpo quando enxergou a grandeza daquele homem. Era uma coisa que a garota só via nos seus sonhos e principalmente nos seus pesadelos. Martha mal comia, mal dormia, pensando num sujeito assim, para companheiro. E foi sem pensar no que pudesse acontecer que se atirou de joelhos na frente daquele deus a quem suplicou que exorcizasse os desejos que tinha no corpo. Martha não queria saber o que o outro casal fazia, se a exultava ou se dela ria e sem tirar da boca o pecado que cometia, olhou para o mulato com olhos de santa e sobre a vaidade do rapaz ela sentou a sua enorme fé.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

JÁ PRA CASA, MENINO!

Talvez eu não entenda o porquê de ter passado tanto tempo, talvez uma semana, longe dos seus braços, do seu abraço e desse olhar dengoso da mãe lambendo a cria. Como pude roubar dos seus carinhos esse tempo precioso que tirou da sua pele o frescor das flores e esmaeceu a cor violeta dos seus olhos? Como eu pude me furtar ao privilégio de dormir aninhado no seu colo ouvindo dentre todas as verdades a doce mentira de ser eu o mais querido e o mais bonito entre tantos que dividem, comigo a preocupação do seu amor? Para um pai o tempo não caminha, rola ligeiro sobre rodas. Para u’a mãe a vida não tem pressa, estagna. É um barco fundeado em águas rasas onde as gaivotas moram. Mãe não tem uma vida pra dizer que é sua, mas tem muitas, diversas, em casa, no meio da rua ou por onde andar um filho que se diga seu... Foi aí que eu pequei. Foi aí que eu errei ao trancar dentro de minhalma as melhores recordações e longe, distante dos meus olhos a meiguice de sua presença. Que bom que agora eu a vejo quando quero. Que bom que com ela eu estou agora ouvindo o brado coerente das suas palavras e sentindo sob o manto azul do seu olhar, o vigor de cada gesto. O tempo para a mãe não passa, diria ao pé do meu ouvido um anjo, e só por isso, o fim não se atreverá tão perto...


sexta-feira, 1 de abril de 2011

UMA LÁGRIMA, UM SORRISO.

Voltou correndo à casa aonde o filho ardia em febre. Devido a sua importância o local se transformara em um moderno ambulatório aonde médico e equipe não faziam outra coisa senão olhar o paciente depois de medicá-lo. Ninguém teve a coragem de dizer a mãe daquele jovem que o seu mal era de amor. Um toco, diria o velho Palhaço, um fora, diria eu. Nada havia de mais importante para aquele rapaz senão a certeza de suas conquistas, e aquele adeus não foi auspicioso à sua vaidade, ao seu amor próprio e aos que a ele queriam bem. Ela foi, enfim, tranquilizada por um senhor grisalho que nos hospitais levava o sorriso aos que só das lágrimas compartilhavam. Um braço sobre o ombro aproximou os dois. Ele, gentil, falou de coisas das quais ela nem se apercebia. Dizia do cheiro da rosa no final da tarde, do som dos passarinhos que em bando revoavam no cair da noite e da alegria das crianças pobres que mesmo sabendo que o papai Noel não conhecia o seu endereço, torcem pela chegada do natal. Ela baixou a guarda e por terra viu cair sua defesa. O cheiro do homem que fazia rir era contundente. Um misto de força misturado com suor e bondade. Um riso como cobertor de um corpo que tremia no frio de todos os desejos. Uma vontade louca de cair nos braços dele, não como uma pessoa frágil como se mostrava, mas como a mulher vibrante que em sua alma adormecia... A voz era calma e doce. Certeira como as flechas de Guilherme Tell e mornas como a chegada da primavera. Ela mal entreabriu os olhos e do homem ao seu lado sentiu o hálito confundindo o seu. Num gesto de loucura ofereceu-lhe os lábios e um meigo beijo viu ser depositado em sua boca. Ela pirou de vez. Esqueceu o motivo de sua indignação, de sua ida ao local aonde o riso se mostrava e se abriu em leque, em curvas e retas e se deu, não aos caprichos de quem ama, mas à vida que lhe era apresentada como o perfume de flor em manhã chuvosa e doçura de festa de criança. Um momento como nem os contos que escrevia faziam jus ou os versos rimavam parecidos.
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