terça-feira, 29 de março de 2011

É COMO EU SOU...

Tem vez que o dia acorda mais tarde. Tem vez que nem sair da cama ele se atreve. Tem época que o sol não dá as caras e tem vez que a cortina da noite não se abre nem para olhar, de soslaio, o delírio da plateia. A minha vida é assim ou pelo menos é assim que eu a tenho visto. Quando a moça dos olhos da cor do mar está por perto tudo é música, tudo é festa, tudo é flor. Quando ela está no meu raio de visão o céu se abre num azul de anil sem nuvens que me roubem a beleza de cada pétala, de um veio de água perdido na mata, dos campos, da vida. Quando ela, mesmo que por cinco minutos, como agora, não se deixa ver eu murcho. Fico sem ar, sem rumo, fico burro. Torno-me, enfim, o cara que eu nunca deixei de ser...

sábado, 19 de março de 2011

UM AUDAZ NO ESPAÇO.

Todo esporte radical serve de capa aos autoafirmativos.
Quantas vezes essa certeza me tirou o sono? Mais de dez, de cem, de mil vezes. Eu sabia que precisava provar a mim mesmo que por eu ter sido criado entre meninas -minhas irmãs, eu tinha que mostrar força, coragem e determinação aos que me conheciam e que eu era “homem” como qualquer um outro. O medo não me metia medo.
O paraquedismo, talvez, tivesse sido o maior e todos os desafios, porque a asa delta e o parapente, assim como o bang jump não me franziam o cenho. Hoje, nem tanto tempo depois, eu descubro que ser homem não é enfrentar a radicalidade do esporte, mas é enfrentar o perigo de não poder pagar o colégio das crianças, de resistir ao perfume de uma mulher que passa, de não chegar a tempo no trabalho e de não beijar a própria esposa quando sair e quando chegar. Enfim, ter coragem é não deixar de sorrir toda a vez em que pensar na mãe dos seus filhos. Estes são os perigos que eu poderia correr, mas felizmente já não me metem medo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

QUEDA LIVRE...

Treze mil pés acima da tua indiferença.
Levante a cabeça se as cores da alma me pintam de nuvem sobre os teus olhos e se a mim tu queres ver. O querosene que a mim enjoa é o mesmo que emudece o tic-taque acelerado no meu peito.
No alto, aonde planam os condores, o medo já não me abraça, e nem que a minha falta de sorte me leve à morte, eu só morro se te perder. Voo às alturas o mais alto que a nave possa me levar e à pressão a minha cabeça aquentar. Sobem aos quinze mil pés a minha angústia, a coragem, adrenalina. Do alto, neste azul, eu já não vejo a menina que se espreitava por detrás da cortina a olhar os céus atrás de mim. Nervosismo que dita ordem, esconde a coragem, arrepia a pele e num salto audaz caio no vácuo de mim, dos meus sonhos, da minha juventude. Um minuto, eternos segundos que podem me custar a vida se valor ela tivesse. Momentos de quietude que o vento quebra não me deixando perder o tino. Faz comandar o punho libertando o nylon que entre mim e o céu se agiganta em cores de arco-iris no resgate da vida e do valor que dou a ela.
No sacodir do meu corpo o equipamento me trava a queda e em direção do alvo o paraquedas me carrega.
Um giro sinuoso à esquerda e abro as pernas em "V" para vencer o vento. Sobre ti, menina fujona, eu puxo para baixo da cintura o batoque e freio no ar o meu corpo, piso a grama como os anjos pisam as nuvens, no macio solo que me esperava.
silvioafonso.

segunda-feira, 7 de março de 2011

VOANDO EU DESCOBRI POR QUE OS PÁSSAROS CANTAM.

A chuva fina que lambeu a noite por inteiro empoçava em certas folhas para que, de pingo em gotas, por toda a madrugada, martelasse como bigorna, à marreta martela, os meus ouvidos que dormiam.
Escala musical. Soldados marchando. Galo ao amanhecer do dia. O ritmo era igual. Um após o outro. Outro depois do um e o pinga, pinga num sem-fim dentro de mim.
Corpo moído, olhos de zumbi, boca que não fecha, cansaço no quarto escuro, tristeza dentro de mim.
Eu sei que não se trata de medo ou de saudade, mas da falta que a sua imagem representa quando estou sozinho de você. Eu tenho certeza que é neste momento que surge o depressivo eremita, que brilha o predestinado esportista radical; canoagem num rio caudaloso, pedregoso. Mergulho em alto mar. Um salto de paraquedas a quinze mil pés de altura com retardo de um minuto num tudo ou nada desigual. Uma escalada no Tibet num domingo de inverno ou um grito, chinês, de liberdade em plena Praça da Paz.
Bastava um oi no celular, um encontro fortuito, proposital. Um recado por um amigo ou um sinal de fumaça desenhando um coração e nada disso aconteceria. O meu amor teria as mesmas proporções, as mesmas alegrias e até o meu pranto só mudaria de por quê, mas não secaria. Tudo isso seria letal à tristeza e a incerteza de ser lembrado ou até mesmo amado até que o meu amor morresse dentro da minha alma que no passado da história ao meu corpo pertencia.

silvioafonso

quinta-feira, 3 de março de 2011

INSENSATO CORAÇÃO !

Foi diferente, encantador. Na saída da faculdade onde estudavam psicologia e eu caminhava os meus primeiros passos em comunicação, que elas escolheram para trocar ideias desprovidas de compromissos com alguém ou com alguma coisa. Foi ali que eu aprendi o que era beleza e que as duas tinham encantos parecidos, mas a morena...
Eram hipnotizadores os seus olhos. Seu corpo tinha o poder do serpentear. Os cabelos, negros como a noite sem lua, emolduravam e resplandeciam a graça do seu rosto. No verde água dos seus olhos parecia que crianças se divertiam deixando em festa tudo o que eles viam e eu até me senti a melhor de todas as criaturas quando o banho esverdeado do seu olhar atingiu o meu corpo por inteiro. Estático, paralisado, encantado eu fiquei como estou agora. Encantado como um passarinho ao alcance do bote certeiro da serpente. Eu estava ao alcance do mais puro e mortal de todos os venenos; o amor.
Todos os meus dias a contar daquele momento, nunca mais foram iguais. Tudo o que eu fazia ou se mostrava para que fizesse era razão para uma viagem; a viagem da minha vida ao melhor e mais bonito dos manicômios. Uma pessoa apaixonada precisa ter coragem de se deixar vestir numa camisa de força, e eu babava, não dizia coisa com coisa, comia mal e dormir eu não me atrevia. Ela, a Dra. de todos os nomes, mas de beleza inconfundível mudou a minha cabeça, tirou os calços do meu equilíbrio e fez de mim um palhaço abobalhado por este amor que manda prender e não deixa sair.
Hoje eu já não lembro se o amor divide, soma ou multiplica os sentimentos, mas sei que dilata o coração de tal modo que sufoca a razão, atormenta o siso e some, em quanto dura, com o juízo que escapa e não retorna.
Idiota, louco, sem amor próprio, vagabundo. Eu sei que tudo isso é rótulo, nada mais que adjetivos que qualificam os desqualificados, mas se depender de mover uma palha para mudar o quadro, eu me nego. Quero ser alvo de todos os risos, do deboche das crianças e rever os meus amigos de costas voltadas para mim. Quero desconhecer as pessoas de uma só personalidade, quero jogar pedrinhas na água, da beira do rio e rever a cidade do alto da Rua São Paulo. Eu prefiro chorar de saudade, contestar distância, mas deixar morrer o amor que me torna assim, Isso eu não deixo, nem que eu morra.

silvioafonso