segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ABENÇOADAS MÃOS...

Ele estava molhado e sujo de lama, seus pés sangravam dentro e fora da bota de borracha e no seu rosto a máscara da desolação. Foi desta maneira que ele foi visto no centro da cidade de Nova Friburgo controlando o trânsito que não tinha para onde ir num rio de água e lama. Que ele era um voluntário, disso ninguém teve dúvidas. Que ele largara a sua família e a segurança do seu lar para ajudar os que mais precisavam, poucos ficaram sabendo, porque o que importava para ele era ser solidário na hora da dor. Foi assim que ele mostrou ao mundo o sentido da palavra solidariedade. Ele não se importou se teria ou não o que comer, se encontraria um lugar para dormir, o que importava de verdade era a sua presença, a força que poderia dar ao mutirão e com a defesa civil e as forças armadas formar um exército de incansáveis anjos da salvação.
Quantas pessoas, como este jovem cidadão, estavam nesta luta em busca dos desaparecidos e dos muitos que perderam seus entes queridos debaixo de uma montanha de terra, de escombros de suas próprias casas? Essa gente não busca fazer parte da estatística que endeusa os heróis, busca, sim, auxiliar aqueles que viram os seus sonhos e até as suas vidas serem levadas pelas águas que encobriram a cidade, as casas e as vidas. Muitos tiveram ferimentos no corpo e na alma. Cicatriz cuja ferida não sara, não cura passe o tempo que passar.
Eu vi advogado, farmacêutico, gente rica e gente pobre sujos de lama ajudando a retirar corpos de sob paredes e telhados para chorar os mortos que encontravam e os que vivos da morte eram resgatados. Toda a cidade, o povo, o estado, o País e o mundo choram essa dor que não cessa, mas aos poucos por ela vamos morrendo.
silvioafonso

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

DEU BRANCO

Hoje eu fiz um texto para um dos blogs que eu gosto. Acontece que eu esqueci o que devia dizer e por isso eu me prestei a falar banalidades, coisa que de mim não é habitual já que eu não escrevo se de assunto eu não disponho. Comentei isso com a mulher que é dona de uma das duas alianças que eu comprei e ela achou que eu deveria me retratar com os leitores daquela página uma vez que eles não são da minha. Fiquei de pensar no assunto, mas como a moça da aliança acabara de voltar do banho eu não me furtei ao desejo de abraçá-la e daí para o beijo foi um fato complementar. Portanto eu beijei aquela boca, a mesma boca de todos os dias, de todas as horas. Pela primeira vez entre muitas e muitas eu beijei a mulher que eu amo com os meus olhos abertos e só então percebi como ela é bonita e com que meiguice se doava ao beijo, ao meu beijo. Beijo que não foi combinado, não foi roubado, mas um beijo de entrega. Talvez por isso um calor repentino envolveu a minha alma quando a dela é que deveria ser tomada. Em seguida uma dúvida travou meus desejos, será que o efeito de um beijo de amor pode ser interrompido sem que nada ao casal aconteça se foi ela quem se deixou levar ao leito onde o primeiro amor aconteceu? Ninguém foi consultado e mesmo que uma suposta resposta fosse sim, eu fingiria não ouvir, como não ouvi e a levei ao ninho onde enroscado ao seu corpo naveguei por entre curvas sinuosas e voltas acentuadas num leito de rio que deveria ser pedregoso, mas não foi. Que deveria ser caudaloso e pudesse virar esta canoa com a qual eu desaguei o mais próximo que pude na cachoeira da sua entrega numa quase morte, numa quase eternidade.
silvioafonso.

sábado, 15 de janeiro de 2011

DEUS E A FÉ.

Eu já não sei se dou graças a Deus por nada ter acontecido a mim e a minha família ou se lamento a sorte dos que buscam socorro num grito rouco. A minha casa é pequena mas sei que cabe você, portanto venha comer na minha mesa se tu tens fome, beber da minha água que mal não me faz e banhar o teu corpo como eu e a minha família banhamos o nosso porque esta casa onde eu moro não é só minha é tua também se é que eu mereço ter-te à mesa com os que te são caros.
silvioafonso

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A NATUREZA COBRA A CONTA.

Eu não quero justificar a minha ausência com os problemas que flagelam a cidade de Nova Friburgo, onde moro. Ficamos sem luz por três dias, sem telefone e até o momento não temos água potável. Ônibus não circulam. A população está em pânico, mas eu não quero usar isso como desculpa porque sei que tenho compromisso firmado com esta coluna que no momento se transforma num portal de informação para os que tem parentes ou amigos passeando ou morando na serra como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. No caso deste último eu posso falar com seguro conhecimento, haja vista que eu moro próximo ao local da tragédia. Mais de duzentas pessoas estão mortas e treze mil encontram-se desabrigadas. Vi prédio novo e casas fora da área de risco destruídas pela força das águas. Tem gente pobre e pessoas de melhores condições financeiras chorando a perda dos bens, amigos e parentes. Perdemos, o ex-prefeito desta cidade o senhor Paulinho Azevedo, que faleceu no desmoronamento de uma barreira. Praças e ruas foram cobertas por lama e entulho. Mercadorias espalhadas fora das lojas anunciam o caos do comércio. Carros e motos abandonadas por completa impossibilidade de uso e nas áreas mais pobres, móveis e eletrodomésticos empilhados nas calçadas denunciam o tamanho da perda. Estado de calamidade pública foi decretado pelo governo indicando que a economia deu um grande passo para trás.

silvioafonso